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Fio de Prumo



Quinta-feira, 04.10.12

5 de Outubro

 

Tenho setenta e um anos de idade e uma das recordações mais vivas que guardo da minha infância e juventude é o facto de as aulas começarem sempre no dia a seguir ao feriado comemorativo da implantação da República. E isso estava tão bem enraizado nas tradições nacionais que, até quando era cadete na Academia Militar, assim acontecia.

Antes de 25 de Abril de 1974, podia não se dar grande relevo às comemorações da vitória republicana em Portugal, mas algo ganhava ar de festejo, desde a romagem de uns quantos sobreviventes da 1.ª República ao túmulo de figuras políticas cujos restos mortais repousam no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa, até à simples notícia, em alguns jornais ou revistas de referência nacional, do que se havia passado nos dias 4 e 5 deste mês de Outubro no ano de 1910. E tudo isto vivi em pleno regime fascista, naquela terra onde “o vento cala a desgraça e o vento nada me diz”, no tempo em que se tinha medo de conversar livremente em espaços públicos — às vezes até em família — por causa da acção delatora dos bufos do regime que atemorizavam uma nação inteira. Nem Salazar, que viveu a vida política a equilibrar-se entre as pressões dos monárquicos e dos republicanos, se atreveu a acabar ou pensar acabar com o feriado que recordava o fim da Monarquia entre nós!

Foi necessário o país ficar sujeito à pilhagem da banca estrangeira para um Governo republicanamente traidor, em nome de maior produtividade — não me façam rir, por favor, porque não é por os Portugueses trabalharem neste feriado que a produção aumenta, senhores do Governo! — decretar o fim do dia em que cada um, à sua maneira, gozava os encantos de uma paragem laboral conseguida em memória dos heróis da Rotunda, dos homens do povo que lutaram pelo regime, dos políticos sonhadores de um Portugal maior e respeitado além fronteiras.

Nunca fui aos festejos do 5 de Outubro, nem antes nem depois do Abril libertador, mas sempre rejubilei, em família ou em público, por ter havido um comissário naval chamado Machado Santos e um punhado de sargentos do Exército e uns ousados oficiais de Marinha acompanhados dos marinheiros que, durante mais de vinte e quatro horas, fizeram tudo o que era possível fazer para termos vitoriosa a bandeira verde rubra hasteada nos mastros dos edifícios públicos e nas unidades militares. Traidor, republicanamente traidor, vendido, politicamente vendido, é este Governo que nos roubou o feriado que, como padrão histórico, assinalava o fim do regime monárquico e o começo do regime republicano em Portugal. Não lhe posso perdoar a ofensa feita à memória de todos quantos desejaram um Portugal de pé, hirto e altaneiro numa Europa monárquica que, há cento e doze anos, tremeu de receio não fosse o mal espalhar-se no “velho continente”.

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por Luís Alves de Fraga às 22:22


3 comentários

De garimpadas a 05.10.2012 às 04:16

O Povo devia comparecer amanhã no Largo do Município para festejar a implantação da República.

De Menina Marota a 07.10.2012 às 13:57

Como gosto de ler estas memórias...
Grata pela partilha.

De Luís Alves de Fraga a 11.10.2012 às 00:16

Grato fico-lhe eu pela visita e comentário.

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