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Fio de Prumo



Segunda-feira, 02.07.12

Quando a maldade é o objectivo

 

Mário Crespo, no “Jornal das Nove”, na SIC Notícias, a propósito das
reformas antecipadas acabou, ainda há pouco, por introduzir, marcadamente com
maldade, a questão da passagem à situação de reserva – reserva não é reforma –
dos militares. E fê-lo com maldade, porque “esqueceu” todos os antecedentes que
levam os militares a ser empurrados para a situação de reserva ainda em idades laborais
muito úteis, na casa dos cinquenta e tal anos (sete ou oito).

Temos de voltar atrás para perceber a maldade deste
entrevistador/manipulador.

 

A guerra colonial, ao durar treze longos anos, gerou uma muito grande necessidade
de oficiais e sargentos dos quadros permanentes. Não era possível fazer o
enquadramento de mais de cento e cinquenta mil homens com baixos efectivos ou
com efectivos milicianos. Quando a guerra acabou as Forças Armadas tinham um
elevadíssimo número de oficiais e sargentos absolutamente desproporcionado para
as necessidades do país nessa época e no quadro de paz que se vivia. Acresce
que era muito jovem a grande maioria dos graduados (recordo que tendo entrado
eu em 1961 para a Academia Militar — e comigo entraram mais cerca de 250
cadetes — tinha, aquando do 25 de Abril, trinta e três anos de idade… Era
“velho” para iniciar uma nova profissão e muito novo para ser empurrado para a
reforma).

Os Governos democráticos de então não quiseram arcar com a “herança”
recebida do período fascista e da guerra, daí que começaram por impor limites
de idade muito mais baixos dos que até então vigoravam para a passagem à
situação de reserva, levando a que um oficial ou sargento, se não promovido ao
posto imediato antes do limite de idade previsto, fosse compulsivamente passado
àquela situação.

Esta medida resolvia, em parte, o problema da quantidade de efectivos em
situação activa, mas ampliava desmesuradamente a situação de reserva facto que levou
o orçamento das Forças Armadas a ter de servir para pagar ao pessoal na
situação de activo e na situação de reserva até este atingir a idade de setenta
anos. Viveram-se tempos em que os gastos com os encargos com pessoal nas Forças
Armadas eram superiores às disponibilidades para instrução, treino e operação
dos meios, facto absolutamente perverso à luz do que se deve entender por
forças militares.

 

No Governo de Cavaco Silva, em 1992, Fernando Nogueira, ministro da
Defesa Nacional, criou um “modelo”, que prevalece até aos dias de hoje, que
consiste no seguinte: todo o militar do quadro permanente que transitar para a situação
de reserva, ao fim de cinco anos é passado à situação de reforma
independentemente de ter ou não sessenta e cinco anos de idade. Acresce que,
querendo ou não querendo, a mesma disposição de 1992, obriga os militares, que
ainda estejam no serviço activo com 65 anos de idade, a passarem de imediato à
situação de reforma. Ora, aqui está a explicação para os militares poderem
passar à reforma com idades ainda distantes dos 70 anos e, até mesmo, dos 65.

Assim se vê como um jornalista, que deveria estar bem informado quando
fala de um assunto, pode gerar num numerosa audiência um sentimento de revolta
contra quem não tem nem teve culpa das situações que lhe foram criadas! São
estes jornalistas que se tornam autores morais de preconceitos e prejuízos que
na sociedade civil se formam contra os militares. Se as Chefias castrenses
tivessem bons gabinetes de imprensa, este assunto merecia um comunicado oficial
para ser lido no Jornal das Nove, da SIC Notícias, pelo senhor Mário Crespo.
Será que alguém se lembra de tomar a peito esta questão?

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 23:11



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