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Fio de Prumo



Terça-feira, 22.11.05

Trinta anos depois


Faltam poucos dias para a passagem do aniversário do chamado «golpe» de 25 de Novembro. A História parece estar feita. Ainda agora, o semanário Expresso traz uma larga reportagem sobre o assunto.


Mas estará, de facto, feita a História do «25 de Novembro»?


Essa foi a data assumida, logo na altura, como sendo a do fim do processo revolucionário em curso (PREC). Tendo vivido os acontecimentos tenho uma opinião justificativa que diverge bastante de todas as que por aí circulam. Vou arriscar dar-lhe publicidade, como mera hipótese académica. Afinal, já passaram 30 anos!


Comecemos por nos situar no dia 11 de Março de 1975. Ao fim do dia estava criada a oportunidade de se avançar, sem rebuço, para as nacionalizações. Era imprescindível que assim se fizesse, porque não estando dominada a alta finança comprometida com o Estado Novo, o perigo do retrocesso era constante. E, a tal propósito deveria haver plena concordância entre Washington e Moscovo, por uma causa comum: as independências das colónias. Para ambas as capitais tinha de ser irreversível a descolonização, porque uma vez concluída, o teatro de confronto entre as duas super-potências passaria a ser em África, apoiando ou combatendo quem ficasse detentor do poder. Portugal era um teatro de operações político que, logo depois de retirar as suas tropas do continente africano, deixaria de ter interesse para os EUA e para a URSS. Importaria manter os Açores na órbita de Washington, nada mais.


Ora, as Forças Armadas haviam-se dividido, em consequência de cada qual entender a democratização segundo modelos teóricos pré-definidos e não como objectivos a alcançar com pragmatismo.


Cientes desse pragmatismo estavam os estados-maiores dos dois grandes partidos da altura: PCP e PS.


O PREC, em ritmo acelerado, tinha de reduzir o passo para se conseguir uma integração no modelo de democracia ocidental. Pessoalmente, julgo que Moscovo não estava interessado em empenhar-se num desequilíbrio europeu capaz de transformar a «guerra fria» em «quente», por causa de Portugal ou, até mesmo, por causa dos Açores. Washington, depois da última independência colonial, ficaria indiferente a que a democracia portuguesa incluísse o PCP ou o excluísse.


Se aceitarmos este cenário, temos que, para a ala progressista do MFA não comprometida com o PC, importava «abrandar» a «aceleração» revolucionária sem exclusão deste partido; ao Partido Comunista interessava continuar no processo de democratização, mas libertando-se da irrequietude de uma extrema-esquerda inconsequente, desvairada e sem significativos apoios internacionais.


Temos, por conseguinte, a explicação por que o «25 de Novembro» foi a 25 e não a 8 de Novembro ou a 25 de Outubro. A reviravolta dever-se-ia dar depois de 11 de Novembro, ou seja após a independência de Angola. Tudo o que acontecesse de seguida, em Portugal, seria da exclusiva responsabilidade dos Portugueses.


Depois da chegada a Lisboa das últimas tropas regressadas de Luanda, o fim da «bagunça» impunha-se de imediato. Ao mais alto nível do PCP — não me repugna a ideia — sabia-se da preparação de dois «golpes», o dos militares que pretendiam a desaceleração do PREC e o dos que, pelo contrário, inebriados pela euforia popular, desejavam uma tomada de poder pela extrema-esquerda. No quartel-general comunista deixou-se que ambos corressem para o afrontamento sem dar apoio aos primeiros e esperando que o bom-senso dos segundos travasse uma «caça às bruxas» (entenda-se, aos comunistas) que as alas mais reaccionárias do tecido social português tanto desejavam por incapacidade de perceber esta teia complexa de interesses cruzados. Ernesto Melo Antunes, o Homem lúcido e pragmático do MFA, logo no dia seguinte, à noite, na televisão, desmobilizou quaisquer veleidades contra os comunistas, chamando a atenção para a importância que eles tinham na construção da democracia no nosso país.


Tudo o que se passou, depois de 25 de Novembro de 1975, foram atitudes de mera vingança mesquinha, muitas vezes movida por despeitos pessoais mal resolvidos.


Se a hipótese que acabo de colocar algum dia for provada, ter-se-á de refazer a História, retirando certas glórias ao PS — por não ter sido, realmente, o «salvador» de Portugal das «garras» comunistas —, atribuindo ao marechal Costa Gomes a lucidez e a calma de ver para além dos acontecimentos — ilibando-o da grosseira imagem de alguém que flutuava ao sabor das ocorrências — e, finalmente, fazendo justiça aos militares do MFA — a todos sem excepção — por terem sabido fugir à tentação de uma guerra civil onde correria sangue de irmãos, afinal, por coisa nenhuma.


É esta tranquilidade, esta ponderação, este saber conduzir processos quando o caos parece comandar tudo, que os políticos, desejosos de fama e glória junto das gerações vindouras, em especial aqueles que, não tendo vocação castrense, não perdoam aos Soldados de Portugal os únicos a quem se deve a Democracia que eles — os arrogantes profissionais da política — têm vindo a atraiçoar.

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por Luís Alves de Fraga às 09:51


5 comentários

De Anónimo a 25.11.2005 às 21:35

Parabéns, Fraga, pela tua excelente análise dos acontecimentos de então. Melhor, não é tanto uma análise, como o relato lúcido, temporalmente distante e tentativamente frio do que se passou, por uma testemunha (e actor?) daquele processo.
Estes relatos não abundam e são extraordinariamnte necessários, pelos motivos explicitados pelo comentador anterior (Camoesas).José Cruz
</a>
(mailto:jancruz@clix.pt)

De Anónimo a 23.11.2005 às 12:48

Não faltará muito para que os nossos filhos e netos, aprendam na escola que foram Mário Soares e os falecidos Álvaro e Francisco, quem fez o 25 de Abril...
Salgueiro Maia e os "Capitães de Abril" serão para sempre apagados da história e o MFA será lembrado como uma corja de anarcas cabeludos e barbudos.
O PREC, terá sido o período de afirmação de uma nova classe, os políticos que meteram os Militares nos eixos... Meus caros, a História faz-se de factos mas,infelizmente para a história só fica o que queremos, o que não deixamos manipular, esquecer ou apagar.Camoesas
</a>
(mailto:camoesas@yahoo.com)

De Anónimo a 23.11.2005 às 09:02

Meus Caros Costa Monteiro e Fernando Ramos, agradeço as vossas palavras e os acrescentos explicativos que, naturalmente, não inclui no texto para evitar torná-lo excessivamente «pesado». Curiosamente, não posso deixar de referir a crónica de José Manuel Barroso, saída hoje no Diário de Notícias, que confirma o desinteresse do líder máximo da URSS sobre Portugal, manifestado em longa conversa com Costa Gomes e, mais ainda, como este, a 25 de Novembro, se quis entender com o PCP e não com a extrema-esquerda. Afinal, a hipótese era mais do que isso! Com efeito, o 25 de Novembro não foi um só «golpe»; foram vários «golpes» em um só, mas o alvo a abater quer pelo «Grupo dos Nove» quer pelo PCP - o PS e o PSD (como agora, no mesmo jornal, quer Graça Moura evidenciar) limitaram-se a mobilizar as massas populares de uma forma organizada e controlada para legitimar a acção militar - era, sem dúvida, toda a extrema-esquerda, fosse civil ou militar. E os louros desse abate são devidos aos militares que, pela segunda vez, em pouco mais de um ano, conseguiram repor a legitimidade democrática em Portugal. PS, PSD e CDS foram o «embrulho» necessário para a acção castrense, nada mais! A neutralidade conivente e conveniente do PCP, fez o resto.Luís Alves de Fraga
</a>
(mailto:luismfraga41@hotmail.com)

De Anónimo a 22.11.2005 às 16:43

Apesar de no fundo concordar com a análise, impede no entanto sublinhar que o "desinteresse" da URSS por Portugal não foi tanto desinteresse assim. Aprofundemos: Espanha ainda vivia o franquismo uma vez que o caudilho só faleceu a 18 ou 19 de Novembro e o PCE de Santiago Carrilho estava manietado. Os EUA estavam fragilizados com a saída desonrosa do Vietname e com o excessivo liberalismo democrata da administração Cárter.
Acresce que a URSS, ao por o pé em Portugal, abriria a frente basca e o nacionalismo catalão, facto que a NATO (EUA) não aceitaria no seu flanco sudoeste. Além disso a URSS ainda não tinha esquecido a derrota tecnológica infligida pelas FFAA israelitas na guerra do Yom Kippur, pelo que não se podia sujeitar a um conflito convencional na península ibérica de onde, aliás, já saíra derrotada em 1935.
Além disso, hoje sabe-se que essa hipótese não foi descartada, já que Franco Carlucci, na altura embaixador dos EUA em Portugal, escreveu nas suas memórias que uma divisão de Marines esteve ao largo da costa alentejana pronta a entrar, assim como a Brigada Acorazada de Bótoa, perto de Badajoz esteve em “manobras” a escassos 7oo metros de Campo Maior.
Quanto aos ódios rábicos sobre o marechal Costa Gomes e outros oficiais, a lição parece não ter sido aprendida e não é facto novo.
Parabéns pela crónica, mas não se pode tomar a nuvem por juno numa análise desta natureza, isto é, olhar só à conjuntura interna, esquecendo o que lá por fora se passava.
Melhores cumprimentos
Fernando Manuel Ramos
Fernando Ramos
</a>
(mailto:bambinofr@gmail.com)

De Anónimo a 22.11.2005 às 14:52

Parabéns, caro Luís Fraga por esta primorosa análise. Há muito que defendo a mesma tese. Mas é a primeira vez que a vejo escrita. Mas há dois pormenores do seu texto que desejo realçar pela sua veracidade: O desinteresse da URSS por uma "Cuba em Portugal", o que seria um grave erro estratégico, e o papel brilhante desempenhado por Costa Gomes. Esse sim, a grande figura de todo o processo (o que não impediu que fosse atirado para um canto e vilipendiado). De uma forma muito sintética, o que se passou em Portugal foi o seguinte: uma guerra colonial para sustentar o salazarismo; um derrube desse regime para retirar Portugal do xadrês africano.
Depois, Portugal e as ex-colónias foram abandonados às suas sortes.deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)

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