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Fio de Prumo



Sexta-feira, 25.05.12

Só por carma se nasce em Portugal

 

Portugal sempre foi um país pobre. O que aqui se produziu nunca chegou
para alimentar bem os povos, nem para gerar riquezas a não ser à custa da
exploração dos mais desgraçados de todos nós. D. Manuel I e D. João III, na impossibilidade
de pagarem à conta do orçamento da coroa os serviços prestados, deixavam que
todos os que escolhiam como destino e aventura o Oriente trouxessem para o
reino, gratuitamente, as especiarias que fossem possíveis transportar nas
embarcações da volta. Desde sempre o Estado — absoluto, no antigo regime,
liberal, nos tempos contemporâneos — foi a grande fonte de emprego dos
Portugueses. Tirando uma ou outra indústria que, consoante a época, foi
próspera, as restantes pouco mais davam do que para reduzir algumas importações
de produtos manufacturados. É verdade que, por falta de visão, se perderam
grandes oportunidades de fundar aqui indústrias concorrenciais que foram
instalar-se noutros Estados, algumas vezes menos dotados quanto à geografia e
ao clima. Essa miopia estratégica faz parte de um individualismo que nos
caracteriza, de um provincianismo que nos tolhe.

 

Depois de 25 de Abril de 1974 e, particularmente, depois da adesão à
Europa, consequência de uma abundância financeira falsa, de uma facilidade de
crédito absoluta, deixou-se engrossar o Estado, muito para além do que seria
razoável e conveniente, dando emprego directo ou estabelecendo dependências
indirectas absolutamente insustentáveis na base da nossa exclusiva produção.
Tudo cresceu e todos passaram a viver à sombra desse Estado protector. Todos se
foram ajeitando á mesa do orçamento que só era largo por causa do endividamento
que o alimentava. Foram os serviços que explodiram para além do razoável, foram
os salários que cresceram para cima do admissível, foram os municípios que se
transformaram em verdadeiros glutões do orçamento, foram as participações
principescas do Estado em empresas que só queriam para si os lucros e cediam ao
orçamento público os prejuízos, enfim, foi o regabofe em face de uma panela que
se julgava não tinha fundo! Mas teve e tem! E, agora, é necessário defini-lo,
estabelecendo as prioridades mais importantes. Ora, o que acontece é que o
Governo a quem coube, por voto alienado do Povo, a obrigação de pôr remédio nesta
ferida está cego perante a magnitude da tarefa e tolhido por causa das pressões
de todos os interesses instalados. E todos nós clamamos — e com razão — contra
os cortes absurdos que se nos deparam em cada dia, contra uma austeridade que
atinge fortemente os mais pobres e a classe média e deixa de fora os grandes
interesses da alta finança com a alegação de que ela é capaz de dar trabalho e
emprego a quem dele carece. O desnorte governamental, que se entregou nas mãos
de estrangeiros que de Portugal e dos Portugueses nada percebem, é responsável
pela onda de descontentamento que percorre o país de norte a sul.

 

Temos de recuar até à capacidade produtiva de Portugal e esse é o grande
incómodo que nos assalta. Fomos enganados pelos governos anteriores – todos os
governos – e fomos enganados pela doce ilusão que a Europa nos criou quando
pagou para desmantelarmos o pouco tecido industrial e agrícola que possuíamos,
gerando em todos nós a ideia de que seríamos sustentáveis com o turismo e a
exploração de múltiplos serviços. Fomos enganados quando o aparente crescimento
económico do país se fez à custa do alcatrão e do betão; enriqueceram as
empresas construtoras, mas todos nós fomos, cada dia, ficando mais pobre.

Está a ser doloroso este acordar de sonhos e de ilusões e o pior de tudo
é que a situação não se refaz em dois ou três anos! Vai ser necessária uma
década ou mais para reencontrarmos o equilíbrio dentro da escassez que
representa o nosso viver.

Só por carma se nasce em Portugal!

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por Luís Alves de Fraga às 12:18



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