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Fio de Prumo



Segunda-feira, 23.04.12

RECORDAR O PASSADO

 

Quando Salazar tomou conta da pasta das finanças, em 1928, Portugal
estava com a situação financeira tão mal que carecia de um empréstimo – mais um
de entre outros que havia contraído em Londres – já só possível de conseguir
junto da Sociedade das Nações. Os exilados políticos portugueses, de então,
fizeram saber junto daquela organização internacional que não se
responsabilizavam pelo pagamento do empréstimo caso voltassem a assumir o Poder
em Portugal. A Sociedade das Nações recusou o crédito.

Salazar tomou conta da situação e, de imediato, passou à acção: redução
abrupta das despesas do Estado, imposição do fim das greves e reivindicações
salariais, controlo absoluto das despesas extraordinárias de todos os
ministérios. Em três palavras: impôs a miséria. Desta forma o preço da
mão-de-obra baixou drasticamente e o pouco investimento possível no país
encontrava rendibilidade fácil graças às condições de trabalho existentes.
Definiu axiomaticamente que Portugal era um país agrícola e que o crescimento
industrial ficava condicionado de modo a evitar a concorrência desenfreada
entre sectores. Assim, novas indústrias tinham de ser apreciadas e autorizadas pelo
Estado e pelos patrões das que já estavam instaladas.

 

Em poucas palavras julgo que tracei de forma correcta o retrato do
Portugal dos anos de 1930 a 1950. Do quadro esboçado resultam imensas situações
que qualquer cidadão atento pode identificar com facilidade: condicionamento da
instrução pública, restrição do aumento dos quadros dependentes do orçamento do
Estado, favorecimento da alta finança e dos grupos instalados, limitação de uma
classe média a valores financeiros baixos e a numericamente pouco ampla,
existência de uma classe sub-média mais vasta e socialmente estabilizada que
servia de apoio ao “satus quo”, prática de salários bastante baixos compensada
com a existência de produtos de baixo valor, ligeira mobilidade social, fixação
das profissões mais modestas às suas áreas de trabalho, enfim, uma sociedade
com tendência a parar no tempo.

Se tentarmos uma explicação simples para esta situação ela encontra-se na
pobreza estrutural do país e na ausência de definição de uma política de
concorrência com busca de nichos de desenvolvimento.

 

Ao diligenciarmos descortinar o futuro de Portugal depois da intervenção
da troika e das medidas complementares que o actual Governo acrescenta às
determinadas pelo estrangeiro, é-nos fácil perceber que nos encaminhamos para
algo que não andará longe, social e economicamente, do modelo do Estado Novo. Poder-se-á
argumentar que o tempo não volta para trás, que as condições se alteraram, mas
há um facto que não sofreu modificação: a pobreza endémica do país. Na ausência
de uma política agressiva de busca de rumo para a economia nacional – e ela não
foi traçada na altura que melhor se apresentou, após a adesão à CEE – fica-nos
o “esqueleto” sobre o qual vivem os Portugueses. Historicamente, não tem sido
dentro de Portugal que se tem encontrado solução para a pobreza do nosso
território; o mar foi a saída e o comércio o desenlace para o que o solo e o
subsolo nunca nos ofereceram.

Já não temos marinha mercante, estamos em vias de perder a única
companhia de aviação nacional, as auto-estradas levam-nos para a Europa e não
para o Atlântico, a agricultura deixou de se fazer, a indústria está reduzida a
pouco ou nada. Sobram-nos alguns serviços e o turismo e, mesmo este, não o
sabemos explorar de forma rentável… oferecemos sol e praias, esquecendo que há
um Portugal interior para descobrir, um Portugal cultural para dar a conhecer,
um Portugal histórico para ser apreciado e um Portugal monumental que se
degrada à espera de quem o aprecie.

 

A troika e Passos Coelho mais os membros do Governo até parece que
andaram a estudar os tempos de Salazar para os reproduzirem à escala do tempo
presente. Só nos falta a ditadura, mas essa, não desanimemos, a seu tempo
chegará… a indiferença política dos governantes é já disso um sintoma.

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por Luís Alves de Fraga às 11:57



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