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Fio de Prumo



Domingo, 01.04.12

Trinta e nove anos

 

Há trinta e nove anos, a esta mesma hora, viajava eu no Boeing da Força Aérea rumo a Moçambique, com escala em Luanda. Ia iniciar a segunda comissão militar naquela colónia do Índico.

Chuvadas torrenciais fizeram desviar a aeronave do aeroporto de Luanda para o de Nova Lisboa onde, por motivos idênticos, não pudemos aterrar indo pousar no Aeródromo-Base de Henrique de Carvalho, última pista possível em Angola. Corremos, nessa madrugada de dia 2 de Abril, algum perigo. Importante não era isso, pois, no fundo, ser militar é estar preparado para correr perigos. Importante é que entre os oficiais que viajavam como passageiros naquele avião reinava, pelo menos nos mais graduados, uma quase certeza: estávamos a iniciar uma comissão que talvez fosse a última. Eu levava em mim essa convicção. Alguns meses antes, em Lisboa, o Manuel Duran Clemente lera-me um requerimento a pedir a passagem à situação de reserva, escrito em linguagem, para a época, duríssima. Nos artigos que eu publicava na “Gazeta de Coimbra” e no “Açoriano Oriental” já se notava a minha discordância em relação à situação geral do país… Notava-se tanto quanto a Comissão de Censura o permitia, está bom de ver!

 

A guerra estava a arrastar-se por tempo excessivo, as notícias que chegavam da Guiné não auspiciavam nada de bom. Os três líderes dos três movimentos de libertação das colónias africanas de Portugal haviam sido recebidos pelo Papa e isso causara a onda de “revolta encomendada” nos jornais do costume. As diatribes viravam-se, então, contra Roma. O Vaticano aceitava nos seus salões os “terroristas”, mostrando assim quanto tinha em pouca conta as razões do Governo de Portugal.

Havia meses, três ou quatro, tinha estalado na imprensa internacional a notícia do massacre de Wiriyamu, facto que abalara a posição política portuguesa. E nós sabíamos que a verdade não deveria andar muito longe da descrição dos factos. A guerra começava a ganhar contornos pouco edificantes – ainda que nenhuma guerra os tenha – muito embora se desenvolvessem esforços para, através da acção psicológica, levar as populações a negarem apoio e refúgio às guerrilhas infiltradas nos territórios.

Os Portugueses – não eram só os militares – estavam cansados da guerra. Em 1961, quando as primeiras operações estalaram em Angola, uma criança que tivesse concluído a, então, 4.ª classe estava, em 1973, apta a embarcar para a mesma guerra de que ouvia falar desde o fim da instrução primária! Era um esforço muito grande para um país tão pequeno e tão atrasado… A mais longa auto-estrada nacional ia de Sacavém a Vila Franca de Xira, qualquer coisa como vinte e cinco quilómetros! A emigração clandestina para França, Alemanha e Luxemburgo não fugia só à fome e à miséria, mas também, à guerra.

Nós, os oficiais do quadro permanente, os capitães e bastantes majores, percebíamos que a solução do conflito já não podia ser militar; tinha de passar pela política, pela diplomacia. Todavia, os indicadores que nos chegavam de todos os lados apontavam para a eternização da guerra. Uma guerra que só não era mais feroz porque as potências nela interessadas não davam maiores e mais profundos apoios aos guerrilheiros; se o fizessem o patamar a que se elevaria o conflito tornar-se-ia impossível de ser sustentado pelas Forças Armadas de Portugal. Esta realidade tem sido poucas vezes ditas, tem sido poucas vezes referida. A URSS e a China Popular estavam pouco envolvidas no conflito, preferindo mantê-lo “em lume brando” o qual era já, para Portugal, uma “fogueira” difícil de suportar.

 

Há exactamente trinta e nove anos a minha lucidez levou-me a manter muito precisos alguns objectivos que se perfilavam na minha mente: havia que saber ouvir e interpretar os sinais; havia que estar preparado para a mudança que se avizinhava.

Há trinta e oito anos – um ano depois de ter começado a minha comissão de serviço – na Beira, em Moçambique, eu aguardava intranquilamente uma mudança política que estava por dias. Não sonhava que trinta e oito anos depois a intranquilidade poderia voltar a ser o meu estado de espírito.

Valeu a pena? Adormeço muitas noites com esta interrogativa a martelar-me o espírito.

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por Luís Alves de Fraga às 23:45



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