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Fio de Prumo



Quarta-feira, 21.03.12

Para os descrentes

 

O Governo admitiu que cerca de cinco milhões de portugueses podem vir a ser dispensados do pagamento de taxas moderadoras no atendimento no SNS.

Se olharmos para a tabela das actuais isenções verificamos que contempla, por ordem: crianças de idade inferior a 12 anos, utentes com insuficiência económica, internados em lares para crianças e jovens privados do meio familiar normal, utentes com grau de incapacidade igual ou superior a 60%, dadores benévolos de sangue, dadores vivos de células, tecidos e órgãos, bombeiros, militares e ex-militares das Forças Armadas que, em virtude da prestação do serviço militar, se encontrem incapacitados de forma permanente e doentes transplantados. Daqui percebe-se que não vão crescer exponencialmente certos grupos de isentos: crianças, bombeiros, dadores, militares incapacitados, transplantados e jovens privados de meio familiar normal. O que vai crescer é o número dos utentes com insuficiência económica. E quem o diz é o Governo!

 

Portugal tem dez milhões de habitantes, se o Governo admite que cinco milhões vão estar incluídos no número dos dispensados de pagamento de taxa moderadora no SNS quer dizer que aceita que vamos estar reduzidos à miséria dentro de muito pouco tempo. Vão passar a engrossar o número dos pobres cerca de cinco milhões de concidadãos nossos. Isto, meus Amigos, é regredir ao tempo de Salazar. É regredir aos anos cinquenta do pretérito século quando era necessário um atestado passado pela Junta de Freguesia a declarar o estado de pobreza para se ter direito a assistência gratuita hospitalar! Há regressão de condições sociais ou não há regressão?!

Houve quem me chamasse, aqui há meses atrás, profeta de desgraças. Tê-lo-ei sido?

É claro que a medalha ainda não está completa – mas isso o Governo não o declara – pois falta dizer que a qualidade dos serviços vai diminuir significativamente por carência financeira para sustentar as unidades hospitalares em funcionamento de cruzeiro. Os meios complementares de diagnóstico vão ser mais raros, os medicamentos vão ser contados e, por conseguinte, vai diminuir o tipo de assistência prestada. Os médicos vão fugir para os hospitais privados – pelo menos os bons e com experiência – e vai voltar-se à prática da clínica privada em consultórios; numa primeira fase, os médicos cobrarão ainda preços elevados de consulta, mas, depois, terão de os baixar para estarem ao alcance da bolsa dos outros cinco milhões que pode pagar taxas moderadoras, mas prefere uma consulta privada com um clínico experiente. Tudo isto configura uma regressão a padrões de vida próprios da prática de um capitalismo “rastejante”, porque, rastejando financeiramente, vai estar a maioria da população portuguesa.

 

Ah, mas os tempos são outros! As alterações tecnológicas são de outra natureza, afirmam o descrentes deste cenário. Pois são! Mas a mesma tecnologia que serve determinados povos, no momento actual, não serve outros, como muito bem toda a gente sabe! Sabe e convive tranquilamente com esse facto, tal como vão conviver bem com a nossa pobreza os povos da “outra” Europa, a rica e poderosa! Já conviveram com um Portugal atrasado noutros tempos, porque não hão-de conviver no futuro que se avizinha? Diz o Povo, com uma grande carga de cinismo: «Com o mal dos outros posso eu bem!» Com o nosso mal podem muito bem os Franceses e os Alemães, os Nórdicos e outros! Quanto mais pobres formos, mais baratos serão o nosso sol e as nossas praias, as nossas comidas e os nossos vinhos! E os nossos hotéis! E o mais grave de tudo é que toda a gente sabe que assim vai ser, por isso se deixa cavar a cova onde nos vamos enterrar. A solução passava por travar o empobrecimento dos Portugueses. Havia que lutar pelo pleno emprego, pelo crescimento da economia, mas isso ia ao arrepio da vontade e do entendimento da troika, o mesmo é dizer, do grande capital financeiro.

O medo de soluções políticas ousadas, tem tolhido a grande massa de portugueses votantes, atirando-os ou para a abstenção ou para os braços do centro-direita. Não sabemos impor uma solução que nos convenha, porque carecemos de personalidade política bem definida. Enquanto colectivo, quando acordaremos?

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por Luís Alves de Fraga às 11:47



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