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Fio de Prumo



Segunda-feira, 12.03.12

O falhanço

 

Vamos a caminho de completar trinta e oito anos de regime democrático e se me fosse pedido para indicar o maior falhanço deste longo período não teria dúvidas em responder, usando duas palavras apenas: educação cívica.

 

Os escassos quinze anos e meio de vigência da 1.ª República, se mais nada deixaram construído no Portugal do seu tempo, legaram uma geração de jovens conhecedores dos valores cívicos. Uma geração que ia dos mais humildes camponeses das nossas aldeias perdidas nas serranias do interior até à gente das cidades. Foi dessa geração que nasceu a primeira leva de contestatários da ditadura; a primeira linha de anónimos opositores ao salazarismo. E foi possível construir em tão pouco tempo essa barreira humana, porque a República apostou forte no papel do professor em geral e no do ensino primário em especial. Mais tarde, na senda do que se fazia nas ditaduras europeias, o fascismo salazarista usou de igual medida para incutir na juventude portuguesa o nacionalismo exacerbado que campeava nas ideologias dominantes na velha Europa. Pode dizer-se que alcançou o seu desiderato, pelo menos nas cidades, entre a década de 30 e o início da de 50 do século passado. Daí em diante, muito poucos jovens se deixaram tocar pelos ideais fascistas.

 

Neste quase fim de ciclo que a presente crise anuncia de forma evidente, percebemos que o regime democrático, em Portugal, não apostou na educação ideológica da juventude. Ano após ano os jovens foram sendo entregues a si mesmos, abandonados às ideias de um consumismo internacionalista e vazio de objectivos altaneiros. Nas juventudes partidárias apostou-se na formação de quadros – nem sempre entre os mais válidos e dignos elementos – e deixou-se que o resto da população fosse fruto de uma Escola sem rumo nem bússola para além da mera aprendizagem de matérias geralmente mal sabidas. Campeia o desinteresse político numa geração dita “à rasca” que olha para o futuro tendo presente um só objectivo: alcançar um emprego onde se ganhe suficientemente bem para poder consumir sem tom nem som.

 

Há um ano, em Lisboa, julguei que havia, afinal, algo de profundo que me escapara à observação. Enganei-me! O que todos assistimos foi a um movimento de contágio onde o “folclore” prevaleceu, impôs-se por umas semanas e morreu sem deixar qualquer raiz capaz de desabrochar mesmo em tempo de Inverno seco.

 

A Democracia, em Portugal, não criou nem deixou criar a consciência cívica que a deveria sustentar. Não se educou a juventude, as sucessivas juventudes de há trinta e oito anos a esta parte. A apatia é o elemento dominante. O desinteresse, o comodismo e o imobilismo são os vectores que dão suporte aos homens e mulheres com quarenta ou menos anos de idade. Salvam-se as excepções, mas essas não definem a regra. E, acima de tudo, nem se podem culpar os jovens, pois a culpa não é, efectivamente deles. A culpa é nossa e dos governantes que fomos escolhendo ao longo dos tempos. Não soubemos acautelar a Liberdade e a Democracia através de uma Escola que incutisse valores cívicos nos nossos filhos. Tivemos medo da importância das ideologias. Tivemos medo da força dos votos daqueles que deveríamos ter ensinado a votar. Acreditámos que bastava usufruir da Liberdade e da Democracia para assim lhes aprender e apreender o valor. Tivemos medo de falar em Pátria e em Nação. Tivemos receio de desagradar aos nossos filhos, de lhes dizermos não e sim quando as ocasiões impunham posturas de grande firmeza e frontalidade. Comprámos-lhes os silêncios, optando por escolher governantes que nos não governavam! Deixando que “Senhores Silvas” mostrassem a sua incapacidade, a sua mediocridade como se de valores dignos se tratassem. Escolhemos os caminhos mais fáceis e eles aí estão a desaguar no precipício. Somos colectivamente culpados das nossas inépcias, dos nossos medos, dos nossos erros!

Teremos salvação, enquanto Povo? Gostava de acreditar que dos destroços da catástrofe que se avizinha ainda se erguesse a Esperança cheia de ânimo. Teremos força, coragem e vitalidade?

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por Luís Alves de Fraga às 23:47



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