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Fio de Prumo



Terça-feira, 10.01.12

Tudo em família

 

Hoje, desculpar-me-ão, resolvi contar-vos uma história. Uma história que pode estar a passar-se neste momento ou ter ocorrido há muitos anos. Não é importante o tempo em que foi vivida.

 

Havia um pai de família, com sete filhos maiores e empregados, que estava completamente endividado, insolvente. Conseguiu um acordo com os credores que lhe impuseram regras de vida de modo a não aumentar a sua dívida. Uma delas era que, anualmente, o saldo negativo dos seus negócios não ultrapassasse a margem de 3% da sua facturação.

Esse pai de família, quando negociou o pacto com os credores foi-lhes escondendo — por manha ou por descontrolo — a verdadeira dimensão do descalabro financeiro e, por conseguinte, das suas dívidas. Estas foram surgindo, mês após mês, já depois de estabelecido o acordo.

Em Dezembro do ano em que o pai de família fez a combinação com os credores, para poder cumprir o que estava estabelecido, depois da gestão “normal” dos negócios, o saldo negativo ainda era superior aos 3% da facturação. Impunha-se alcançar a meta planeada. Ora, um dos processos para satisfazer o objectivo, já que não havia reduzido suficientemente as despesas ou não tinha aumentado as vendas, consistiu em pedir a cada um dos filhos que lhe emprestasse as suas economias, pois, se comprometeu, também com eles, a pagar mensalmente uma percentagem da nova dívida, ajudando-os, deste modo a sobreviverem.

No final do ano seguinte, uma vez mais, apesar de ter encolhido as despesas da governação da casa e do negócio e de ter tentado, por todos os meios, ampliar a facturação, tornou a confrontar-se com um saldo superior aos tais 3%, e tudo porque, cada vez mais, a sua fabriqueta, por falta do devido investimento, produziu cada vez menos. Acresce que, por força desta circunstância, os filhos começaram a entrar, também eles, em incumprimento das suas obrigações, pois o pai não lhes havia saldado a comissão previamente combinada. A insolvência já não pesava só sobre a cabeça do pai, mas também sobre a dos filhos. Foi a ruína de toda a família!

Os credores juntaram-se em magna assembleia e perguntaram-se: — Qual o motivo da situação caótica do nosso devedor? Um, de entre todos, levantou-se e disse: — É simples! O nosso devedor nunca teve uma boa contabilidade, nem um bom controlo dos dinheiros e da produção. E mais, não soube negociar connosco! Exigimos tudo o que quisemos e ele a tudo cedeu. Tem, em minha opinião, o que merece! Fiquemos-lhe com a casa, os bens que ainda lhe restam e o negócio. Reduzamos todos os membros da família a meros empregados nossos até que nos hajam pago tudo o que nos devem! Em coro, os restantes credores gritaram: Apoiado, apoiado. Escravizemo-los, que mais não merecem! Nomeemos um feroz capataz para os governar durante o tempo que for necessário. Retiremos-lhes o direito de reivindicação, a liberdade de expressão e de reunião. Não merecem!

E foi assim que uma velha família daquela aldeia antiga e velha ficou a viver a mais negra e atroz escravidão.

 

Quereis saber, estimados leitores e Amigos, o nome deste chefe de família? Pois aí vai para satisfação da vossa curiosidade: Governos, o de baptismo, e, Portugal, o de família. Os filhos davam pela alcunha de Fundos de Pensões.

Bom, para completar a história, falta saber como se chamavam os credores, mas eram tantos que resolvi designá-los por uma expressão simples: Alta Finança.

Claro que o capataz também tinha nome, mas, o dele, deixo à vossa imaginação… É que gosto de histórias interactivas…

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por Luís Alves de Fraga às 13:17



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