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Fio de Prumo



Quinta-feira, 08.12.11

Sócrates e a dívida

 

Como o prometido é devido, cá estou a cumprir a promessa — dar a minha opinião sobre o pequeno vídeo em que o antigo Primeiro-ministro de Portugal diz que as dívidas nacionais não são para se pagar, mas para se gerirem bem.

 

Para me poder fazer compreender, deixem que me socorra de um exemplo simples e hipotético. Suponhamos que uma família tem de rendimentos mensais (não interessa qual a natureza dos mesmos) mil euros e que consegue viver com esse valor de um modo tangencial, ou seja, sem qualquer tipo de despesas extras e sem qualquer tipo de poupança. Esta família está sujeita à conjuntura externa e interna a ela, já que nenhum sobressalto pode ocorrer que destabilize o seu precário equilíbrio. Está, por conseguinte, numa situação altamente fragilizada; se a conjuntura externa se lhe tornar favorável poderá viver com saldo positivo, mas, se internamente surgir uma doença pode ter de optar entre tratar o doente e pedir dinheiro emprestado ou deixar que se agrave a situação do paciente e ele morra.

Suponhamos, agora, que surge uma oportunidade de, com duzentos euros suplementares, a mãe da família frequentar um curso que a habilita a desempenhar uma tarefa mais remunerada do que aquela que executa todos os dias, facto que trará um acréscimo de rendimento de cem euros mensais ao agregado familiar. Para que o curso possa ser frequentado tem de haver um empréstimo, este pode ser negociado de várias maneiras: alargando o prazo de liquidação ou reduzindo a taxa de juro a pagar. Admitamos que a solução encontrada é a de uma liquidação de vinte euros mensais durante vinte e quatro meses. Teremos, assim, que o rendimento líquido da família passou a ser de mil e oitenta euros durante os primeiros vinte e quatro meses após a conclusão do curso e do aumento de salário da mãe. Este facto dá àquele agregado familiar uma folga de mais oitenta euros em cada mês a qual aumentará em mais vinte findo o prazo de liquidação do empréstimo. Estamos perante uma situação de boa gestão de uma dívida.

Suponhamos que a mesma família, sem possibilidades de gastar para além dos mil euros antes referidos, em dado momento, opta por pedir um empréstimo de duzentos euros para um dos filhos ir fazer um passeio a Sevilha; a família contrai a dívida nas mesmas circunstâncias já descritas. Então, o agregado familiar terá de viver vinte e quatro meses com novecentos e oitenta euros de rendimento o que é manifestamente impossível. O pai, para tornar a vida mais simples, contrai um outro empréstimo de trinta euros mensais durante vinte e quatro meses para começar a liquidar ao fim desse prazo, devendo reembolsar o prestamista em trinta e cinco euros mensais durante trinta e seis meses. Estamos, como se pode ver, perante uma gestão descontrolada da dívida.

 

Qual é uma das conclusões que se pode tirar deste exemplo? Que todas as dívidas que se destinam a reprodução e aumento de rendimento são rentáveis enquanto que todas as que representam desperdício são nocivas à economia. Mas mais ainda: só pode haver crescimento económico quando há acréscimos financeiros aos rendimentos normais. De onde vêm esses acréscimos? De poupanças — se forem possíveis — de empréstimos, quando bem geridos.

Transformemos a “família” num Estado. Embora complexificando-se os circuitos, as bases sobre as quais assenta o raciocínio são exactamente as mesmas: São necessárias poupanças para alimentar a banca que, por seu turno, disponibiliza dinheiro para investimentos produtivos e para consumos inúteis. Se a banca empresta muito dinheiro internamente e se o nível de poupança interno não é elevado terá de se ir financiar junto de bancos estrangeiros, gerindo com cautela o balanço entre o seu activo — ou seja, o que tem ou lhe devem — e o seu passivo — ou seja, o que deve… e o que um banco deve é constituído pelos valores depositados pelos aforradores e mais aquilo que teve de pedir emprestado para satisfazer a procura de crédito.

 

José Sócrates tendo estudado ou tendo aprendido estes princípios elementares de Economia Política não disse nenhuma asneira nem nenhuma heresia: o crescimento económico faz-se à custa de empréstimos que se têm de gerir com cautela. E quanto mais frágil é a economia de um Estado mais ele tem de se socorrer de empréstimos internos e externos; se a sua economia é débil compreende-se que seja difícil conseguir um alto padrão de poupança interna, donde, naturalmente, o recurso à dívida externa aumenta para gerar riqueza. A ideia contrária à dele foi a que norteou Oliveira Salazar e, por isso, nunca foi forte a economia nacional durante o Estado Novo, pese embora, fosse forte o valor do escudo no câmbio internacional… nisso iguala-se Salazar à chanceler alemã Ângela Merkl.

 

O rasto de aversão política que Sócrates deixou entre os Portugueses, por causa de nunca assumir com verdade e frontalidade a situação do país, por causa de protecções escandalosas e por causa da campanha mediática que contra ele se mobilizou, levou a que se lhe atribua uma fama que o ultrapassa; levou a que os Portugueses desconfiem de tudo o que possa afirmar. Todavia, desta vez, José Sócrates tem razão no que diz e é conveniente que se recorde a minha antipatia pessoal em relação ao nosso antigo Primeiro-ministro. Creio ser insuspeito.

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por Luís Alves de Fraga às 21:41



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