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Fio de Prumo



Domingo, 04.12.11

Missão e serviço

 

Ontem à noite, no meu escritório, quando me preparava para deitar, arrumando papéis e desligando o computador, fui assaltado por uma ideia que me fez ficar mais meia hora a meditar: a diferença entre missão pública e serviço público. Deixem dar-vos conta do resultado das minhas lucubrações, pois julgo-o importante para nos precavermos no futuro e deslindarmos antecipadamente possíveis perigos.

 

Serviço público é aquele que se faz em benefício da comunidade e que se assume como um dever depois de interiorizado. Serviço público é o trabalho do militar, do bombeiro, do polícia, de todo o pessoal de saúde. É gente que é paga — às vezes de forma insuficiente — para estar à disposição da comunidade nos momentos mais críticos da vida em conjunto. É gente que se dispõe a correr riscos para que os outros se salvem. É um trabalho que se faz contra remuneração, mas, quem o executa, na maior parte dos casos, abdica do verdadeiro valor daquilo que faz para servir por altruísmo e abnegação. O serviço público é uma actividade nobre e enobrecedora, digna e dignificante. Ainda há poucos dias tivemos uma prova disso mesmo no salvamento, levado a cabo por equipas de especialistas da Força Aérea e da Armada, de seis pescadores perdidos no mar alto.

 

Confundindo-se, aparentemente, com serviço público está a ideia de missão pública. Explico.

Missão pública é aquele tipo de serviço público que se faz julgando que se está possuído de um empenhamento teocrático. É um serviço ditado por entidade, normalmente divina, que confere poderes e obrigações superiores à dos restantes membros da comunidade, serviço que ultrapassa a vocação para se tornar numa imposição. Estão neste caso os membros de comunidades religiosas — que, embora começando a sua vida por uma vocação, a transformam numa missão —, a nobreza aristocrática, os monarcas e os ditadores. Entre eles há um elo comum: a ideia de que foram investidos superiormente para conduzir a comunidade onde se inserem. No julgamento aparente quase nada os liga, mas, se formos profundos na análise, encontramos esse liame subtil que os iguala. De todos, o mais perigoso é o ditador. Pulula e reproduz-se no meio político, por ser aquele que lhe oferece o melhor aconchego para realizar-se. Julga encarnar a alma da colectividade, dispondo-se a conduzi-la, mesmo contra a sua vontade, para destinos idealizados nas noites de insónia e de pesadelo. O ditador, mesmo que travestido de democrata, tem sempre uma “missão”; uma “missão” que deseja transformar pública, colectiva, se possível, nacional.

Há, por este mudo de agora, muito ditador que se faz anunciar como democrata. É um puro embuste, pois torna-se necessário saber ver e perceber para além das palavras indo, se possível, ao âmago do comportamento.

O político que se tem como servidor público não se apega ao cargo e, acima de tudo, deixa-se colocar em causa, deixa-se criticar, por ver na crítica uma forma de crescimento, um processo de melhor contribuir para o bem-estar de todos os que nele confiam. Ao revés, o político para quem a crítica é uma afronta é aquele que se julga possuído de uma “missão”, sendo, por natureza, insubstituível.

 

Desculpem-me os meus Amigos e leitores esta longa e árida dissertação. Penso-a necessária para acertar pontos de referência em relação aos políticos que nos cercam, aqui, em Portugal e no mundo. Termos a percepção de que democrático não é só quem se afirma como tal, mas quem faz da política um serviço e não uma missão. Cuidado com os “eleitos” por nascimento, por imposição divina ou por vontade própria. As armadilhas estão aí, esperando que nelas caiamos incautamente.

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por Luís Alves de Fraga às 18:34



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