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Fio de Prumo



Terça-feira, 15.11.11

O Portugal de Salazar

 

  

 

 

Pensar Portugal não é um exercício simples, pois rapidamente se pode cair em análises redutoras e, por isso, falsas, por incompletas. Mas podemos tentar traçar o retrato daquilo que foi o Portugal pensado por Salazar. Idealizado por ele. Como é natural, por arrastamento, chegaremos ao estereótipo do português típico que fervilhava na cabeça do ditador.

 

Para o Presidente do Conselho de Ministros do Estado Novo, que havia começado como ministro das Finanças, Portugal tomava os contornos da sua Beira natal onde imperava a miséria, uma religiosidade muito próxima da crendicie, um conformismo pacífico no qual a raiva não existia ou era afogada em orações beatíficas que livravam das penas do Inferno o pecador. Portugal deveria ser pobre, porque na pobreza residia a felicidade; deveria ser manso, porque na mansidão estava a virtude da conformação; deveria aceitar o seu destino, porque a ambição era fonte de tentações incontroláveis; deveria ser agradecido, porque a gratidão constituía a qualidade dos reconhecidos.

 

É verdade que este quadro foi defendido e propagandeado durante dezenas de anos e moldou mentalidades. Moldou, porque as castrou. E mentalidades castradas perdem o entusiasmo da revolta, perdem o salutar desejo de vencer dificuldades por muito grandes que elas sejam, aniquilam a visão de horizontes largos, tudo reduzindo ao pouco e seguro que nos chega para viver o dia-a-dia que Deus manda.

 

De tal forma Salazar moldou mentalidades eunucas que, mesmo depois de morto há quase meio século, elas proliferam por aí, de Norte a Sul, de Leste a Oeste. São os conformados com as decisões da troika que nos está a empurrar para a miséria, são os bem instalados que se preocupam com a sua barriga, deixando que as dos esfomeados se colem às costas — não é que o reino de Deus será dos mansos e dos pobres? —, são os “pequenos Salazares” que se contentam com uma democracia (não podem negá-la, nem rejeitá-la!) que se faz de meras aparências, de votações a tempos certos quando os poderes públicos ordenam.

 

Olhando para esta herança do fascismo, pergunto-me porquê se hão-de alvoroçar estes capados quando vêem nos outros a capacidade de revolta, de indignação, de contestação, de reivindicação? Porquê hão-de aconselhar o horizonte curto quando não têm o poder das águias que se erguem altaneiras descobrindo outros mais além? Porquê se ficam por uns vivas a um Portugal amesquinhado e não se erguem por um Portugal liberto?

 

Será que Salazar foi mais longe do que lançar sementes de conformismo ou descobriu que uma parte deste Povo não tem, realmente, músculo nem vontade e, por isso se deixa apascentar como rebanho de ovelhas pachorrentas?

 

Não. Não é no Portugal de Salazar que eu me revejo! Eu remiro-me nas multidões que ordeiramente sabem dizer o que não querem, nos homens e nas mulheres que reivindicam uma liberdade que nos pretendem tirar em nome de um equilíbrio orçamental, de uma moeda que se não desvaloriza e do bem-estar de opulentos senhores da alta finança vivendo dos rendimentos de chorudos depósitos que têm em paraísos fiscais.

 

Não. Salazar está morto e enterrado e é necessário que se faça um funeral condigno à maldita mentalidade que deixou impregnada em vastos sectores da sociedade nacional.

 

Temos o direito de nos indignar! Indignemo-nos.

 

 

 

 

 

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por Luís Alves de Fraga às 22:54



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