Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo



Sábado, 04.03.06

Armamento e cultura

prumo.JPG


Li algures um artigo que me despertou para a reflexão de hoje. Convido-vos a caminharmos em conjunto.


Há vinte e cinco anos, em plena guerra fria, os arsenais militares cresciam nas duas super-potências a um ritmo assustador e perverso. Acompanhando-as, à distância, estavam as grandes potências mundiais que, dentro das possibilidades das respectivas economias, reuniam panóplias de morte, esperando o momento de as poder utilizar.


Caiu o muro de Berlim, deu-se a implosão do bloco de Leste e o crescimento armamentista perdeu, pelo menos de momento, o seu ímpeto. Mas o cenário está a mudar. As ameaças de construção de armas nucleares surgem de onde, há trinta anos, os sinais bélicos eram de importância menor. Isto vem a par com a marcha célere para a chamada globalização. Uma globalização que impõe brutalmente a democracia a povos cuja tradição aponta para se deixarem reger por princípios diversos dos aceites na Europa e nos Estados Unidos.


Novamente, agora a partir de Washington, se redefine o velho «fardo do homem branco» que os britânicos assumiram na segunda metade do século xix. Contudo, neste momento, não é a cor da pele quem determina a motivação. Na actualidade, o motor é um conceito de convivência social erradamente denominado democracia. É o fardo do homem democrata.


Tão falso e tão ignóbil como foi o do século xix é agora este slogan do século xxi. Na verdade, ninguém está interessado na democracia no Afeganistão, no Iraque, no Canadá, nos Estados Unidos, no Irão, na Palestina, na Europa, em Angola ou no Chile. Não! A democracia política e popular é, para os povos, um soporífero tão útil como foi, no passado, a religião segundo afirmou Karl Marx! A democracia existe, mas é ao nível dos grandes decisores do capital internacional, ao nível de quem determina como se vai dividir e governar o planeta!


Tudo começou, no pós-2.ª Guerra Mundial, nos Estados Unidos, quando se inventou a frase «The American way of life»! As grandes multinacionais definiram um padrão tipo de comportamento para os Americanos e impuseram-no através de uma poderosa máquina publicitária. Agora impõe-se, pela força, se necessário, «The democratic way of life» que obedece ao mesmo modelo concepcional, embora discutido entre os mais poderosos senhores do capital global. Nos anos 50 do século passado, os Americanos foram convencidos que escolhiam as calças, a casa, o carro, os filmes, os abafos, o aparelho de televisão, as pastilhas de mascar e as diversões que muito bem entendiam. Estavam enganados! Escolhiam dentro de um leque de mercado que, «democraticamente», as multinacionais, qual Mafia, haviam repartido entre si. Agora o fenómeno é global. A decisão abarca o planeta e o condicionalismo tende a espalhar-se como uma mancha de óleo. Repare-se como se tem de mudar de automóvel ao cabo de poucos anos de utilização ou como fica obsoleto o computador que ontem era o topo de gama ou como a velha pasta dentífrica fica ultrapassada por uma outra que lava mais branco ou... E poderia continuar indefinidamente. Tudo é ultrapassado, porque a guerra fria agora não se faz com armamentos, mas com produtos de consumo vulgar! A corrida ao consumo resulta de uma escalada na obsolescência forçada. Mas os riscos espreitam-nos...


Espreitam-nos em consequência do confronto de culturas. A incapacidade ocidental de perceber que o Estado islâmico forma um bloco único entre Direito, condução Política e Religião está na origem de todos os conflitos efectivos e latentes. É na tolerância — e tolerância quer dizer que se tolera, que se convive sem confronto — entre culturas que a paz se deve construir. Comparar Hitler e o expansionismo nazi à revolta islâmica contra as imposições ocidentais é um erro tremendo, porque não há semelhança nenhuma. Hitler usou e deturpou os conceitos culturais que estruturavam a cultura alemã a qual tinha a mesma matriz da cultura britânica ou francesa.


O perigo, neste momento, está no facto de povos culturalmente distintos poderem usar técnicas iguais e, de entre elas, as técnicas militares, porque essas, a tal democracia da oligarquia capitalista, as colocou ao alcance dos povos a quem querem dominar, tal como no século xix os mesmos que proclamavam o fardo do homem branco se encarregavam de fornecer espingardas e outras armas de fogo aos «pobres» negros «incivilizados». Contudo, é conveniente perceber a diferença entre democratizar os povos islâmicos e aceitar a concorrência com os povos orientais onde a mão-de-obra, por ser escrava, permite a escalada produtiva. O perigo espreita o chamado mundo ocidental de vários lados e poucos se apercebem desta tremenda corrida para o abismo.


Será bom que, se as populações se deixam intoxicar pela propaganda política das oligarquias capitalistas e neo-liberais, os militares mantenham a cabeça fria e capaz de separar valores de modo a não permitirem ser arrastados para conflitos bélicos irracionais.


Compete às Academias que formam os oficiais terem ponderação e sensatez, que não é apanágio dos políticos, de modo a incluírem nos seus curricula disciplinas que ajudem os alunos a formarem-se como seres pensantes sabedores de como se maneja o fio de prumo de modo a encontrar o verdadeiro equilíbrio e a correcta verticalidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 15:43


2 comentários

De Anónimo a 06.03.2006 às 17:33

É sempre um prazer ler os seus artigos de opinião, que se pautam sempre por uma clarividência atenta sobre os problemas da actualidade.
Não posso deixar de realçar a oportunidade da chamada de atenção para o ensino nas Academias militares no que respeita à formação no âmbito do pensamento social e político, extremamente importante, quando os nossos governantes (confrangedoramente desconhecedores do que é a instituição militar),têm procurado nos últimos anos fazer desaparecer os militares e os problemas das Forças Armadas (que são problemas do País, portanto de todos os cidadãos)como se elas práticamente não existissem,a não ser nos momentos em que parte algum contingente de Figo Maduro para uma missão no estrangeiro, ou para uma visita ao Iraque , Afeganistão ou Bósnia,onde está sempre grantido o respectivo tempo de antena para as televisões.
Carlos Magalhães
</a>
(mailto:carlosmagalhaes@mrcortez.pt)

De Anónimo a 04.03.2006 às 23:05

Excelente dissertação sobre o tema da democracia. Subscrevo-a totalmente. Utilizando as suas palavras, caro Fraga, "melhor só em Braile". Mas, com a frontalidade que me caracteriza, não posso deixar de fazer um pequeno reparo que, de forma alguma, tira o brilho deste oportuno artigo. Na guerra fria as estratégias dos dois blocos asentaram mais na dissuasão do que no confronto. O poder nuclear era tanto que ambos os lados sabiam que iriam sofrer danos inaceitáveis e que nenhuma vitória seria possível. Por outro lado, a ameaça nuclear significava que, pela primeira vez na História, os líderes que decidiam a guerra poderiam ser mortos no primeiro dia das hostilidades...deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Março 2006

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031