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Fio de Prumo



Quarta-feira, 30.11.05

Caixinha de surpresas

 

Ontem, 29 de Novembro, fomos surpreendidos com a notícia que Lisboa, em Março de 1975, teria dado indicações a Washington de não se opor militarmente à invasão indonésia do território de Timor Leste. Sabemo-lo, porque só agora foram abertos arquivos secretos americanos onde se guardavam tão singulares documentos.


Durante alguns dias — se calhar aproveitando a pré-campanha para as eleições presidenciais — vai ser explorada esta recente informação. Depois, depois tudo cairá no esquecimento, como vai sendo habitual entre nós, cada vez mais absorvidos por esta sociedade de consumo rápido. Esquecimento até que, de novo, se abra a caixinha das surpresas sobre Timor e de lá salte outra novidade.


Para mim, que, posicionado aqui em Lisboa, acompanhei os episódios do quotidiano de há 30 anos dividido entre dois sentimentos — o de cidadão afectado pelas ocorrências do dia-a-dia e o do observador histórico a viver a própria História —, estas descobertas vêm confirmar suspeitas reservadas no meu íntimo durante as últimas três décadas. Com base nesse motivo, sinto-me autorizado a escrever sobre a notícia vinda agora a público.


Os homens e mulheres que hoje têm 40 anos eram crianças inocentes em 1975. Pouco ou nada recordam desses meses que mudaram a vida e os destinos de Portugal. A sua «virgindade» memorial leva-os a acreditarem em tudo o que oiçam ou leiam dito ou escrito por quem eles julgam autorizados no conhecimento da matéria. Nós, os mais experientes, sabemos como se deturpa a verdade para daí tirar dividendos. Ora, em traços largos, a verdade é que há 30 anos, em Março, se vivia a mais completa confusão social no país. Os Portugueses queriam encontrar o caminho do futuro, mas, sem experiência política, ensaiavam as mais diferentes vias levados por todas as «sereias» que lhes cantavam aos ouvidos. Os oprimidos, as vítimas de um regime ditatorial que durara 48 longos anos, desejavam, de um dia para o outro, ver mudada a sua condição. Gritavam os operários, barafustavam os agrários, fugiam assustados os patrões, tomavam-se de assalto as casas devolutas, acusava-se este e aquele de fascista ou reaccionário, de comunista ou revisionista. As ideologias andavam no ar. Os soldados e os marinheiros recusavam a autoridade simples das hierarquias tradicionais, aceitando as revolucionárias e as que mais laxismo permitiam. Tudo era contestado, porque tudo era contestável. No Norte, as populações, mais tradicionais, viviam assustadas perante a hipótese de uma revolução comunista; no Sul, porque tradicionalmente mais explorados, os trabalhadores clamavam por um sistema justo de distribuição da riqueza.


Manter o equilíbrio e a tranquilidade neste mar encapelado foi muito difícil. Era preciso um extraordinário esforço de distanciamento como se tudo o que se passava à nossa volta fosse um filme visionado num ecrã gigante e nós simplesmente estivéssemos sentados na plateia.


Expostos os contornos de uma situação social altamente complexa, pode perguntar-se: — Causa alguma estranheza que de Lisboa se tenha dado a resposta que agora os arquivos revelam? Quem viveu tudo isto e quiser ser honesto tem de concordar que era impossível fazer mais. O reforço militar mandado para Timor foi uma simples companhia de Pára-quedistas numa altura em que ainda eram uma tropa de elite. O seu poder de combate embora respeitável, não seria suficiente para se opor a um desembarque em forma de tropas invasoras. Recuarem para as montanhas e dali manterem os Indonésios fixos em Díli e suas redondezas era uma operação possível de ser tentada se se tivesse a certeza que, mais tarde ou mais cedo, chegariam reforços de Lisboa e, acima de tudo, apoio logístico. Nada disso estava assegurado, pelo contrário. O próprio desentendimento político entre Timorenses impedia a opção sugerida. Já então o irrealismo e a incapacidade dos Americanos para avaliarem as situações de povos cujos hábitos desconhecem foi claramente relevada face aos documentos agora trazidos a público.


Vale a pena meditar nesta questão para se perceber como os actuais «donos do mundo» são soberanamente ignorantes!

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por Luís Alves de Fraga às 09:26


5 comentários

De Anónimo a 01.12.2005 às 02:18

É facto que, há cerca de um mês, numa sondagem de opinião, a classe política ficou perdedora em relação aos professores e militares ( outras classes também houve, melhor classificadas)numa análise de credibilidade das funções. É facto também, que a classe política (Governo actual) moveu lobbies de comunicação social e continua a denegrir todos os "funcionários Públicos", tentando em vão, fazer crer ao povo, que estes serão os culpados do estado (paupérrimo) da Nação. Uma vez mais, os Portugueses demonstraram e o farão novamente nas urnas. Credibilizar ou "punir" os verdadeiros usurpadores, os que não o afirmando, sabem ser os responsáveis e se acham inimputáveis ( se bem que temporários ), SORVEDORES do Estado!Camoesas
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(mailto:camoesas@yahoo.com)

De Anónimo a 01.12.2005 às 01:32

Fiquei a saber (como todos os portugueses) que um dos candidatos presidenciais, se referiu a REACCIONARIOS, como sendo-o, todos os que contribuam de algum modo para o que considera ser a má imagem ou qualificação negativa dos políticos portgueses.
Engraçado que, aparentemente, em qualquer regime (democrático ou ditatorial), quem mostra discordância, é apelidado pelos "democratas" como sendo REACCIONARIO.Afinal, este candidato, esqueceu-se do que fez supostamente em nome da liberdade e democracia, ou, agora chegou à triste conclusão de que também ele é e foi REACCIONÁRIO??? Camoesas
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(mailto:camoesas@yahoo.com)

De Anónimo a 30.11.2005 às 20:54

Caro Brás, julgo que o Sousa Tavares fez tal afirmação por mero protagonismo político, atendendo à idade que tinha aquando da ocorrência dos acontecimentos a que se referia. O mundo e a Vida para ele, nessa altura, eram ainda vistos de um modo pouco objectivo, por muito «maduro» que ele fosse. Na realidade, em Portugal, no mês de Março de 1975 a instabilidade era tal que não se pode acusar este ou aquele grupo pelas decisões tomadas, porque geria-se o dia-a-dia e todo o conjunto de novas situações criadas pela dinâmica popular. As reivindicações e a indisciplina social estavam perfeitamente implantadas nas grandes cidades portuguesas (Lisboa, Porto, Setúbal, Coimbra, Beja, Évora, Braga, etc.). Entre 26 de Abril de 1974 e Março/Abril de 1976, tanto a Junta de Salvação Nacional e o MFA, primeiro, e, depois, o Conselho da Revolução, mais os Governos e a Assembleia Constituinte, eram confrontados com problemas pontuais dos mais diferentes tipos. Este género de situação caracteriza os momentos revolucionários (que podem durar mais ou menos tempo, mas são sempre social e economicamente devastadores pela falta de controle e indisciplina). Não é em vão que se designa o período subsequente a 25 de Abril de 1974 até quase ao começo dos anos 80 por PREC (muito activo de Abril de 1974 a 25 de Novembro de 1975 e em fase de «esvaziamento» desde a última data até ao completo regresso dos militares aos quartéis, isto é, até ao fim do Conselho da Revolução). Há quem queira atribuir «culpas» pela descolonização e pela negociação das independências tanto a Mário Soares como a Almeida Santos, como a Otelo Saraiva de Carvalho e, até, ao marechal Costa Gomes. É uma análise, quanto a mim, totalmente errada, porque eles, no desempenho dos cargos que lhes foram atribuídos, limitaram-se a ser os «instrumentos» de execução do «possível» naqueles momentos. É preciso ter consciência da situação social que se vivia e da mais completa indisciplina militar jamais vista desde os anos de 1926 a 1928. As deliberações, nos quartéis, tomavam-se em plenários de todos, mas todos, os militares. Os graduados tinham uma autoridade precária. O mesmo se passava nas fábricas, nas repartições públicas, nas empresas, nos campos do Alentejo. A todo o lado os militares eram chamados para servirem de árbitros das mais diferentes questões (até na ocupação de andares e moradias devolutas!). Nestas circunstâncias, ninguém pode ser responsável nem irresponsável. Estão todos metidos no «mesmo barco», vivendo a «mesma tempestade». A opinião pública estava completamente intoxicada pelos órgãos de comunicação social tanto de extrema-esquerda, como de esquerda ou de direita. A discussão ideológica estava ao rubro (no pólo oposto ao presente momento, visto que agora discutem-se acções e acontecimentos, mas não se discute a ideologia que os determina, facto extremamente grave e perigoso para a manutenção da democracia, porque se começa a perceber a indiferença, quase ódio, aos políticos e à política – o que, em boa verdade, configura uma pré-situação de adesão ou aceitação de um estado ditatorial... Já se desenha o esboço da necessidade de um «D. Sebastião», facto que está a favorecer o candidato à Presidência da República, Prof. Cavaco Silva). Nesses anos distantes, a grande ofensa que se fazia era chamar a alguém «fascista» ou «reaccionário»; pior do que isso era acusar alguém de ter sido informador da PIDE/DGS ou legionário. O uso do cabelo comprido, nos homens, ou da farta barba bem crescida não era uma «moda universal», mas uma «moda revolucionária», tal como a ausência de gravata. Todos estes pormenores ajudam a perceber a ambiência social e política de então e a desculpabilização dos políticos e dos militares envolvidos na acção governativa. Ainda recordo o debate parlamentar em que Mário Soares chamou fascista a Freitas do Amaral e dias depois estava a formar Governo com o CDS, tendo o mesmo Freitas do Amaral como vice-primeiro ministro! Tudo isto explica as contradições, as hesitações, os recuos e os avanços desses anos. Só quem viveu a situação e dela consegue manter uma visão independente (como, sem falsa modéstia, assumo que tenho) é que pode ajuizar com equilíbrio os impasses de toda a ordem vividos pelos militares e pelos políticos.Luís Alves de Fraga
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(mailto:luismfraga41@hotmail.com)

De Anónimo a 30.11.2005 às 17:06

Senhor Carlos Brás, não querendo ser eu a responder à sua pergunta que me não é dirigida, também tenho dúvidas; o que é a "responsabilidade política"? Uma espécie de imunidade??? Geralmente quando é noticiado que alguém assumiu a responsabilidade "política", ficamos a saber que apenas se demitiu do cargo e pronto, está tudo resolvido ...Camoesas
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(mailto:camoesas@yahoo.com)

De Anónimo a 30.11.2005 às 14:18

Luis Fraga
não será própriamente um comentário, mais uma pergunta: diz que na época era impossível fazer mais. Presumo que se refere aos militares mas e, os políticos?
O Sousa Tavares ontem na TVI disse que há muitos responsáveis políticos pelo que se passou em Timor, daí a a minha pergunta.
Carlos Brás carlos bras
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(mailto:carlospiresbras@iol.pt)

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