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Fio de Prumo



Quinta-feira, 28.07.11

Os preços

 

Na generalidade, é verdade que, aos diferentes níveis sociais, os Portugueses, nestes últimos vinte a trinta anos, habituaram-se a ganhar acima daquilo que a nossa economia real pode suportar. Até os mais indigentes dos indigentes conseguiram subsídios que noutras circunstâncias não teriam (e quando digo outras circunstâncias estou a pensar em tempos mais recuados como seja há quarenta ou cinquenta anos). Naturalmente que a falta de orientação para a definição de políticas económicas apropriadas não pode ser assacada a qualquer um de nós, meros cidadãos. Os Governos que fomos escolhendo, através do nosso voto (o voto dos que votaram e a abstenção dos que ficaram calados), ao contrário de fazer o que devia ser feito, foram desgovernando, permitindo que umas dúzias de “bons rapazes” se governassem à custa do erário público e que a maioria fosse fazendo a sua vidinha. Ninguém avisou para os excessos de despesismo, nem para a necessidade de poupança, nem para a armadilha do crédito fácil, nem para cilada da aquisição de casa própria a preços disparatados, nem para o ardil montado pela banca para as facilidades de compra de segunda casa, nem para as prestações das viagens ao estrangeiro com férias em praias exóticas, nem para o facto de os cartões de crédito se pagarem a preços elevadíssimos, nem para os encargos dos telemóveis, dos computadores e de toda a parafernália de apelativos electrónicos e não só que a publicidade anuncia e os incautos adquirem, endividando-se. Os Governos e os Portugueses embarcaram nos gastos mais inúteis como se, de facto, a economia nacional estivesse a viver no melhor estado de saúde que imaginar se possa. Como se a economia e o tecido económico português não tivessem sido destruídos com a adesão à CEE. Só se viu o lado imediatista dos milhões a entrarem-nos porta dentro e a política do lucro fácil através do compadrio na implantação de betão por todo o território sem cuidar de lançar indústrias e empreendimentos estratégicos capazes de darem emprego e terem sustentabilidade num futuro mais distante. Estamos agora a viver a força da crise e os ais e rangeres de dentes vêm de todos os lados. Fomos todos, mas todos, pouco previdentes: uns, porque fizeram más escolhas eleitorais, outros, porque não foram honestos na governação.

Metidos agora na engrenagem da crise e na da economia neoliberal temos de viver com esta situação e suportá-la da melhor forma que for possível, ainda que dolorosa para a esmagadora maioria dos Portugueses. Tem de haver um ajuste económico salvaguardando, no entanto, os valores mais essenciais do Estado social: o Serviço Nacional de Saúde, a Segurança Social e, dentro possível, a educação tendencialmente gratuita, com as inerentes bolsas de estudo para os alunos que maiores méritos demonstrem e menores rendimentos possuam.

Mas, ainda obcecados pelos lucros fáceis, estamos a assistir a um novo fenómeno económico que o Governo tem de evitar de qualquer maneira: a elevação dos preços dos produtos, não por via da carga fiscal a que estão sujeitos, mas por força da ganância dos comerciantes que não desejam ver baixar os seus habituais rendimentos. A este efeito nefasto do mercado interno está a associar-se um outro: o da baixa dos salários, aproveitando os cortes que o Estado faz aos seus trabalhadores.

A conjugação destes dois movimentos a curto/médio prazo vai conduzir à retracção do consumo nos bens mais essenciais. Ora, a falta de demanda no mercado induz uma retracção na produção, a qual, por seu turno, provoca um aumento dos preços e, tal como uma espiral, o processo vai acelerar-se, conduzindo a uma clara e marcada recessão económica. Esta, se se limitasse aos bens não essenciais, não representaria perigo de maior, pois teria, até, o efeito benéfico de repor o consumo dentro dos padrões do aconselhável para a capacidade produtiva nacional, mas tudo se modifica quando se faz sentir naquilo que for absolutamente necessário. Chegados a esse ponto entraremos na zona vermelha da revolta social descontrolada. Nessa altura que ninguém venha dizer que são os sindicatos que destabilizam o sistema, pois já não estará na mãos deles nem nas dos partidos políticos de esquerda a sustentação da vontade popular!

O Governo ou olha de frente para a contenção da subida dos preços e para a redução incontrolada dos salários ou vai ter sérios amargos de boca. O oportunismo económico espreita nestas alturas. Se os políticos não sabem, vão estudar o que aconteceu em Portugal nos anos subsequentes a 1916, particularmente em 1917 e 1918, e nos anos da 2.ª Guerra Mundial, em especial, em 1943 (ainda que deste período pouca informação haja por força da acção da censura prévia). A desordem na rua é muito má conselheira para a política e nem tudo se resolve à bastonada, pois os polícias também comem e têm família a quem precisam alimentar!

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por Luís Alves de Fraga às 09:17


3 comentários

De Fernando Vouga a 29.07.2011 às 18:32

Caro Fraga

De que é que estávamos à espera?

Desde 1975 que os sucessivos governos gastaram o dinheiro que não tínhamos para agradar ao eleitorado.
Foram obras e mais obras, CCB's, Expos e estádios de futebol para um campeonato europeu. Tudo à mistura com corrupção, crédito fácil e doses industriais de demagogia.
E agora vamos ter de pagar. Se não for com dinheiro vai ser com as costas...

De Joaquim Bexiga a 29.07.2011 às 23:11

No século XIII os homens cultos construiama Catedrais.
E hoje ?

De Fernando Vouga a 03.08.2011 às 14:58

Caro Fraga

Há muito que procurava por todo o lado o texto que vou "colar" de seguida. Finalmente encontrei-o. Parece-me que se adequa perfeitamente aos dias de hoje.

«Colbert foi ministro de Estado e da economia do rei Luiz XIV. Mazarino era cardeal e estadista italiano que serviu como primeiro ministro na França.


Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar (o contribuinte) já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço...
Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado... o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!
Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criamos todos os impostos imagináveis?
Mazarino: Criam-se outros.
Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
Mazarino: Sim, é impossível.
Colbert: E então os ricos?
Mazarino: Sobre os ricos também não. Eles deixariam de gastar. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
Colbert: Então como havemos de fazer?


Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente situada entre os ricos e os pobres: são os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tiramos. É um reservatório inesgotável.»

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