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Fio de Prumo



Sábado, 23.07.11

Os sacrifícios

 

Por força de vários motivos, desde muito jovem, criança ainda, caldearam-se em mim diversas vocações: ora me via como militar, ora como escritor (fosse isso o que fosse, mas sentia uma grande atracção pelo mundo das letras), ora como cientista (continuasse a ser isso o que fosse, mas via-me a descobrir), ora professor. Todos estes chamamentos vinham mesmo cá de dentro, mas sofriam influências do mundo exterior: vivi, na mais tenra idade, a 2.ª Guerra Mundial, o rescaldo da mesma e toda a panóplia de informação cinematográfica subordinada à temática bélica que nos chegava aos ecrãs dos cinemas usualmente frequentados com os meus pais, todos os fins-de-semana; depois, tanto o meu pai como o meu avô materno eram militares e o efeito das descrições dos acontecimentos vividos por ambos foi muito forte sobre a minha imaginação; mas o meu pai era também dado à poesia, à leitura e à escrita em geral o que, de alguma forma, me marcou, pois via-o a escrever ou a ler com muita frequência; conheci a minha saudosa mãe sempre doente e isso levou a minha imaginação para os domínios das descobertas científicas, no desejo infantil de a poder curar; e, por fim, sempre gostei de explicar, desde criança, o pequeno mundo que me rodeava, facto que fazia de mim um mini-mestre dos outros miúdos.

A escola primária, a pré-instrução militar, a que a minha geração esteve sujeita através da Mocidade Portuguesa, e a leitura dos livros escolares, onde se relatavam os feitos heróicos dos Portugueses, fizeram de mim um convicto nacionalista de dez anos de idade. Por “contágio” de um amigo e companheiro de infantis folguedos que morava na minha rua, descobri o Instituto dos Pupilos do Exército e eis que decreto ao meu pai: — É para ali que quero ir. E fui.

Com o rodar do tempo, a maturidade foi chagando e, enquanto perdia o nacionalismo programado pelo ensino civil, fui ganhando o patriotismo fundamentado em valores profundos do ensino militar. Ao terminar os estudos nos Pupilos do Exército não me restavam dúvidas vocacionais: era para a Academia Militar que eu tinha de ir. E tal decisão foi maduramente tomada num ano terrível para Portugal:1961. A guerra em África esperava-nos e por lá teríamos de passar todos. Como seria vivida não o sabíamos. Por quanto tempo a teríamos de suportar desconhecíamos em absoluto. Era um dever patriótico que se afirmava e eu, como todos os meus companheiros de então, não lhe viraria a cara. Assim pensava há cinquenta anos.

O curso foi decorrendo e as notícias da guerra foram chegando até nós, mais ou menos claras. A decisão política apontava para o prolongamento do conflito pelo tempo que fosse necessário.

Aos vinte anos, cada ano que passa traz consigo profundas alterações de natureza comportamental: é a maturidade que se vai afirmando, a consciência do mundo que se define nos seus contornos mais reais. E isso aconteceu comigo. Comecei a saber-me interrogar melhor sobre a Vida e, ao findar a minha formação militar, tinha já consciência de que alguma coisa estava errada na condução da guerra. Meses atrás de meses seguiam para África contingentes de soldados e chegavam-nos de lá as notícias das mortes e dos estropiamentos de muitos jovens como nós. Eu sabia que uma guerra faz sempre mortos e incapacita muitos dos combatentes. O que se começava a desenhar no meu espírito era a justeza dos sacrifícios pedidos a uma geração. Foi isso mesmo que senti quando, já alferes, fui assistir ao embarque de um largo contingente de tropas no cais da Rocha de Conde de Óbidos, em Lisboa. Valeria a pena? Foi essa interrogação que trouxe de Moçambique quando de lá regressei, em Fevereiro de 1969. Valeriam a pena os sacrifícios?

E quem nos pedia os sacrifícios? E quem sacrificava gerações sobre gerações de jovens portugueses? A resposta foi fácil de encontrar. Ela sempre estivera presente na minha mente: o Governo. Os políticos que apelavam para a nossa generosidade e nos apontavam com amanhãs de glória e desafogo, com futuros risonhos em face de um dia-a-dia cinzento e difícil.

 

Passaram-se os anos. Já nada resta da minha juventude, a não ser, de quando em vez, um vago relâmpago que em dia de trovoada me cruza a mente. O tempo das ilusões já se foi. Ficou o tempo das certezas, das frias certezas que nos apontam, inexoravelmente, o fim do caminho e nos dão a capacidade do cálculo concreto, rigoroso, como rigoroso pode ser o resultado das operações matemáticas. Dois mais dois, na base dez, não podem ser cinco… são sempre quatro! E com estas certezas coloca-se-me, tão acutilante como há quarenta anos, a pergunta: — Valem a pena os sacrifícios que os Governos de hoje exigem a todas as gerações de portugueses? A todas, e especialmente às mais jovens? Em nome de uma recuperação económica e financeira que não nos sabe explicar, o Governo, os políticos, de novo, pedem sacrifícios. Sacrifícios que não matam como mata a guerra, que não estropia como estropia a guerra, mas que deixam marcas e traumas tão grandes e tão dolorosos como os deixam os combates no campo da honra.

No final do ano de 1973 uma geração de jovens oficiais militares, a minha, interrogou-se sobre se valia a pena a guerra, se valia a pena eternizar uma crise que nos roía as entranhas e desgraçava os jovens deste país. Na madrugada de 25 de Abril de 1974 estalou o grito de revolta contra a eternização de uma guerra, de um sacrifício. Ele ecoou em todas as gerações de portugueses e por todo o lado se vibrou com a liberdade que despontava no florescer dos cravos.

É tempo de perguntar: — Quando acaba esta crise? Quando acabam os sacrifícios que nos pedem? Se o Governo não sabe dar resposta e pôr ponto final neste desmando, temos de mandá-lo embora.

Para que chegue lá muito acima o nosso grito, temos de gritar bem alto, que basta de sacrifícios. Estamos fartos de sacrifícios. Estamos fartos de crises a seguir a crises. Desejamos um tempo de paz, de abundância e de trabalho.

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por Luís Alves de Fraga às 21:10


2 comentários

De Fernando Vouga a 25.07.2011 às 21:07

Caro Fraga

Não é preciso ser-se marxista para concluir que a história da humanidade é a história da exploração do homem pelo homem. Desde a mais remota antiguidade que minorias de beneficiados, armados em poderosos, inventam os mais engenhosos esquemas de exploração. E não se esquecem de passar constantemente a ideia de que se vive um momento de viragem, difícil como convém, mas que se avizinha uma era de felicidade. Desde que, claro, os pacóvios aceitem o jugo.
De quando em vez, o desespero instala-se no povo, que reage com violência porque doutra forma os poderosos não abrem mão das suas regalias. Mas, passados uns tempos, tudo é subvertido e manipulado e, quando acordamos, damos connosco a viver na miséria. Porque, perante novas formas de liberdade, aparecem inevitavelmente novas formas de exploração, cada vez mais insidiosas e mais subtis.

O que se passa agora não é mais do que uma oscilação da opresão versus liberdade. Com a revolução dos cravos, o pêndulo deslocou-se para a esquerda, mas agora está inexoravelmente a voltar ao ponto de partida.
De qualquer forma, não há razão para baixarmos os braços. No pouco que nos resta de liberdade, há que, no mínimo, fazer entender os que mandam que não somos assim tão parvos como eles nos querem.

De José dos Santos Moreira a 26.07.2011 às 14:02

Segundo Victor Hugo, a Liberdade só é um estado de espírito.
Excelente observação.
Portugal não tem nem o Estado, nem o espírito!

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