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Fio de Prumo



Sábado, 16.07.11

Recordar o passado, recriar o futuro?

 

Há pormenores do passado que as gerações mais novas desconhecem e algumas das mais velhas já esqueceram. Hoje vou debruçar-me sobre o que foram certas formas de viver há sessenta, setenta, oitenta e mais anos, num tempo em que Portugal era um país pobre e na Europa e no mundo muita gente vivia com grandes dificuldades financeiras. E faço este exercício, porque, por força de conjunturas diversas, Portugal tornou a ser um país pobre, e caminha a passos bem largos, para o ser ainda mais.

 

Os salários que se praticavam entre a baixa média burguesia (assumindo que, para além dela, há uma média média burguesia e uma alta média burguesia) eram pequeníssimos. Vivia-se com fortes dificuldades e carências de quase toda a ordem. O sistema de saúde deixava tanto a desejar que, entre o Povo, se adoptou um provérbio que, só por si, dizia tudo: «Mal por mal, antes na prisão do que no hospital»! A taxa de mortalidade era elevadíssima e, entre as crianças, altíssima. Não havia dinheiro para medicamentos… As doenças tratavam-se com chás e mezinhas que o conhecimento popular passava de boca em boca, de geração em geração. Alguns requintes na ordem da prevenção sanitária estavam só ao alcance da alta média burguesia, ou seja, por exemplo, um bom advogado, um chefe de repartição pública, um professor catedrático, um juiz, um general (e, mesmo assim, este já vivia com algumas dificuldades!). Um professor primário, um sargento das Forças Armadas, um funcionário público de médio escalão, um empregado de escritório, estavam na faixa da média média burguesia e um contínuo, um cobrador, um polícia, um soldado da Guarda Nacional Republicana ou da Guarda Fiscal, um barbeiro, um empregado de balcão, encontravam-se na baixa média burguesia.

Da média média burguesia à alta média burguesia, consoante a localidade onde se vivia, era possível ter uma empregada doméstica interna, vinda da província, a quem se pagava miseravelmente. A baixa média burguesia já não se podia dar a esse “luxo”.

O sistema de aposentações era extremamente precário. Só os funcionários públicos auferiam reforma e sempre muito baixa, sem actualizações ao longo do tempo. A idade da aposentadoria era aos setenta anos e a fórmula de cálculo da pensão era simples: o vencimento mensal vezes o número de anos de serviço a dividir por quarenta (que era o número de anos máximo para auferir uma pensão completa). Não havia direito a qualquer tença para a viúva ou filhos menores ou deficientes por morte do pensionista a não ser que este fosse militar e tivesse falecido em consequência de acção de guerra ou resultado de doença adquirida em campanha. Era a chamada pensão de sangue. Para a alcançar, se a morte não ocorresse em serviço de campanha, era muitíssimo difícil, pois exigia o parecer de uma junta médica rigorosíssima. As pensões de viuvez resultavam dos descontos que o funcionário, normalmente do Estado (os empregados civis não possuíam qualquer tipo de protecção oficial), fazia de sua livre vontade para organismos com matriz cooperativa: Cofre de Previdência do Ministério das Finanças, Cofre de Previdência das Forças Armadas, Cofre de Previdência dos Professores Primários e muitos outros que se formavam para poder pagar à viúva uma mísera pensão que dava, quase sempre, para ela estar um pouco, muito pouco, acima do nível da indigência.

 

Para o sustento da casa, num tempo em que o crédito passava pelo livro de fiados do merceeiro da rua e, às vezes, raras, pelo do lugar da hortaliça e pelo açougueiro (mais raro ainda) havia, em certas cidades de significativa envergadura populacional, as cooperativas de consumo. O que eram? Associações de cidadãos que compravam uma ou mais acções cooperativas para poderem realizar capital suficiente destinado à aquisição por grosso de géneros de toda a ordem, que vendiam aos associados por um preço quase igual ao do fornecedor, realizando uma margem de lucro ínfima. As cooperativas de consumo podiam, consoante o tipo de cooperantes, complexificar a sua área de actividade, chegando ao ponto de até oferecerem, por preço insignificante, consultas médicas ou praticar empréstimos (recordo a Cooperativa Militar).

A par das cooperativas existiam a associações de socorros mútuos, as quais estavam viradas para acções de apoio financeiro ou sanitário, mediante o pagamento de uma quota de valor comportável pelos diferentes tipos de bolsa dos associados. As associações de bombeiros voluntários ainda são, no nosso tempo, um resquício deste mundo de mútuo auxílio. Os mais velhos naturais de Lisboa (do Porto e Coimbra nada sei) ainda se recordarão da figura do guarda-nocturno que, embora fardado com um uniforme quase policial, vivia da quotização dos moradores de uma área que ele rondava armado de um chanfalho trazendo na mão ou à cinta um avultado molho de chaves.

 

Quis, com a brevidade possível, mostrar como a média burguesia, em geral (porque aos pobres só restava a generosidade alheia, mais tarde as instituições genericamente designadas por sopa dos pobres, e as organizações filantrópicas de certas sociedades de gente rica ou caritativas das diferentes igrejas), enfrentou o capitalismo liberal do século XIX e da primeira metade do século XX.

Meditem, os meus leitores, no horror que foi a vida dos nossos pais e dos nossos avós! Pelo menos aquela parte dos meus leitores que não descende de nascimentos em berços de ouro.

Vai ser desta forma que nós, Portugueses, teremos de enfrentar de novo o resultado do neoliberalismo? Vamos ter de recuar ao associativismo mútuo para garantirmos a saúde, a educação, o alimento, o empréstimo financeiro quando a necessidade apertar? Vamos deixar que nos coloquem a canga no pescoço para puxarmos a carroça do grande capital? Vamos ser mansos cordeiros que pachorrentamente nos deixamos ir para o matadouro sem um balido de desacordo, sem uma marrada de luta?

 

Está na hora do grito de revolta. A classe média é hoje o alvo do grande capital! Somos nós, agora, os proletários do século XXI. Temos de encontrar a nossa forma de luta. Temos de nos organizar para dizer aos políticos, que servem o capital, uma palavra muito simples: BASTA! Um basta que estrondeie por montes e vales e chegue aos gabinetes de Bruxelas e faça estremecer as cadeiras do Poder europeu. Já fomos, noutros tempos, capazes de maiores façanhas! Mereçamos os nossos maiores.

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por Luís Alves de Fraga às 11:45


5 comentários

De Gomes Jr. a 16.07.2011 às 17:14

Acho uma certa graça “ao está na hora o grito de revolta”…
Quando de há muito, mas mesmo muito ele, esse grito de revolta já deveria ter chegado.

Chegou a fantochada do 25, ou acha que não ?

Que saudades…saudadinhas, e, diga-me, de quando Portugal tinha cultura; não tem saudades?

E de quando o “Portugal Quinhentista” tinha o saber científico da arquitectura naval?

E de quando este seu e nosso país se revelou independente pela força da cultura no século XVI?

Recordar o passado é bom, mas olhar para a frente ainda é melhor, ou acha que com os nossos jovens diplomados (de hoje) que desconhecem completa e totalmente a tábuas das multiplicações, que confundem o estúpido do Otelo Saraiva de Carvalho com um Hotel de Luxo…mas que conhecem drogas e roubam roupa nos grandes armazéns…pois é, chegou mesmo a hora da revolta; mas de uma outra revolta, a da incompetência das famílias que se demitiram, essa sim, essa é a verdadeira revolta.

A hora da revolta ?
Mas qual revolta ?

Recordar o passado é giro, porém, quimeras, palavras que o vento já levou e o resultado de hoje está à vista.

Eram outros tempos, as solas estavam rotas mas os HOMENS tinham valor, a comida era pouca mas havia mais Amor, e sabe, o Escudo tinha peso!

A nostalgia corrói mas nada resolve, bem pelo contrário, só complica.

De Carlos Tendeiro a 16.07.2011 às 17:30

Muito Bom!

Felizmente ainda existem Guardas-Nocturnos...

Só não compreendemos a falta de apoio à profissão cujos profissionais zelam pela segurança pública sem custas para o erário público.

Os meus cumprimentos.

De Fernando Vouga a 16.07.2011 às 19:52

«Está na hora do grito de revolta»

Caro Alves de Fraga

Não conte muito com isso para os tempos mais próximos. Mesmo a classe média baixa está demasiado agarrada ao pouco que tem. Prefere perder algum que perder tudo e não acredita facilmente que está à beira da miséria total.
Seguem-se os marginalizados. Mas esses já têm os seus métodos para tornear a situação. E não acreditam em nada nem nas teorias revolucionárias.
Só quando a miséria alastrar por largas camadas da população é que a fruta está madura. Mas penso que os capitalistas sabem disso e vão dando umas migalhas para enganar a fome.

De Sérgio Gomes a 17.07.2011 às 23:58

Boa Olhada.
Isto é copmentário.

De António Trancoso a 22.07.2011 às 01:53

Caro Monteiro Vouga
Permita-me que subscreva esta sua percepção da realidade.

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