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Fio de Prumo



Quinta-feira, 01.12.05

A Revolução Francesa e Muro de Berlim

 


Os sinais do muro de Berlim.jpg


 


A Revolução Francesa foi a concretização de uma insatisfação que se vivia já naquele país havia vários anos — mesmo algumas dezenas —, correspondendo à explosão de um desejo de Liberdade que o Despotismo, dito Esclarecido, impunha a toda a sociedade e, em particular, à burguesia — limitando-lhe os anseios de protagonismo político — e ao Povo — limitando-lhe a sobrevivência com a carga de impostos e obrigações que o impediam de sair da sua mísera condição. Mas a Revolução Francesa foi mais do que esse quebrar de grilhetas. Com efeito, alterou a relação da sociedade com o Estado e com o Poder Político, querendo que todos (um «todos» algo limitado) partilhassem das responsabilidades governativas, ainda que de uma forma indirecta. Proclamou o princípio da igualdade de oportunidades assente no princípio da liberdade de expressão do pensamento, de reunião e de associação. Foi nestes dois pilares que encontrou esteio o princípio liberal de poder explorar os trabalhadores — primeiro, ainda aceitando a ideia de fraternidade, contudo, pouco depois, relegando-a para o lugar da solidariedade social — «a minha liberdade e a minha oportunidade acabam na liberdade e oportunidade do outro». Deste modo, «quanto mais extensa for a minha oportunidade mais curta será a do outro, logo, maior a minha liberdade». O fosso entre ricos e pobres deixou de ter como muralhas os aristocratas e a ralé, mas a burguesia e o proletariado.


Foi ao compasso da Revolução Francesa que prosperou o capitalismo até ao eclodir da Grande Guerra, mais tarde chamada 1.ª Guerra Mundial. Nesse conflito, acima das ideologias, estiveram frente a frente interesses burgueses que pretendiam subordinar completamente a facção que se lhes opunha.


Da guerra surgiu uma nova realidade: a tentativa de construção de uma sociedade mais justa pela prática de um modelo social, económico e político assente noutros princípios: a distribuição do salário far-se-á em concordância com a necessidade e com o trabalho desenvolvido, por um lado, e, por outro, pela apropriação de todo o tipo de bens capazes de socialmente alterarem a regra anterior. Assim nasceu a União Soviética com um novo tipo de democracia.


As dificuldades de socialização (politologicamente entendida como a prática do socialismo) levantadas enquanto Lenine conduziu o processo apoiado nos diferentes sovietes, foi ultrapassada pela «estatização», no tempo de Stalin. A União Soviética passou a ser uma ditadura onde, supostamente, se procurava a prática do bem-estar e da protecção social, baseando tudo isto num sistema educativo e sanitário amplo e gratuito.


Após a 2.ª Guerra Mundial o mundo ficou dividido em duas grandes «fatias» que rapidamente proclamaram a existência de um estado de guerra «fria» entre si: a parte onde imperava o capitalismo, agora chamado de economia de mercado, e a parte onde dominava o socialismo (comummente designado por comunismo). Pairando entre ambas ficou um «Terceiro Mundo» que se desejava descomprometido para poder beneficiar dos dois lados, escapando, supostamente, às respectivas influências. O panorama assim definido subsistiu de 1945 a 1989, ano em que o mítico muro de Berlim foi derrubado, indicador do fim da denominada «guerra fria».


A «guerra fria», mais do que toda a política armamentista que por trás dela se foi gerando em escalada avassaladora, representou um método de contenção do desenvolvimento de um capitalismo anárquico no mundo de economia de mercado. O receio da revolução socialista, da denúncia feita pelos partidos comunistas, da organização de greves e actos de revolta por parte dos trabalhadores levou a que houvesse lugar para a existência do «substituto» do comunismo — também chamado socialismo científico — ou seja, para a possibilidade de se manter um sistema «capitalista atenuado» que ganhou a designação genérica de socal-democracia.


Caído o muro de Berlim, desfeito o bloco comunista, desaparecidos os receios da «guerra fria» passar a «quente» na Europa, quiçá na Terra, concretizada a «revolução capitalista», enfim, desaparecida a grande potência bipolarizadora, perdida a esperança de os partidos comunistas poderem vir a conduzir qualquer processo revolucionário nas próximas décadas, eis que a super-potência restante — os Estados Unidos — se permite assumir o controlo político do mundo, tentando gerir os conflitos que lhes convinham. Ao fazê-lo, ou para o fazer, um nova via, afinal velha, tem de ser aberta: a da globalização. Não se trata de reduzir o mundo a uma escala de inter-ligação e conhecimento instantâneos — isso é uma consequência —, mas de globalizar, sem fronteiras nem peias de nenhuma espécie, os meios financeiros que se rentabilizam mais onde para eles houver melhores condições, ou seja, onde o trabalho puder ser pior remunerado e os assalariados estiverem mais disponíveis a venderem-se sem contra-partidas, onde os Estados forem menos exigentes na defesa da Natureza.


Essa foi a consequência da queda do muro de Berlim e da falência de um sonho que muitos julgaram poder ser o paraíso dos trabalhadores.


Agora não há partidos que organizem as oposições no interesse dos mais desfavorecidos. Resta-lhes a revolta civil, descontrolada, cega, raivosa que obriga a democracia a mostrar o seu lado mais feio, colocando polícias e militares a reprimir aqueles a quem roubaram a voz.


Em Portugal, o Governo do Eng. Sócrates, maioritário no Parlamento, socialista por enquadrar superiormente o PS, tem feito uma política fixamente colada à direita. Esperará ele e os seus ministros que no momento da revolta civil — quando ela chegar, porque há-de chegar — as polícias, a GNR e, até, as Forças Armadas se transformem em guarda pretoriana dos interesses capitalistas? Será que se transformam?



 

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por Luís Alves de Fraga às 16:29


3 comentários

De Anónimo a 03.12.2005 às 00:29

Caro Carlos Serra, a notícia é mais uma chamada de atenção dirigida ao senhor ministro Luís Amado para o grave erro que está a cometer e a deixar cometer em relação às Forças Armadas. A falta de pilotos-aviadores na Força Aérea é um facto e a saída das fileiras é outro que já se vem verificando desde há mais de 20 anos. Variam as percentagens, mas é uma constante. Claro que é muito mais aliciante voar e receber um bom salário do que receber um vencimento mais baixo e, em alguns casos, nem poder voar por falta de dinheiro para pagar combustível! Quanto ao vencimento dos mecânicos da Força Aérea há, de certeza, um lapso no número indicado (3000 euros). Isso é quase o vencimento de um coronel. Naturalmente, dos três ramos das Forças Armadas, a Força Aérea, por ser aquele cuja tecnologia está mais próxima de outras usadas por companhias civis, é também aquele que, com mais facilidade, o pessoal técnico pode arranjar emprego na vida civil. As palavras do General Taveira Martins são de uma grande sensatez e traduzem uma realidade que não pode, nem deve, ser escamoteada. Aliás, dos quatro Chefes de Estado-Maior ele é, sem margem para dúvida, aquele que se debate com mais sérios problemas de prontidão operacional da força, por isso foi o que mais oposição fez às decisões desastradas e desastrosas do ministro Luís Amado. O pior ainda está para vir. Em Janeiro, quando estiver implementado o sistema da ADM no IASFA, tornaremos a conversar... São sempre bem-vindos os seus comentários.Luís Alves de Fraga
</a>
(mailto:luismfraga41@hotmail.com)

De Anónimo a 02.12.2005 às 23:28

Possivelmente já leu, mas também acredito que não ligue a todo o tipo de jornalismo...
Gostava de saber o que pensa da noticia publicada no Correio da Manhã de hoje, dia 2 de Dez., acerca dos pilotos da Força Aérea e também dos mecânicos. Noticia gira ein?
Carlos SerraC. Serra
</a>
(mailto:cjoaserra@hotmail.com)

De Anónimo a 01.12.2005 às 23:41

Excelente visão! Terá também o sr Engenheiro, capacidade para vêr tão longe, o que poderá estar tão perto?
Pois é, o problema é que "aqueles a quem roubou a voz", são precisamente os mesmos de quem necessitará quando a coisa ficar negra...Será um embróglio difícil de resolver. Puseram a panela ao lume e agora mesmo que a queiram tirar têm medo de queimar as mãos! O que acho "engraçado", é constatar que a arrogância é tão desmedida que continuam a atirar achas para a fogueira ignorando o apito da panela. A válvula de escape que rodopia e rodopia e apita gritando de dôr, a sua incapacidade de conter a pressão interior.Camoesas
</a>
(mailto:camoesas@yahoo.com)

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