Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo



Segunda-feira, 20.06.11

Ética e Tempo

 

Não, não é da idade!

Às vezes penso que é uma consequência da idade, mas, depois, faço reflexões mais profundas e concluo que o meu estado de espírito nada tem a ver com o facto de não ser jovem. Também não resulta dos diferentes contextos em que me assaltam estas lucubrações… são tão diferentes e variados!

 

Vem esta introdução a propósito da falta de Ética que, a cada passo, topo no meu dia-a-dia, nas mais díspares situações. Falta de Ética nos comportamentos mais insignificantes. E falo de Ética como princípios morais que regem as pessoas tanto na sua vida pessoal como profissional. Ética, a capacidade de perceber o Bem e o Mal e a diferença entre eles! Ética que leva a escolher fazer o correcto e a rejeitar o incorrecto. Ética como a alternativa ao procedimento que a moral cívica condena. Ética como o caminho profissional que se trilha para se poder andar de cabeça levantada e sem pesos na consciência quando se está entre pares do mesmo ofício. Ética, enfim, como a forma justa e perfeita de agir mesmo que não haja testemunha do nosso modo de proceder.

 

Eu, tal como tantos outros cidadãos da minha idade ou da minha geração, sou fruto de uma época, de uma educação familiar, de uma instrução para a Vida, de uma Moral Cívica colhida aqui e ali, mas sempre resultado de exemplos. Sou fruto de uma socialização num determinado tempo. E esse tempo foi o da ditadura, o da ausência de liberdade de expressão, de reunião, de protesto. Foi um tempo que passei a abominar quando tomei consciência política de que havia alternativas ao monolitismo político de então. Era muito jovem quando isso aconteceu, pois não nasci para a Democracia no dia 26 de Abril de 1974.

Passados quase quarenta anos sobre a alvorada democrática, numa análise retrospectiva, dou comigo a pensar que a ditadura do Estado Novo, sendo estruturalmente corrupta, imoral e amoral nos seus alicerces, fazia, contudo, passar para a educação e para a sociedade uma imagem de Ética, de correcção de princípios que, embora sendo um manto pouco diáfano, tentava cobrir os defeitos de base sobre os quais se havia construído. Era um jogo! Nós, os mais atentos, percebíamo-lo, mas à grande maioria dos cidadãos escapava essa maléfica artimanha entre o ser e o parecer, levando os incautos políticos – e eram quase todos – a acreditar em princípios que tinham a sua concretização em slogans simples para serem compreendidos por gente simples: Deus, Pátria e Família e Tudo pela Nação, nada contra a Nação.

Deus, um valor ético que cabia na dimensão das diferentes crenças religiosas de cada qual, mas que se impunha pela acção da constante presença do clero católico, do crucifixo, das imagens de santos, das romarias e das procissões. Pátria, um valor ético que tinha como esteio principal os livros escolares únicos, uniformizadores de princípios e de comportamentos, o mestre escola, os hinos patrióticos aprendidos e cantados no âmbito da Mocidade Portuguesa e todo um conjunto de actividades para-militares que exaltavam a heroicidade da gesta portuguesa a partir de um nacionalismo exacerbado. Família, um valor ético que não precisava de explicação, pois era no seio dela que se dava o crescimento e se aprendiam os rudimentos da moral cívica que cada uma conseguia fazer aceitar pelos descendentes. Tudo pela Nação e nada contra a Nação, constituía o pilar do desenvolvimento de um nacionalismo que já se havia ancorado no estudo e na mentalização de um Portugal grande, eterno e heróico.

Repare-se como o Estado Novo se preocupou em moldar as mentes para ser aceite na base de uma Ética que deveria silenciar consciências da mesma forma que a censura prévia calava os desvios comportamentais, as corrupções, e os maus exemplos.

Condenável, é certo, a ditadura fez tudo o que estava ao seu alcance para gerar uma Ética, uma Moral, que a servia, mas que era exigente, no mínimo, nas aparências – e é fruto dessas aparências que ainda agora há quem enalteça os valores do Estado Novo e de Salazar – de modo a ser uma ditadura moralizadora.

 

E a Democracia que valores éticos procurou inculcar nos cidadãos? Que mecanismos pôs ao serviço da comunidade para gerar uma Ética cívica e profissional? Que eu saiba, nada se fez… Deu-se Liberdade e a cada um liberdade para a governar como entender, desde que não fira a Lei. Mas ao dar a Liberdade – bem inestimável – facultou a possibilidade, como era desejável, de se poder conhecer o comportamento dos homens públicos deste país. E que exemplo dão eles? Não vou agora desfiar o rosário que todos nós conhecemos!

 

E a conclusão é inevitável: a Democracia não soube, não quis ou não conseguiu criar, alimentar e fazer crescer uma Ética, uma Moral Cívica que faça dos cidadãos melhores cidadãos e profissionais mais conscientes e mais correctos.

Como se vê, a minha crítica não resulta da idade e de todas as tendências caturras que ela traz.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 11:14


6 comentários

De Fernando Vouga a 21.06.2011 às 14:38

Caríssimo Alves de Fraga

Esta sua reflexão sobre a ética aparece na sequência do seu "Day After", onde o meu amigo se queixa da falta de objectios económicos.
Eu resumiria tudo dizendo que o que falta é a definição dos objectivos nacionais.
Durante a ditadura salazarista, parecia evidente que o grande objectivo era a defesa do do Império colonial, já que o colonialismo era o alicerce de todo o sistema.
Perdidas as colónias, Portugal perdeu o "emprego" e perderá a razão de existir se não encontrar novos caminhos motivadores.
Falta sobretudo dizer para é que somos portugueses e estabelecer qual é a linha divisória entre o ser e o não ser.
É que, quando não se sabe para onde se quer ir todos os caminhos são, ao mesmo tempo, bons e maus.

De Luís Alves de Fraga a 23.06.2011 às 23:22

Caro Fernando Vouga,
Estou absolutamente de acordo com o que diz.
560 anos depois de Portugal ter partido para a aventura fora da Península regressou e, não sabendo o que fazer, habituado a "impérios", criou a maior Zona Económica Exclusiva da Europa. Verificando que era um "império" de água, do qual não tinha meios para tirar nada ou pouco, entregou-se nas mãos da Europa de quem sempre tinha andado afastado. Inocente na prática dos jogos, europeus facilmente Portugal foi presa dessa decisão imponderada e impensada. Cá estamos, agora, à espera da fina lâmina do carrasco com o pescoço no cepo.

De Horácio de Ossola a 25.06.2011 às 16:31

Matéria bem interessante para desenvolvimento, o contido e o conteúdo são de forte incidência intelectual; só que quando se abordam temas desta natureza, os habituais comentaristas/bloguistas/de/meia tigela, fogem, não sabem, desligam…!
Onde estão?
Lúcida visão e ponto de verdade este seu comentário.
Pena é que não haja quem saiba afinal continuar esta excelente abordagem.

De Gomes Jr. a 25.06.2011 às 20:18

Durante a ditadura salazarista o ensino era muito mais desenvolvido; lembro ainda o antigo curso geral de comércio e, nesse tempo verificava-se – talvez infelizmente - que os objectivos nacionais fundados sobre o colonialismo eram o “drink” da época…mas, tudo se compreende se entrarmos nas proporções desse tempo e não no saudosismo.
Portugal perdeu o emprego (boa piada) e também a razão (excelente observação) e pergunto:
- Como se poderão encontrar novos caminhos motivadores se os nossos jovens de hoje nem a Tabuada sabem?
Como poderemos ser Portugueses se nem sequer somos nacionalistas?
Como poderemos ser os primeiros se não somos os melhores?

De Horácio de Ossola a 04.07.2011 às 11:31

Ética é só estarmos à altura de resolver todas as situações.
Se há falta de ética é porque existem fortes incapacidades.
As famílias demitiram-se, faltou a estrutura, o Princípio: - O Verbo!
Normalíssimo que haja falta de ética, quem não “A” tem, não a pode dar.
Veja só os trintões e os quarentões dos nossos dias.

De Joao Luis a 16.07.2011 às 11:17

Etica ??
È o que se ve especialmente nos tempos que correm nas fileiras das Forças Armadas.
Interesses pessoais a dominarem o interesse castrense.
È vergonhoso ver as chefias militares compradas a interesses.
Gasta-se fortunas em mordomias
Gasta-se em suplementos de residencias, suites de luxo, carros....despesas de representaçao...
Ètica...será que sabem o que a palavra quer dizer...
Ou sera mais uma palavra que esta no limbo dos significados...
Fica o repto...

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Junho 2011

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930