Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo



Sexta-feira, 20.05.11

O Receio

 

Em 1978 estava eu a viver o final da minha terceira década de existência e, por conseguinte, em 1983 tinha iniciado a quarta. Não deixo aqui estas datas para somente referenciar a minha idade. Não. A estes anos, se a memória não me falha, corresponderam duas intervenções do FMI em Portugal. Aquela entidade impôs medidas de rigor e de austeridade. Houve gente que sofreu com isso, mas, confesso, pessoalmente, esse rigor passou por mim e deixou poucas ou quase nenhumas marcas. Porque não ligava à questão? Porque foi dada pouca publicidade ao facto? Porque o rigor foi pouco rigoroso? Não. Nada disso! Por dois ou três motivos simples que passo a explicar.

Em primeiro lugar, estava a meio de uma carreira que iria progredir com mais ou menos sobressaltos até atingir um escalão que ainda estava longe nesses anos (e note-se que, para mim, os horizontes, à época, eram mais negros do que foram na verdade). Assim sendo, havia mais vida para viver e uma certa esperança no futuro. Depois, o sistema tributário isentava de impostos directos os funcionários e os servidores do Estado que vivessem exclusivamente do seu vencimento… Não se ganhava bem, mas, também não se pagavam impostos directos, se outras fontes de rendimento não existissem. Finalmente, não estávamos subordinados à disciplina do euro, mantínhamos ainda um tecido económico produtivo mais ou menos capaz de exportar e de satisfazer, em parte, as necessidades internas, podíamos adoptar medidas financeiras que valorizassem as nossas exportações e dificultassem as importações; em suma, tínhamos autonomia e soberania.

O quadro acima traçado, quer no plano pessoal quer no plano nacional, alterou-se profundamente. Agora estou sujeito a impostos directos sobre a minha pensão de reforma, facto que, só por si, é aberrante (imagine-se o Estado de mão direita estendida a entregar-me a pensão e com a esquerda a pedir-me que lhe devolva uma parte como resultado de uma tributação… é aberrante, para não dizer que corresponde a uma idiotice, a uma vigarice, a um roubo, a um logro) – dizem que assim é por razões contabilísticas. Não me convencem! Agora, reduzem-me a pensão para a qual eu descontei durante uma carreira de quarenta e cinco anos (até passar à situação de reforma). Descontos que não foram só sobre o meu vencimento base, pois qualquer valor extraordinário que auferi constituiu matéria colectável para a Caixa Geral de Aposentações! Não satisfeito, o Estado obriga-me ao pagamento de IRS (Imposto sobre o Rendimento de pessoas Singulares) – quer dizer, a minha pensão não é uma pensão! É um rendimento! Não é a justa retribuição de uma vida de trabalho e sacrifício! Não é a paga por ter dado a minha contribuição para a sociedade e para a sustentação do Estado! É um rendimento semelhante ao da capitalização de um valor financeiro em qualquer banco ou empreendimento lucrativo! Ora abóbora, que raio de sentido de justiça social é este?! Mas mais, não satisfeito, o Estado vai cair-me em cima e cortar-me uma fatia percentual da minha pensão, porque o mesmo Estado aceitou ser governado por quem não o sabia governar! Que Estado é este? Que governantes colocámos à frente do Estado que o levam a aceitar as condições que os emprestadores agora lhe impõem?

Olhando para mim e para todos os que como eu vivem da pensão de reforma como fonte segura e única de sobrevivência, vejo que um só sentimento nos pode assaltar: o receio. Receio do futuro, por muito curto que ele possa ser. Alteraram-se os cenários macroeconómicos do país desde a última intervenção do FMI e alteraram-se os cenários pessoais. Esta crise, este castigo, por causa da má administração dos Governos que passaram pelas cadeiras do Poder desde 1983 até agora, não me oferece qualquer hipótese de tranquilidade. Nem a mim, nem a todos os reformados como eu. Que castigo podemos nós dar aos políticos que se candidatam a assumir a governação nacional na sequência do acto eleitoral de 5 de Junho? Que castigo merece o Presidente da República, eleito com os votos de menos de 25% dos Portugueses, por não ter sido capaz de impor uma estratégia de desenvolvimento quando foi Primeiro Ministro? Que castigo merece o partido do Dr. Mário Soares por não ter sabido negociar em termos a nossa adesão à CEE? Que castigo merecem os antigos governantes que aceitaram a moeda europeia sem prever as obrigações que ela impunha? Se for prisão, será que temos celas para toda esta gente?

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 16:52


6 comentários

De CãoPincha a 20.05.2011 às 17:26

Todos nós, conversadores deste grupo, estamos de acordo consigo. Alguns foram seus «camaradas» ou oficiais do mesmo ofício até ficarem no armazém.
Pensamos votar num dos partidos pequenos, já que nenhum dos que esteve no «poleiro» soube governar o país.
Se não tivermos na «nova geração» alguém que nos acuda, muitos receios podemos ter.
Que Deus nos proteja.
[Error: Irreparable invalid markup ('<br [...] <a>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

Todos nós, conversadores deste grupo, estamos de acordo consigo. Alguns foram seus «camaradas» ou oficiais do mesmo ofício até ficarem no armazém. <BR>Pensamos votar num dos partidos pequenos, já que nenhum dos que esteve no «poleiro» soube governar o país. <BR>Se não tivermos na «nova geração» alguém que nos acuda, muitos receios podemos ter. <BR>Que Deus nos proteja. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>CãoPincha</A> <BR>

De Fernando Vouga a 21.05.2011 às 15:19

Caro Alves de Fraga

Se bem me lembro, a lei de Lavoisier dizia que "na natureza nada se cria, nada se perde e tudo se transforma".
Dentro desse princípio, o dinheiro do buraco financeiro foi para qualquer lado, não se evaporou. Ou seja, alguém se abotoou com ele.
Sendo assim, ao invés de o cobrar a quem nada fez para provocar a crise, o dinheiro agora em falta deveria ser retirado a quem se está a rir disto tudo. Urge então fazer uma auditoria às contas públicas e colocar tudo em pratos limpos. E saber o que realmente se deve e a quem.

De Ana Maria Ribeiro a 21.05.2011 às 21:19

Condenados nunca estaremos, a não ser que aceitemos esse estado desonroso.
Aliás, não merecemos também nós o castigo?

De Sérgio Miguel a 22.05.2011 às 10:59

Não sei o porquê do receio!!!

Afinal este Povo faz por merecer, aliás é admirável observar o comportamento desta MANADA pois o seu comportamento não é, definitivamente, pertencente a uma espécie que se auto-intitula RACIONAL... Não encontro nada de RACIONAL em votar nos MESMOS que nos levaram à BANCARROTA, POBREZA E MISÉRIA... e pelo que os instrumentos de controlo de MANADAS têm divulgado, mais de 84% dos animais irracionais que afirmam inconscientemente que vão "votar" em 5 de Junho, continuam no mesmo trilho... logo podemos deduzir que não têm receio pois acreditam que vão no bom caminho...

De Zéfoz a 31.05.2011 às 19:33

Para o Sr. Coronel Alves de Fraga:

Um texto simples, directo, mas muito bem conseguido, como é aliás apanágio do autor e que retrata a triste realidade a que nos conduziram também no sector da saúde!...

Para o Sr. Fernando Vouga:
Perdoe-me o plebeísmo, mas quem é que os tem no sítio para fazer o que diz? Mas se quer que lhe diga, gostava de os ver lá. A prisão, neste país, é só para o pé rapado. Nos USA, outro galo lhes cantaria...

De Zéfoz a 31.05.2011 às 20:21

Quero pedir desculpa, porque no 1º parágrafo do anterior comentário que fiz, estava a referir-me, por lapso, à blogagem seguinte, do dia 23: A Saúde dos Portugueses.
Mas, se me for permitido retomar o assunto da corrupção, implícito no post e bem assim no comentário de Fernando Vouga parece-me ser curial transcrever um comentário, sobre o mesmo tema, que encontrei no blogue do Sr. Embaixador, Seixasda Costa:

Fada do bosque disse...
Senhor Embaixador, a tróica não é parte da solução mas sim parte do problema. Note se alguém fala de uma auditoria cidadã à dívida portuguesa. É que pode acontecer o mesmo que aconteceu o Equador ou na Argentina. A dívida pode ser classificada de ilegal ou odiosa. Se a Goldman Sachs e a Síemens manipulam o governo grego, entre muitos outros, como afirmam no filme DEBTOCRACY,(deixei num comentário anterior)... é de chegar à conclusão que o nosso País foi decapitalizado da mesma forma. Será que o nosso Bloco Central quer ouvir falar nisto, bem como os nossos credores?! Eles estão todos comprometidos. Ainda há pouco tempo li que 20 portugueses gestores de empresas de topo acumulam 1000 cargos de administração, são os 20 que nos mantem cativos: Relatórioo da CMVM:
aqui o relatório, no link do 3º comentário.
Será que estes senhores não manipulam os nossos governos e não estão interessados nas medidas da tróica? Querem é receber o deles independentemente de deixarem o País na penúria. Impera a corrupção, mas há que mentalizar o povo que tudo é culpa sua porque são preguiçosos. Vai parar à bancarrota este País. Onde não há Justiça, não há Ordem.

(...)Austeridade? Não há políticas inevitáveis
http://www.portugaluncut.blogspot.com
4. Porque devemos exigir uma auditoria cidadã?
Existem duas razões principais:4.1.
Uma auditoria cidadã é a única modalidade que oferece garantias emtermos de transparência e prestação de contas à sociedade civil. Além disso, é a única que garante rigor e precisão na detecção de dívida legítima,ilegítima, insustentável ou odiosa.4.2. A auditoria cidadã tem o objectivo de clarificar o processo de reestruturação da dívida e torná-lo político. Com uma auditoria cidadã, a reestru-turação passará obrigatoriamente por considerações de justiça social e nãoapenas por obrigações contratuais ou pela satisfação das prioridades decredores (especialmente de credores que são co-responsáveis pela con-tracção de dívida ilegítima/ilegal/insustentável).
5. Qual é o papel da sociedade civil neste processo?
A sociedade civil desempenha três papéis principais:5.1. Elege os representantes que formarão uma comissão de auditoria;
5.2. Define os termos da fiscalização à comissão de auditoria;
5.3. Utiliza os resultados.
6. Que tipos de dívida podem ser detectados numaauditoria cidadã da dívida pública?
A dívida pública pode ser dividida em quatro categorias:6.1.
Dívida legítima:
Compromissos assumidos pelo sector público nos termos dalei, em igualdade de circunstâncias entre devedor e credor, e em benefício (subjec-tivo/objectivo) do interesse geral;
6.2.Dívida ilegítima:
Compromissos assumidos pelo sector público nos termosda lei, mas sem que se verifique a situação de igualdade de circunstâncias entredevedore e credor, e/ou em prejuízo (subjectivo/objectivo) do interesse geral;6.3.
Dívida ilegal:
Compromissos contraídos pelo sector público em violação do ordenamento jurídico aplicável;
6.4.Dívida odiosa:
Compromissos contraídos por regimes autoritários em prejuízo claro dos interesses dos seus cidadãos;
6.5.Dívida insustentável:
Compromissos assumidos pelo sector público cujo pagamento é incompatível com o crescimento e criação de emprego (o volume de encargos com dívida e juros respectivos asfixia as finanças públicas).Podemos tirar algumas conclusões:
6.6. O empréstimo acordado com a comissão conjunta BCE-CE-FMI comporta juros insustentáveis, pelo que uma parte da dívida é, previsivelmente, insustentável. (...) Aqui
Só que isto convem que fique no segredo dos deuses!

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Maio 2011

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031