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Fio de Prumo



Terça-feira, 10.05.11

Está em mudança o paradigma político?

 

 

Desde os anos 80 do século XX que o modelo neoliberal de economia foi lançado, primeiro, quase a título experimental, pela Grã-Bretanha e pelos EUA e, depois da queda do Bloco de Leste, com grande velocidade pela Europa e restantes Estados com capacidade para tal. O modelo veio mostrar que a política era, de facto, dominada pela alta finança e não o contrário. Hoje, depois da crise financeira que estalou há três anos, todos sabemos que os políticos comprometidos com o neoliberalismo não comandam os acontecimentos, porque são comandados, porque são joguetes, na mão dos financeiros do mundo. Assim sendo, pode dizer-se que o modelo ou paradigma neoliberal mostrou toda a sua face e nada mais tem a esconder. Esgotou-se. Só nele pode acreditar quem dele colhe benefícios. Ora, a maioria da população mundial não ganha nada com o neoliberalismo. Então, poder-se-á perguntar: — É tempo de mudar o paradigma político?

A resposta só pode ser afirmativa. Mas mudar como e para onde? Regressar ao Estado-providência? Como, se foram muitos dos políticos que o defendiam quem pactuou com o neoliberalismo? Parece que essa via está fechada! Ir repescar as ideias marxistas e relançá-las novamente como solução? Poderia ser, todavia, a grande maioria da população politicamente esclarecida do mundo, sabe que o modelo marxista faliu com a implosão da URSS e dos Estados que a acompanharam ideologicamente. Por outro lado, os Estados que restam, dizendo-se socialistas, mostram uma face ditatorial ou para-ditatorial que não agrada a quem está habituado a viver a democracia herdada do século XIX ou, até mesmo, da Revolução Francesa: uma democracia que respeita os direitos privados e individuais. Então, também esta via parece fechar-se. Embora absurda, a solução passaria por modelos políticos ditatoriais inspirados no fascismo ou nos seus derivados? É evidente que o mundo e os cidadãos dos Estados querem liberdade, tal como vem sendo proclamado — viciadamente ou não — pelos povos do Norte de África. Já se não desejam ditaduras como solução para opor ao neoliberalismo. O que resta, como paradigma político possível? Nada mais! Esgotaram-se as soluções conhecidas e recebidas do passado.

 

A materialização da vida quotidiana, o afogamento pelas e nas novas tecnologias, não tem permitido reflexões inovadoras. Sabemos identificar os males do passado, mas estamos perante um buraco negro em relação ao futuro. Os condicionalismos sociais e laborais do século XIX alteraram-se completamente. É absurdo falar em proletariado no século XXI, porque a proletarização, saindo da classe operária e do campesinato, expandiu-se aos serviços e sedimentou-se nas classes médias. O novo paradigma político tem de passar, exactamente, pelas classes médias, satisfazendo os seus anseios e os seus desejos. Anseios e desejos que se identificam com os fundamentos burgueses de uma sociedade habituada ao consumo. É, por conseguinte, absurdo falar de burguesia e de aburguesamento numa perspectiva marxista, porque essa é a meta de todo o ser humano: desfrutar do bem-estar que a sociedade de consumo trouxe através das evoluções tecnológicas. É absurdo falar de poder popular, porque o poder hoje pode exercer-se através da Internet, do computador, do telemóvel. Não é na rua, com pedras, que se definem caminhos e rumos políticos. A rua só serve para mostrar o número, mas o número também se mostra nas redes sociais, nas petições electrónicas.

Estaremos perante uma incapacidade inovadora? Terá, realmente, chegado o fim da História? Terá a alta finança ganho a corrida e estaremos condenados a uma servidão controlada entre o trabalho e um salário que seja meramente suficiente para manter os níveis de produção que garantem os fluxos financeiros que atravessam as novas tecnologias e desembocam nos cofres dos bancos e nos bolsos dos grandes accionistas? Que nova revolução se pode delinear para dar resposta a um paradigma que, parece, se esgotou?

 

 

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por Luís Alves de Fraga às 01:15


4 comentários

De Fernando Vouga a 11.05.2011 às 13:05

Caro Alves de Fraga

Este seu trabalho dá que pensar. À nossa frente temos um ponto de interrogação assustador. Francamente, não vejo resposta. A menos que no "sistema ecológico" da política, a mãe "natureza" faça evoluir os acontecimentos para uma nova ordem mundial. Que será sem dúvida doloroso e traumatizante, com todo o cortejo de injustiças e desgraças que são inerentes a tais mudanças.
Muitas vezes, no passado, foram as guerras que acabaram por impor novos arranjos. Mas nessa altura não havia armas atómicas para dissuadirem os aventureirismos.
De qualquer forma, estamos agora a viver uma guerra muito diferente, mas igualmente destruidora. Uma guerra que coloca frente a frente dois modelos igualmente inaceitáveis: a opressão religiosa e a opressão financeira...

De Gomes Jr. a 12.05.2011 às 12:02

Penso que com a delicadeza que lhe é peculiar o Fernando Vouga toca no verdadeiro fulcro da questão.
“This is a new order in the world” foram as palavras de Bush (pai) quando do seu discurso ao povo americano anunciando a primeira guerra do Golfo.
Foram palavras sãs e necessárias, foram palavras que anunciando que iríamos entrar numa nova fase de gestão das mentalidades, estas palavras passaram talvez despercebidas, mas que no entanto se verificam verdade.
As coisas já tinham começado em 1947 e estamos ainda longe do fim da “Nova Ordem Mundial”.
Dantes o mundo era nosso, hoje o mundo é deles!

De António Trancoso a 18.05.2011 às 15:16

Meu Bom Amigo
No teu anterior post, acordaste bem cedo em consequência das tuas cívicas e académicas preocupações.
Agora, com esta tua lúcida reflexão, conseguiste que eu só consiga adormecer...quando tu acordas!!!

De José dos Santos Moreira a 20.05.2011 às 14:01

Há sonos que custam carreiras.
O mundo ainda não acordou e, como sabemos, quem não chega a horas perde o seu lugar.
O Novo Sistema já existe, estamos só e ainda em regime de biscate.

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