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Fio de Prumo



Terça-feira, 26.04.11

Portugal na Europa e a Europa em Portugal

 

Na adesão à CEE não foi devidamente acautelado o interesse nacional português!

Não foi, porque se deixou que a Europa entrasse em Portugal e não o contrário. À Europa agrícola não se juntou a fraca agricultura portuguesa. À Europa pesqueira não se juntou a frota de pesca de Portugal. À Europa industrializada não se somou a fraca indústria nacional. À Europa do Mercado Comum não se juntaram os produtos comerciais portugueses. Não! Houve que acreditar que os tempos negociados para a transição eram suficientes. Houve que acreditar que as ajudas financeiras prestadas compensariam por tempo indefinido as incapacidades dos empresários portugueses. Acreditou-se que os capitalistas nacionais – habituados a, com a exploração da mão-de-obra, arrecadar os maiores lucros possíveis – se iriam transformar repentinamente em sábios gestores. Acreditou-se no que se desejou acreditar, porque não se olhou ou não quis olhar para o país real, para o país saído do condicionamento industrial do Estado Novo, para o tecido empresarial habituado à asa protectora dos Estado e à repressão fácil das várias polícias que impunham a ordem fascista. Não se olhou… Melhor, os políticos de então não olharam para o país real. E a culpa não foi nossa, senhores! Nós limitámo-nos a escolher os políticos que julgávamos competentes, porque se alardearam competentes. Nós escolhemos, ao princípio, partidos e, com Cavaco Silva, habituámo-nos a escolher um líder partidário. Foi ele quem inaugurou esse novo estádio da democracia portuguesa. Foi Cavaco Silva quem impôs aos Portugueses, em vez de um programa, um homem, um dirigente e, desse tempo em diante, passou a fazer escola esse tipo de escolha. Deixámos de escolher ideias para passarmos a escolher a ideia de um líder, de um político. Cavaco Silva soube utilizar o capital de embrutecimento do povo português, herdado do tempo de Salazar, para fazer uso dele em seu proveito. Cavaco Silva enganou-nos tanto como Salazar enganou a geração dos meus pais. Depois dele, todos, mas mesmo todos, os políticos passaram a fazer o mesmo que ele fez: imporem-se ao eleitorado, enquanto pessoas e não enquanto representantes de um projecto, de um ideal, de um sonho. E nesse cego enlevo fomo-nos deixando estar, porque o dinheiro da CEE entrava a rodos pelas portas dos portugueses e com ele se comprava o que da Europa se vendia nas prateleiras dos supermercados, nas bancas das agências de turismo, nas exposições internacionais, no mercado de bens imobiliários, nos stands de automóveis, enfim, em todo o lado.

Nas nossas casas entraram-nos os políticos vendidos quais produtos comerciais e entrou-nos a Europa. E nós, por força do provincianismo fascista, desabituados dos requintes europeus, dos cinismos dos grandes vendedores, fomo-nos deixando enlear nas malhas da Europa. Uma Europa que nos cobra hoje, pesadamente, a inocência e a falta de atenção dos nossos políticos. Uma Europa que está em Portugal e que não aceita nela o Portugal que nos obrigou a ser. Uma Europa que nos rejeita, depois de termos servido para a servir, para consumirmos os seus produtos, para engrossarmos os cabedais dos seus bancos.

Que inocentes que nós fomos! Que inocentes são os europeístas deste Portugal provinciano desembarcado de África no ano de 1975! Que herança esta deixada pelo homem de Santa Comba Dão! 

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por Luís Alves de Fraga às 22:37


2 comentários

De Notepad a 27.04.2011 às 20:55

A amálgama de questões é fértil em barafunda e passamos da Europa a Cavaco e de Cavaco a Salazar sem que sequer se diga que Salazar sabia bem quem tinha, que Cavaco se assim o decidiu foi porque sabia com quem estava e que afinal tudo é uma enorme falha na cultura deste povo que nem votar sabe…isso o coronel não diz, como não nos diz também como e porque é que estamos no ponto em que estamos, ou será que só se constata?
De que serve a História?
Portugal nunca teve área agrícola competitiva e veja, uma grande quinta em Portugal são entre 3 e 10 hectares, em Espanha são 600…!
Nem mentalmente somos competitivos e diz-me agora que é Cavaco, que foi o homem de Santa Comba...?
Salazar sabia quem tinha…Cavaco sabe bem com o que conta.
Portugal nunca deu uvas.

De Arménio Janeira a 28.04.2011 às 09:58

Ora aqui está um ponto de vista que coincide com a minha percepção de há muitos anos:Foi a Europa que entrou em Portugal e não o contrário. Seja como for, também é preciso ter em conta se haveria outra alternativa...

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