Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo



Sábado, 12.03.11

Spínola, Cavaco e a manifestação silenciosa

 

«É necessário que um sobressalto cívico faça despertar os Portugueses para a necessidade de uma sociedade civil forte, dinâmica e, sobretudo, mais autónoma perante os poderes públicos.»

«É altura dos Portugueses despertarem da letargia em que têm vivido e perceberem claramente que só uma grande mobilização da sociedade civil permitirá garantir um rumo de futuro para a legítima ambição de nos aproximarmos do nível de desenvolvimento dos países mais avançados da União Europeia.» (Presidente da República, Cavaco Silva).

 

Os mais novos ainda não eram vivos ou tinham tão pouca idade que não se lembram daquilo de que vou falar, todavia, os mais velhos lembrar-se-ão.

 

Poucos meses após 25 de Abril de 1974 o, então Presidente da República, revolucionária e inocentemente escolhido para o cargo pelos Capitães do Movimento das Forças Armadas, general António de Spínola, homem marcadamente conservador, autoritário e pouco avesso às mudanças que a dinâmica popular impunha logo a seguir ao acto libertador, lembrou-se de fazer um discurso apelando à manifestação daqueles que ele designou por “maioria silenciosa”. Tratava-se, sem dúvida, de fazer sair para a rua todos quantos, habituados à tranquilidade salazarenta do Estado Novo (cada vez mais velho), se sentiam descontentes com o rumo dos acontecimentos que lhes retirava um sossego feito à custa dos silêncios obtidos pela censura e pela repressão policial que tinham vigorado nas quase cinco dezenas de anos que levávamos de ditadura. Foi um apelo à contra-revolução que o Presidente da República fez na tentativa de conseguir adesões ao seu conservadorismo e ao seu autoritarismo. Não foi um acto isento nem, muito menos inocente. Pelo contrário, foi uma chamada à luta com intenções duvidosas. Valeu-lhe as desconfianças de todos os sectores comprometidos com a democratização de Portugal e dos Portugueses e a simpatia de todos os reaccionários de então.

Passaram-se quase trinta e sete anos sobre este acontecimento e, curiosamente, no dia da tomada de posse do segundo mandato do cargo de Presidente da República, o Professor Cavaco Silva, no discurso proferido sem o brilho nem o vigor do general Spínola, fez, veladamente (mas não tanto que não desse para ser entendido), um apelo em quase tudo semelhante ao do seu antecessor militar, sugerindo a manifestação do descontentamento popular em relação à governação em curso.

Há trinta e sete anos, Spínola procurava encontrar uma base de apoio para poder travar um processo que não controlava. Actualmente, Cavaco Silva ofereceu uma base de apoio ao seu partido, o PSD, para lhe dar confiança com vista a poder romper com o Governo e gerar uma crise política na qual ele, Presidente da República, seja o manipulador dos cordões das marionetes que se exibem neste teatro nacional. A direita política vai poder afirmar-se com a ajuda de Cavaco Silva e esse é o acto de “vingança” do falecido general António de Spínola. Claro que o primeiro-ministro José Sócrates e o Partido Socialista nada têm de comum com o Movimento das Forças Armadas de há trinta e sete anos! José Sócrates está a pagar a incapacidade de fazer uma política de oposição à direita e, tal como o povo diz, «Quem o inimigo poupa às mãos lhe morre!».

A lição dos acontecimentos vamos tê-la daqui a alguns meses quando o PSD for governo e mostrar a força de uma direita imparável e insaciável.

Os cortes da despesa do Estado vão fazer-se e afectarão todos os portugueses, porque o Serviço Nacional de Saúde está na mira do PSD, tal como todos os subsídios sociais que dão garantias de sobrevivência aos mais carecidos. Milagres não se fazem e não é Passos Coelho quem os vai fazer, tal como os não fez José Sócrates. Portugal e os Portugueses – todos nós, afinal – têm um largo deserto para atravessar. Isso não o diz nenhum político da esquerda à direita, mas todos o sabem com muita certeza!

Cavaco Silva abriu a caixa de Pandora! O resto se verá…

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 23:13


12 comentários

De J.Silva a 14.03.2011 às 13:58

Caro Sr. Coronel
A verdadeira "caixa de pandora", há-de ser aberta pela sociedade civil. Quando muito poderia ter havido um aproveitamento, no discurso do PR, da já anunciada, maniifestação da "geração (ões) à rasca".
O povo move-se por causa da situação em que se encontra, devido aos favores que este governo está a fazer aos interesses do capital, do liberalismo económico/financeiro e da irracionalidade que demonstra na administração do País, Quase todos os políticos têm revelado incapacidade na governação que jremonta, pelo menos, ao tempo de C.Silva quando este era 1º Ministro. Ocorre perguntar: o que fizeram aos milhões de euros, ou o que deixaram fazer que vieram da UE para implementar projectos sustentados para integrar Portugal no novo espaço europeu? A agricultura, as pescas, a indústria metalúrgica, a construção naval, etc.,etc., foram quase totalmente desmantelados. Que alternativas foram criadas? Nada de desculpar estes dois partidos: PSD e PS porque ambos são "farinha do mesmo saco" e só a eles se deve a actual e calamitosa situação do País.
Estamos à beira de uma grave crise política a juntar à crise económica, não se sabendo ao certo quem provoca quem , ou se por detrás da situação caótica que se avizinha não estarão intereses mais profundos e obscuros do que aquilo que possamos imaginar. Para finalizer direi que é muito triste ver o País de joelhos perante as estâncias internacionais. Mas, em última análise, todos nós temos a nossa quota parte de responsabilidade na situação a que chegámos..
Cumprimentos.

De Fernando Vouga a 15.03.2011 às 12:51

Caro Alves de Fraga

Dou-lhe os parabéns por esta análise muito bem observada e oportuna. E temo que esteja a fazer futurologia.
Mas não estou tão pessimista. Cavaco, ao contrário do velho marechal, é um tíbio que nem sequer tem a frontalidade imprescindível a um verdadeiro lider. Fala por metáforas, nunca chamando os bois pelo nome, como se costuma dizer. Todo o seu discurso é cheio de ambiguidades e não é com elas que se impulsiona sequer uma minhoca.
Quanto ao senhor que se segue, o líder do maior partido da oposição, já deu a entender que não vai a lado nenhum. Não acredito que seja capaz de implementar devidamente seja o que for.
Penso que a actual situação já não se resolve com alternâncias de governo. É preciso mudar o sistema todo.

De CSAC a 15.03.2011 às 21:46

Os incautos pensam que esta república com falta de bananeiras mas cheia de bananas já tocou no fundo... Este povinho que somos só tem tido aquilo que merece e, ainda a procissão não chegou ao adro da igreja...

De João CCruz a 17.03.2011 às 20:26

E parafrasenado...

«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (…)

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro (…)

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do pais, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, - como da roda duma lotaria.

A justiça ao arbítrio da Politica, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas; (…)

Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)»

Pátria / Guerra Junqueiro


PS não acredito no movimento das massas civis portuguesas...«o povo é sereno» José Baptista Pinheiro de Azevedo (Alm)

De Anónimo a 18.03.2011 às 12:44

Ora aqui está uma análise com extrema clareza e cheia de bom senso.

De Ana Maria Ribeiro a 30.03.2011 às 23:37

Valha-nos o termo ser indefinido, já que "este povinho" me parece tão pouco dignificante.
Não me parece que a generalização seja correcta, ou mesmo justa.
Sabemos que a ignorância é facilmente trabalhada.
É o poder que constroi deliberadamente esta aterradora massa amorfa que é global.
A mediocridade é generalizada, e não exclusiva do povo português

De Ana Maria Ribeiro a 02.04.2011 às 22:33

Este comentário que, por engano meu, foi indevidamente introduzido abaixo, e que agora transcrevo, dizia respeito ao que V.Ex. escreveu:
"Valha-nos o termo ser indefinido, já que "este povinho" me parece tão pouco dignificante.
Não me parece que a generalização seja correcta, ou mesmo justa.
Sabemos que a ignorância é facilmente trabalhada.
É o poder que constrói deliberadamente esta aterradora massa amorfa que é global.
A mediocridade é generalizada, e não exclusiva do povo português."

De Camões Poeta Zarolho a 18.03.2011 às 00:36

ELEIÇÕES ANTECIPADAS
RESPONSABILIZAÇÃO DE TODA A "CLASSE" POLÍTICA PORTUGUESA

Ao lêr esta notícia;
http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/notic ... rredutivel
"(...)A próxima quarta-feira deverá ser o dia decisivo para o futuro político próximo de Portugal, uma vez que será debatido no Parlamento o PEC 4, cuja prevísivel não aprovação por parte do PSD deverá levar o Governo a demitir-se, como garantiu Sócrates terça-feira em entrevista à SIC.
(...)"

Tive esta ideia de conseguir a responsabilização de todos os que nos têm (des)governado nos últimos 36 anos. É fácil e com resultado garantido, ninguém terá de mudar muito, nem sequer o seu habitual sentido de voto, aliás, a ideia é precisamente essa, senão vejamos;

Ao votarmos todos de modo igual ao que fizemos nas últimas eleições para o "Governo", obrigaremos o senhor Pinto de Sousa (conhecido como engenheiro Sócrates) a reassumir a posição de primeiro-ministro! Ele foi o principal, último e grande culpado do estado a que o Estado chegou, primeiro com a sua ditatorial atitude de Governo com maioria absoluta e agora, mantendo as mesmas atitudes ditatoriais, sem a ter.
Esta será a melhor forma de o responsabilizar, de o castigar e de o humilhar face à cobardia de querer agora abandonar o barco porque, simplesmente não aceita as regras da Democracia; só querer governar de forma arrogante e em Ditadura (leia-se maioria absoluta).
Por outro lado, não cederemos a hipótese ao senhor Passos Coelho, de após uma hipotética (e muito provável) tomada do poder, nos enterrar ainda mais, com a habitual desculpa de um Governo de côr diferente do anterior; "Tivemos de assim fazer porque afinal, o País estava bem pior do que o cessante Governo transmitiu aos Portugueses". Além da habitual troca, rotatividade e redistribuição dos tachos...

Votemos assim, da mesma forma que fizemos quando obrigámos este cavalheiro a Governar em diálogo, sem a habitual arrogância, sem maioria absoluta.

Se, nessa situação, após a votação e decisão do povo, o senhor Pinto de Sousa não formar Governo, estará a assumir perante 10.000.000 de Portugueses que é de facto uma nulidade (além de pseudo-engenheiro com provas dadas de mau profissionalismo enquanto técnico...) como "político" e gestor de um País. Será então a vez do senhor Passos Coelho mas, sem maioria absoluta!

Se os leitores acharem e concordarem que este será o melhor e mais certeiro método de alertar a "classe" política para o facto de que estamos fartos deles, poderá ser que abram os olhos, mudem de atitude e comece a aparecer gente séria para dirigir os destinos deste Portugal. Nesse caso, passem e repassem esta ideia, este texto, usem o email e as tão em voga redes sociais, já vimos o poder que elas têm, mudemos o tipo de "políticos" que temos!

Camões Poeta Zarolho

De CãoPincha a 20.03.2011 às 17:17

Gostámos imenso deste poste. Acabámos de publicar o nosso PEC e PAP que talvez vos interesse divulgar porque trata do mesmo assunto: o nosso afundamento sem ser nos submarinos do Paulo Portas nem nos «barcos» da Base de Bom Sucesso!
Parabéns.
CãoPincha

De Fernando Vouga a 23.03.2011 às 22:22

Caro Cão Pincha

Parece que o cão (sinónimo de calote) nacional vai ter de pinchar a mando de outro dono...

De Ana Maria Ribeiro a 30.03.2011 às 00:20

Bem-aventurados os que não se resignam, e não pactuam com o sistema.
Um grande abraço.

De Mário de Noronha a 22.04.2011 às 22:36

Prezado «camarada», embora eu não goste desta designação,
Concordo totalmente consigo e até já estava à espera que algo de «surrealista» acontecesse há mais tempo.
Só não estava à espera que até o «camarada» Otelo Saraiva de Carvalho dissesse que Salazar conseguia ser mais honesto e competente do que os governantes actuais, TODOS!
Infelizmente, tenho de concordar com ele, muito contra a minha vontade.

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Março 2011

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031