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Fio de Prumo



Quinta-feira, 10.06.10

Os reformados e as crises

 

A condição de reformado — de qualquer reformado — é de grande fragilidade, de grande insegurança, de tremenda dependência.

Esta afirmação parece não constituir novidade nenhuma, porque o comum dos meus leitores, provavelmente, pensa no reformado como aquele pobre cidadão que, não tendo mais nada para fazer e nada mais esperando da Vida, passa o seu tempo no banco do jardim ou em um qualquer centro de dia a ler o jornal ou, mais provavelmente, a jogar às cartas, de preferência à sueca.

Não. O meu reformado é esse e qualquer outro que vive de uma — e só de uma — pensão que lhe foi atribuída por força de muitos anos de trabalho para uma qualquer entidade, seja ela privada, pública ou estatal. O meu reformado tem mais de sessenta e cinco anos de idade e aufere um rendimento de acordo com os salários recebidos quando ainda era funcionário activo. O meu reformado é um homem ou mulher que se sente satisfeito por ter trabalhado e se acha no direito de receber, na velhice, a justa remuneração que está em concordância com o seu desempenho enquanto foi cidadão trabalhador. O meu reformado é um ser comum que se cruza connosco nos transportes públicos e que se movimenta com maior ou menor agilidade consoante a robustez e o desgaste físico a que a vida o submeteu.

É sobre esse reformado que o meu artigo de hoje vai tratar.

 

É sabido que, a traços muito largos, poderíamos dizer que a vida de um Homem se define em três tempos diferentes: a infância e juventude, a idade adulta e a velhice. Na primeira parte, ele é um ser dependente: dependente dos pais e da família, sendo um consumidor activo e um contribuinte passivo. Na segunda parte da vida, ele é, fundamentalmente, um contribuinte activo, por ser um trabalhador e dar o seu esforço para a economia colectiva, comprando, fabricando, vendendo, transportando produtos ou serviços que alimentam o mercado. Na terceira e última parte, ele, sendo um consumidor activo, passa, também, a ser um contribuinte passivo. Quer dizer, todos nós, ao longo de uma vida, só durante um período — em três — é que geramos riqueza; nos dois restantes limitamo-nos a consumir; no primeiro, porque nos estamos a preparar para ser geradores de riqueza e no último, porque já gerámos a riqueza que tínhamos de gerar.

 

Ora, cada vez que se abate sobre a sociedade uma crise económica — e, no caso português, estamos a vivê-la há já vários anos — o sentimento com que é sentida e olhada a dita crise pelos dois primeiros grupos que constituem os segmentos da vida do Homem é diferente daquele que é sentido pelo último.

Com efeito, no primeiro grupo, ainda não se tem a verdadeira noção da crise e, quando muito, sentem-se-lhe os efeitos; no segundo grupo, sentindo a crise, cada elemento pode encontrar a melhor maneira de reagir para atenuar ou fugir à mesma ou aos efeitos dela; mas, no terceiro grupo, porque os rendimentos se mantêm fixos e se perderam as capacidades de reacção, só resta a quem dele faz parte tentar sobreviver, tendo a certeza de que, quanto mais tempo a Vida lhe der vida, mais frágil e desamparado estará perante a possibilidade de, com dignidade, ir vivendo.

 

Olhada a existência do Homem desta maneira, poder-se-ia, então, dizer que subsistem três fases na vida humana: a da inocência da crise, a da reacção à crise e, por fim, a da incapacidade de resistência à crise. Assim, postas as coisas, desta forma, é mais fácil perceber a injustiça que a sociedade e os poderes constituídos cometem sobre quem contribuiu com uma vida activa para a sobrevivência da economia, talvez, até, para a sua expansão durante o tempo em que pertenceu à segunda fase da vida e está, no presente, inactivo. Ao reformado resta-lhe esperar pela degradação do seu poder de compra; se este for já muito baixo, resta-lhe desejar o fim da vida.

 

A pergunta que subjaz ao raciocínio exposto é, por muito cruel que ela seja, averiguar quais são os padrões morais e éticos pelos quais se regem os poderes públicos das sociedades onde impera o sistema de produção condicionado pelas leis do mercado. Que moral é a deste sistema económico que usa e deita fora todos quantos serviram para o sustentar e desenvolver? Que condena à insegurança aqueles que mais seguros deveriam estar?

 

Sejamos práticos. Não discutamos as ideologias e olhemos objectivamente para os resultados. Saibamos extrair as conclusões acertadas e tenhamos a coragem de optar por aquele caminho que busca a Justiça. E Justiça é atender às necessidades de quem já deu o seu contributo para o bem-estar de toda a sociedade. Justiça é dar melhor condição de vida a quem já só tem viver como limite. Comecemos pelo fim, mas comecemos… Cruzar os braços ou lutar pelos nossos pequenos egoísmos é tornarmo-nos cúmplices do sistema.

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por Luís Alves de Fraga às 16:17


5 comentários

De Ramiro Soares Rodrigues a 11.06.2010 às 16:10

Caro Luís Fraga,

Mais um texto magnífico, oportuno e actual: Estou de acordo com a filosofia subjacente ao texto em que tão bem retratas a injustiça de um sistema, cujo modo de produção, sem o factor trabalho não se desenvolve, nem sobrevive. É o trabalho que gera e cria riqueza e os bens tangíveis que a corporiza. Riqueza mensurável através do valor acrescentado por via do trabalho despendido que lhe dá origem e a suporta com o seu justo valor. Sem ele, trabalho, todos os outros factores de produção, terra em sentido lato e capital, este em particular, só por si não terão as propriedades e as perícias necessárias e suficientes para criar valor. Acontece, que o sistema incorpora na filosofia do seu modo de produção as teorias e doutrinas que definem o factor trabalho como uma mercadoria sujeita ao "sacrossanto império do mercado", onde a tão famosa e celebrada "mão invisível " tudo regulará para que o sistema se mantenha em equilíbrio. O trabalho é encarado e analisado como de qualquer mercadoria se trate, sujeito às leis da oferta e da procura. Assim, e na prossecução do grande objectivo primeiro, e último, do sistema a "maximização dos lucros" em favor do capital, a velhice na sua incapacidade de resistência à crise, como muito bem dizes, seja considerada como um empecilho ao prosseguimento do grande objectivo do sistema. Daí que, sem quaisquer considerações e preocupações no que ao Homem respeita, se assista ao abandono e o "deitar fora" de seres humanos que muito de si deram para a riqueza produzida e muito mal distribuída. Estou contigo, é chegada a hora de se dizer basta. Mesmo no actual sistema e modo de produção é possível atender às necessidades fundamentais, imperiosas e inadiáveis daqueles que por razões de idade e, ou de depauperamento físico não estão em condições de produzir e tenham de novo de enfileirar nos consumidores activos. São credores da sociedade e do País, pelo que deram do melhor de si na fase de contribuintes activo. Não sejamos cúmplices do sistema e daqueles que o administram e gerem.

Um Abraço

De Rui Saraiva Alves a 12.06.2010 às 13:32

Caro Senhor "... ..."
Dê uma olhada neste Blog

http://www.solidariteetprogres.org/article6670.html

Rui Saraiva Alves

De António Trancoso a 12.06.2010 às 23:08

Nem mais, meu Caro Ramiro.
Um forte abraço para os dois.

De traumilla bimbi a 11.06.2010 às 16:11

Muito interessante e oportuno, como sempre.
Faz-me lembrar um texto de Baptista-Bastos de "Peregrinação Interior" (sei que não se usam aspas nos títulos de publicações, mas aqui não sei pôr itálico!!) e do qual gosto muito.

De Ana Maria Ribeiro a 30.06.2010 às 14:37

Caro Professor e amigo
Se eu servi para sustentar e desenvolver tamanha aberração de sistema económico, não será mesmo um sentimento nobre desejar o fim da vida?

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