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Fio de Prumo



Sexta-feira, 04.06.10

O Almirante Rosa Coutinho e Angola

 

Mão amiga fez chegar ao meu conhecimento o artigo que o Jornal de Angola publicou sobre a morte do Almirante Rosa Coutinho.

Mais do que o elogio fúnebre daquele que era, à data do 25 de Abril de 1974, o Capitão-de-fragata indicado pelos oficiais da Armada como um dos representantes do Ramo na Junta de Salvação Nacional, o articulista procurou traçar as linhas cruzadas de Rosa Coutinho com Angola, dando a conhecer a sequência dos acontecimentos entre 1974 e 1975.

O «Fio de Prumo», com a devida vénia, acolhe, aqui e agora, esse artigo por ser mais um documento para o esclarecimento da verdade histórica, ao mesmo tempo que presta homenagem à memória de mais um camarada que fez do 25 de Abril de 1974 uma data de esperança para Portugueses e Angolanos.

 

Rosa Coutinho faleceu ontem em Lisboa 03 de Junho 2010

 

O almirante Rosa Coutinho, falecido ontem em Lisboa, teve um papel fulcral no período entre o 25 de Abril de 1974 e o 11 de Novembro de 1975, dia da Independência Nacional. Foi ele que trouxe para Angola o programa integral do Movimento das Forças Armadas, que fez a Revolução dos Cravos em Portugal, e desmontou todas as conspirações montadas pelo general Spínola, Richard Nixon e Mobutu Sese Seko. Os oficiais que derrubaram em Portugal o regime colonial fascista elegeram uma Junta de Salvação Nacional constituída pelos generais Costa Gomes, António de Spínola e Diogo Neto, brigadeiro Jaime Silvério Marques, coronel Galvão de Melo, capitão de fragata Rosa Coutinho e pelo capitão de mar e guerra Pinheiro de Azevedo.

Spínola foi escolhido para Presidente da República na fase de transição e contrariando o programa do MFA, anunciou que Portugal ia criar uma federação de estados independentes com as suas colónias.

Jonas Savimbi, aos microfones da então Emissora Oficial de Angola, apoiou de imediato a solução do federalismo. Mas os “Capitães de Abril” forçaram Spínola a aceitar a tese da “independência total e completa” para todas as colónias.

Desta clivagem resultou uma situação grave. Spínola mandou para Angola, como governador-geral, o general Silvino Silvério Marques que tinha cumprido um anterior mandato ao serviço de Salazar. O novo governador imediatamente se associou aos grupos de colonos ricos que defendiam uma solução igual à da Rodésia de Ian Smith, a proclamação unilateral da independência e a adopção de um regime de apartheid. As forças de defesa e segurança da África do Sul apoiavam esta solução.

Esquadrões da morte começaram a actuar lançando o terror sobre as populações indefesas dos musseques. Os órgãos de informação, com destaque para o Diário de Luanda, apoiavam a aventura spinolista e de Silvino Silvério Marques. A situação agravou-se de tal forma que milhares de angolanos que cumpriam serviço militar obrigatório nas forças armadas portuguesas revoltaram-se e assumiram a defesa das populações. Face à gravidade da situação social e política, o MFA viu-se forçado a demitir o governador. Foi neste quadro que o almirante Rosa Coutinho chegou a Angola, investido no cargo de Alto-Comissário.

A sua primeira tarefa foi desarmar os esquadrões da morte. Depois prendeu e deportou para Portugal todos os líderes do movimento que defendia uma “independência branca”. Agentes da polícia que eram cantineiros nos musseques e taxistas invadiram o palácio do governador para derrubar Rosa Coutinho. Foi a última aventura contra-revolucionária. Nessa noite os líderes do movimento foram presos e enviados para Lisboa.

Quando a situação em Luanda acalmou, Spínola estabeleceu contactos com Nixon e encontrou-se com ele nos Açores. Os três decidiram que Angola tinha de ficar na órbita do Zaire de Mobutu e para isso era preciso que Portugal privilegiasse as relações com a FNLA. Um mês depois, Nixon, Spínola e Mobutu têm uma reunião na Ilha do Sal, Cabo Verde, e estabelecem o plano de transferência de poderes para a FNLA, sob a alegação de que o MPLA não podia ser interlocutor já que estava dividido em três facções, uma liderada por Agostinho Neto, outra por Daniel Chipenda (Revolta do Leste) e a terceira por Joaquim Pinto de Andrade (Revolta Activa). A UNITA ficou de fora porque não era reconhecida pela Organização de Unidade Africana (hoje União Africana) como movimento de libertação.

O almirante Rosa Coutinho foi informado da situação pelo MFA e estabeleceu contactos com Hermínio Escórcio e Manuel Pedro Pacavira, que estavam a “refundar” no interior o MPLA sem facções. Ficou decidido que só existia um MPLA, o que era dirigido por Agostinho Neto, e que as duas facções não eram reconhecidas pelo Alto-Comissário. Esta decisão ia custando muito caro porque algumas figuras de proa da Revolta Activa tinham excelentes relações com Henri Lopez, primeiro-ministro do Congo Brazaville, e este accionou uma “operação” da FLEC em Massaoi, com a ajuda de mercenários franceses, com o objectivo de proclamarem a independência da província de Cabinda. Rosa Coutinho organizou uma operação de fuzileiros navais e ele próprio acompanhou essa força a Massabi e os mercenários foram abatidos ou postos em fuga.

 

Preparação de Mombaça

 

O MPLA no interior estava unido e cada vez mais forte, em todas as províncias. Em Portugal começaram a surgir sinais de divisões profundas no seio do MFA. O almirante Rosa Coutinho pedia a Hermínio Escórcio e Manuel Pedro Pacavira rapidez na acção. Queria assinar um cessar-fogo com Agostinho Neto para de seguida preparar condições que conduzissem a um acordo para a independência.

O acordo de cessar-fogo entre Portugal e o MPLA foi assinado por Agostinho Neto e oficiais do MFA, entre os quais Pezarath Correia e José Emílio da Silva, os coordenadores do movimento em Angola, na chana do Luinhamege. O almirante Rosa Coutinho queria Agostinho Neto em Luanda com toda a urgência, porque a ala spinolista do MFA dava cada vez mais força à solução que privilegiava a FNLA e Mobutu.

As coisas corriam a alta velocidade e a UNITA aparecia aos olhos da opinião pública como o “movimento dos brancos”. E Savimbi auto-intitulava-se o “muata da paz”. Os colonos e grande parte das elites negras do Planalto Central engrossavam a UNITA de tal forma que já não era possível iniciar as negociações para a independência sem a sua presença. Mas a FNLA, que tinha acabado de assinar um acordo de cessar-fogo com o MFA, em Kinshasa e sob a tutela de Mobutu, rejeitava a UNITA sob a alegação de que não era um movimento de libertação reconhecido pela Organização de Unidade Africana.

Rosa Coutinho e o MFA conseguem que Agostinho Neto e Jonas Savimbi assinem um acordo de cooperação, no Luena, em Novembro de 1975. E a diplomacia portuguesa, ajudada pelo MPLA, conseguiu que a OUA reconhecesse a UNITA. Estavam criadas as condições para preparar a independência de Angola.

MPLA, FNLA e UNITA, em Dezembro, encontraram-se em Mombaça para prepararem uma posição comum a apresentar à parte portuguesa, na conferência marcada para Janeiro, no Alvor, Algarve.

 

Acordo de Alvor

 

O general Spínola estava fora da Presidência da República desde finais de Setembro de 1975, na sequência de um golpe de estado fracassado e que ele encabeçou. Mas continuava a conspirar e tinha ligações privilegiadas a sectores importantes do MFA. Durante as conversações do Alvor, essa facção, apoiada pelo poder económico em Angola, agora rendido à FNLA, rejeitou o nome de Rosa Coutinho para a fase de transição até ao dia 11 de Novembro, data definida no Acordo de Alvor para a Independência Nacional.

O afastamento de Rosa Coutinho ficou caro aos seus detractores. Porque o MPLA em troca exigiu pastas ministeriais estratégicas e bateu-se pela marcação de eleições. Agostinho Neto, numa entrevista ao jornal português Diário de Notícias, afirmava: “é bom que passemos pela experiência das eleições para cada um saber o que vale e quem representa”.

O Acordo de Alvor foi assinado e as partes aceitaram para Alto-Comissário o general da Força Aérea Silva Cardoso, que já prestava serviço em Angola. Logo que iniciou o seu mandato, permitiu a invasão do Norte de Angola pelas forças zairenses. Máquinas, equipamentos fabris e viaturas foram saqueados. O gado de raça do Planalto de Camabatela foi levado para o Zaire. O café das roças foi roubado. O Alto-Comissário mandou retirar para Luanda todas as forças portuguesas.

Em Luanda, Agostinho Neto denunciou em conferência de imprensa “uma invasão silenciosa no Norte de Angola”. O general Silva Cardoso respondeu que nada podia fazer.

Ainda em Janeiro de 1975, Daniel Chipenda e a FNLA assinaram um acordo de amizade e é aberta em Luanda uma “delegação do MPLA Chipenda”.

Agostinho Neto lembra ao Alto-Comissário que só existia um MPLA, aquele que estava no Governo de Transição. Silva Cardoso ignorou o protesto e deixou degradar a situação de tal forma que rebentou a guerra em Luanda.

Rosa Coutinho, agora figura de proa do Conselho da Revolução em Portugal, consegue substituir o Alto-Comissário pelo almirante Leonel Cardoso. Foi ele que conseguiu também que a parte portuguesa continuasse no Governo de Transição, com os ministros indicados pelo MPLA, quando a FNLA deu ordens aos seus ministros para abandonarem o governo e ordenou aos seus militantes que abandonassem Luanda e fossem para o Norte. A UNITA fez o mesmo e apelou “ao povo do sul” para abandonar Luanda. Simultaneamente uma coluna do Exército de Libertação de Portugal (ELP) e tropas sul-africanas com apoio aéreo invadem Angola pela fronteira de Namacunde e chegam ao Lubango onde Jonas Savimbi, aos microfones do Rádio Clube da Huíla, anuncia que está em marcha a tomada de Luanda.

O almirante Rosa Coutinho em Lisboa continuou a defender a presença da parte portuguesa no Governo de Transição até ao dia 11 de Novembro de 1975. E ao conseguir esse objectivo, ajudou a criar condições para que Agostinho Neto proclamasse a Independência Nacional na data prevista no Acordo de Alvor.

Ontem Angola perdeu um bom amigo.

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por Luís Alves de Fraga às 10:24


21 comentários

De andrade da silva a 04.06.2010 às 14:58

Tinha deixado de escrever neste blogue porque príncipes das letras, da verdade histórica, ou do saber só existem em monarquias e não em repúblicas e sou republicano plebeu, ponto...

Todavia de Rosa Coutinho quero dar a grande e indelével imagem que guardo como tenente, aos 26 anos de idade deste Almirante, quando na reunião ditatorial da Manutenção Militar logo após o 25 de Abril 74 quis falar de ética e foi calado pelo gen Spínola.

Teve coragem de fazer frente ao déspota, como o cor Vasco Gonçalves, o Dinis de Almeida, também tentei falar, mas o general declarou que só ouvia os estados maiores e os pavões que por ali se pavoneavam. como o major Sanches Osório.

Sobre os nobres actos do Almirante ou das suas falhas prefiro ouvir os depoimentos isentos de quem não tenha as mãos manchadas de sangue e o espírito de ignominia quer pela colonização, quer pela descolonização.

Os depoimentos dos fascistas e de qualquer ditador são execráveis, mentirosos, peçonhentos.

Admirei o Almirante e já peço há dois anos para que se conte a sua verdadeira história.

andrade da silva- tenente de Abril que entre outras missões chefei a equipa que assaltou o gabinete do comandante da EPA às 23 e 55 de 24 de Abril 74, para o deter e tomar a unidade.

De Anónimo a 05.06.2010 às 14:36

"Artigo de opinião" que, apesar de algumas imprecisões de tempo e lugar, consegue dar uma visão bastante consistente e, de certo modo imparcial, do que foi a transição em Angola da "guerra de libertação" para a autodeterminação do povo angolano e independência do seu país, numa época internacionalmente difícil e conturbada, nomeadamente, no contexto de "guerra fria" oeste-leste. E, de grandes dificuldades políticas, sociais e económicas em Portugal. As nossas capacidades e forças estavam depauperadas,após treze anos de luta e guerra em três teatros de operações, distanciados entre si e qualquer um deles bastante longe da retaguarda nacional, o território de Portugal continental e insular.

De andrade da silva a 05.06.2010 às 21:16

A afirmação da imparcialidade do artigo de opinião seria mais forte, se o comentário não fosse anónimo. Parece-me óbvio. Não serà?
andrade da silva

De r a 06.06.2010 às 01:11

Andrade e Silva

Podes ir ao "blog" NRP Cacine, que está lá o mesmo comentário com o meu nome. Não sei porque não aparece neste.

Até sempre. Boa noite. Um abraço,

Ramiro Soares Rodrigues

De andrade da silva a 06.06.2010 às 17:15

Caro Ramiro
Assim fica correcto. Tudo bem. Grande abraço. Temos de falar de todas estas matérias, enquanto estivermos vivos, muito embora acabe por passar para a história o que os escribas de serviço, por mais doutorados que sejam , entenderem.Mas o dever ético de cada um de nós é dar o seu contributo.
andrade da silva

De coisasdeca a 07.06.2010 às 20:11

Há arcas maiores que as do Pessoa
Publicado por helenafmatos em 5 Junho, 2010

«Altas patentes do Movimento das Forças Armadas de Portugal deram o aval ao envio de tropas cubanas e armas soviéticas para Angola em 1975, escreve nas suas memórias Oleg Najestkin, antigo agente secreto soviético.» Os nomes hoje revelados por José Milhazes não são propriamente uma supresa mas pode ser que assim dito por gente de fora se torne mais óbvio o que aconteceu.

Fontes cubanas confirmam e detalham ainda mais este aval que Milhazes refere neste seu post: «Los militares rojos en el poder facilitan a Cuba, que se involucra en los procesos de descolonización de Mozambique y Guinea Portuguesa, toda la información logística y de inteligencia necesaria para su participación militar en Africa portuguesa, lo que le sería de gran utilidad en las acciones militares posteriores en Angola. Las visitas entre La Habana y Lisboa se suceden una tras otra. Intercambios de estrategia, planes en común, que tienen como objetivo llevar al poder a los movimientos pro marxistas y a facilitar a Cuba toda la información necesaria para intervenir militarmente en el proceso en caso preciso. Tropas selectas cubanas se encontraban ya en Mozambique y Guinea Portuguesa.»

Como é evidente e aqui se escreve «De no ser por los altos oficiales de las fuerzas armadas portuguesas de tendencia marxista, a Cuba le hubiera tomado varios años reunir la información necesaria sobre las defensas, comunicaciones, logística y topografía de Angola, que utilizaría posteriormente en sus operaciones bélicas»
Em Las Guerras Secretas de Fidel Castro avança-se com datas de reuniões: «Cuba determina ubicar en Portugal a Francisco Astray, un agente experimentado, para facilitar la comunicación con el PC portugués y los llamados “militares rojos” Fabiao, Valera Gomes, Coutinho, Saraiva de Carvalho. Estos serán clave en el intento de transformar el proceso portugués hacia un modelo de tipo soviético. (…) Los militares cubanos que toman parte en las negociaciones con sus colegas portugueses revisten los cargos apropiados para llevar a cabo la planificación de una operación militar. Su contraparte portuguesa Coutinho propicia luego la entrada de pertrecho soviético y de unidades cubanas. Se inicia entonces un discreto pero intenso intercambio entre los “militares rojos” y los altos mandos castristas donde a todas luces se va explorando la opción militar combinada para llevar al MPLA al poder. Así, en abril de 1974 una representación de importantes estrategas portugueses encabezada por Valera Gomes inicia sus sesiones de intercambio en La Habana con Fidel y Raúl Castro, y con los generales Senén Casas (jefe del Estado Mayor, Fernando Vecino Alegret y Ochoa. Meses después, en julio de 1974, los generales Senén y Julio Casas Regueiro (jefe de la logística) y Emidgio Báez (jefe de la marina) visitan secretamente Portugal. Los tres generales son elementos necesarios para cualquier maniobra militar. En la reunión se discute la situación angoleña con Valera Gomes, Fabiao y Coutinho, que a la sazón ostentaba el mando en Angola. Una semana después de dicho cónclave, el general Saraiva de Carvalho, responsable del comando de operaciones del ejército portugués, arriba a La Habana acompañado del agente de los servicios secretos cubanos Astray. Saraiva de Carvalho conferencia con Fidel y con Raúl Castro, y con los generales Senén Casas, Ochoa y Francisco Cabrera.»

A Operação Carlota, assim se designou a intervenção cubana em Angola, deixou marcas profundas entre os cubanos. Não admira que sejam os cubanos ainda mais do que os russos ou os portugueses quem tem feito declarações mais duras sobre este assunto.
Publicado em 5 Junho, 2010 às 11:52 am e está arquivado em Geral

De josé costa - casal do marco a 08.06.2010 às 08:49

Ao Almirante Vermelho, que arda no Inferno tal como ardeu na Terra! A história registará para sempre a sua traição a Portugal e ao povo trabalhador de pequenos comerciantes e taxistas que foram para Angola e outras partes de Portugal Ultramarino, fugindo às duras condições de vida na Metrópole. Rosa Coutinho serviu, tal como muitos outros traidores à pátria que foram "encaminhados" pelo PCP para as "forças armadas", servindo a URSS e o PCP e traindo Portugal e o seu povo! « "E tinham razões para se queixar, logo que tomaram consciência de que o novo responsável por este sector governativo, da maior importância na conjuntura do momento, orientou toda a sua política para um descarado apoio ao MPLA e quem não colaborasse era considerado militante ou simpatizante da FRA, reaccionário perigoso, preso e escorraçado de Angola. Foi mesmo o Correia Jesuíno que impediu o Rosa Coutinho de ser linchado dentro do Palácio por um numeroso grupo de brancos que, completamente descontrolados e enfurecidos com a política seguida pelo Almirante Vermelho, irromperam pelo palácio durante mais uma manifestação dispostos a tudo. Rosa Coutinho que se encontrava em reunião numa sala próxima, saiu de imediato e foi encontrá-los num pequeno compartimento procurando saber o que pretendiam e tentar acalmá-los. No entanto os ânimos exaltaram-se, os homens foram apertando o cerco e o Rosa Coutinho teve que subir para cima duma mesa, procurando escapar à sua fúria. Nesta altura apareceu o Correia Jesuíno que conseguiu pôr um pouco de ordem na situação e chamar à razão aquela gente constituída essencialmente por camionistas e comerciantes, tendo tudo acabado em bem"». "ANGOLA, Anatomia de uma Tragédia", Oficina do Livro, General Silva Cardoso". Eram estes camionistas e comerciantes, os colonialistas?« "Entretanto, face à ligação do MPLA às estruturas do MFA, a presença portuguesa poderia conduzir a uma posição ainda mais reforçada do MPLA. Para além das frequentes acusações da cooperação das FAP com as FAPLA, o que não deixa de ser verdade em casos isolados, por vezes difíceis de discernir, a realidade era que as acusações da FNLA não cessavam; a ligação da CPPA e estruturas do MFA, em Angola, com os dirigentes do MPLA, era claramente evidente. Pessoalmente, não tinha quaisquer dúvidas: as visitas de Agostinho Neto e outras figuras destacadas do movimento a Lisboa e os contactos que mantinham com entidades oficiais eram mais uma prova do posicionamento nacional em relação aos movimentos; a cópia da carta onde o Bureau Político do MPLA pedia ao Alto-Comissário a prisão e expulsão dos ex-elementos da PIDE/DGS, enviada directamente para o Conselho da Revolução, era mais um testemunho do apoio que o Governo português concedia a este movimento. Por estas e outras razões, nem a UN1TA, nem FNLA pretendiam a presença portuguesa em Nakuru onde até poderiam introduzir alterações ao Acordo do Alvor com reflexos nas responsabilidades de Portugal, em todo o processo".
Em Histórias Secretas da Pide/DGS, Bruno Oliveira Santos, pg. 100 :
"Em Julho de 1975, milhares de soldados cubanos começaram a desembarcar em Angola, que era ainda território nacional. A libérrima imprensa portuguesa não dedicava ao assunto una única palavra. Trinta mil soldados estrangeiros em solo português não eram notícia para quanto a flibusteiros da informação enxameavam as redacções dos jornais portugueses e propagavam a verdade que tínhamos direito.(...) Na capital, e com a prestante cumplicidade do Governador Rosa Coutinho, o MPLA recebe da União Soviética dezenas de tanques T-55, baterias de artilharia e mísseis, além de operadores da radar e aviadores."(...).« Não há dúvida de que o MPLA no terreno não tinha força logística e material, por isso, introduziu no país com o consentimento dos mais radicais esquerdistas do MFA que estavam interessados em entregar Angola aos camaradas do MPLA por serem da mesma cor politica, toda a espécie de material bélico actualizado ficando, assim, em vantagem sobre os outros movimentos. Os outros partidos como a FNLA e Unita não o desconheciam com veremos a seguir. Inevitavelmente isto iria, como mais tarde se verificou, dar em conflito armado entre o MPLA e os restantes partidos com a funestas consequência para Angola e as suas gentes e para nós os portugue

De Rui Saraiva Alves a 09.06.2010 às 12:18

Senhor José Costa.
BRAVO por este seu artigo.
Quando li a página de topo e a "chapelada" que se tira a Rosa Coutinho, confesso que receei já não haverem testemunhas dessa época e que as recordações desse tempo tivessem sido apagadas, mas não, estão apenas detereoradas por quem não pretende ver, no entanto lendo atentamente o que nos conta, verifico que ainda há quem saiba, quem se lembre e que seja capaz de contar.
Felicito-o.
Ao que parece Rosa Coutinho foi um bom marinheiro, mas bom só para navegar em águas turvas !
Assim convinha ao Portugal desse tempo .
Otelo e outros, tal como Rosa Coutinho, não foram só homens que desempenharam um papel na nossa "suja" história desse e doutros tempos, nem idealistas de esquerda, eles foram PAGOS para tais "servicinhos"...mas disso não se fala.
Não foram só os T-55 nem as baterias de artilharia que chegavam a Angola, muitas mais coisas entre as quais droga e malas diplomáticas com dinheiro chegavam às mãos dos responsáveis, em Luanda e em Lisboa.
Houve tráfico de tudo e não foi só a guerra que destruiu.
Nessa altura, e o senhor tem toda a razão, a imprensa (rasca) portuguesa não fazia qualquer alusão ao desenrolar dos factos nem dos combates que se passavam nas três frentes.
Não, por aqui tudo ia bem, uma sardinha assada ao pôr-do-Sol e "hop" a vida vai !
Eu vivia em Paris nesse tempo e recordo-me que as actualidades francesas relatavam o que se passava na vida portuguesa, Paris Match tinha correspondentes em todas as frentes e o mundo livre estava inteiramente ao corrente.
Estavamos bastante mal vistos nas Nações Unidas, o Ocidente condenava, porém, a tentação era grande e muitos sonharam com a "quimera" do comunismo.
O que é facto é que as coisas estiveram mesmo, quase, quase a cair...tudo se segurou à força de Dollars e ainda bem que assim foi.
Cuba roubou como quis, foram pagos e bem pagos e Fidel facturou Lisboa ao preço do mercenário que sempre foi e que disso nunca passou!
Agora dizerem-me que Angola perdeu um amigo...sim, mas um amigo da onça !
Rosa Coutinho foi mesmo um "amigo da onça".
Demagogia a quanto obrigas...!
Cordiais saudações para si senhorJosé Costa.
Rui Saraiva Alves.

De Andrade Vasconcellos a 20.06.2010 às 19:47

Caro senhor José Costa de Casal do Marco

O respeito e a verdade deveriam andar de mãos dadas, parece-me que o senhor não respeita nada e quanto a verdade, a única que lhe reconheço neste seu texto é uma hedionda mentira, indigna de alguém que se possa considerar inteligente, sequer imparcial.
O senhor representa o estado novo, está mais que claro.
Eu representava então aqueles que vos combatiam.
Ainda hoje e como orgulhoso COMUNISTA em que pessoas como o senhor me transformaram, não perdi a esperança de um dia parar de distribuir cravos a quem nunca os mereceu, mas distribuir-lhes sim a derradeira justiça que desde o 25 de Abril de 74 merecem.

Andrade de Vasconcellos Lopes (Cor. PA- FAP ref.)

De José Cruz a 08.06.2010 às 09:32

A actividade do Alm. Rosa Coutinho como oficial da Armada, dos melhores que foi, acabou por ficar na sombra da sua acção pós 25Abril, a respeito da qual tem sido torpemente caluniado por mentes malévolas.
Durante toda a minha vida profissional na Marinha, falei com ele uma vez e durante uns breves minutos. Mas testemunhos de camaradas do seu tempo falam-me da sua extraordinária competência profissional e entusiasmado empenho em tudo o que se metia..
Sugiro a leitura do que sobre o Alm. RC escreveu o Ramiro Rodrigues - a quem peço vénia - no blogue "Áberta... no OCeano", com ligáção a partir deste.
Sugiro a leitura do que sobre o Alm. RC escreveu o Ramiro Rodrigues - a quem peço vénia - no blogue "Áberta... no OCeano", com ligáção a partir deste.

De António Trancoso a 16.06.2010 às 00:02

Meu Caro Nunes da Cruz

Que ainda haja muito ressabiado, por não terem vingado os seus intentos neo-colonialistas, sou capaz de os perceber...
O que já não consigo entender é a existência de gente que, tendo sofrido, no próprio âmbito familiar, os nefastos efeitos da criminosa política colonial do salazarismo, por estranho, ou herdado, "pacto de fidelidade", ao invés de legítima reprovação, se lhe renda respeitosa, incondicional e caninamente!!!
O pior é que se têm em muito bom conceito, sem a mínima noção do ridículo...
Através de ti, a minha sincera homenagem ao Homem que tanto mais se enaltece quanto mais os medíocres o pretendem vilipendiar.
Aceita o meu forte e saudoso abraço.

De Fernando Vouga a 13.06.2010 às 18:34

Caro Alves de Fraga

Estava eu a prestar serviço em Luanda, integrado num batalhão que, por ser disciplinado, foi para essa cidade para a chamada ordem pública, quando o Almirante Rosa Coutinho lá chegou para assumir o cargo de Governador de Angola. Fiz parte do grupo de oficiais que lhe foram apresentar cumprimentos.
Pareceu-me simpático e dinâmico.
Durante os meses em que servi sob o seu comando pareceu-me algo parcial. Tudo indicava que o seu objectivo era favorecer o MPLA.
Se tal atitude, a ser verdadeira, foi benéfica ou prejudicial para as partes interessadas, Portugal e Angola, é algo que só a História poderá julgar. E é ainda muito cedo para tal.

De António José Trancoso a 15.06.2010 às 01:20

Para além do que já é conhecido, concordo com a sensata observação do Coronel Monteiro Vouga quando sugere ainda ser cedo para que a História revele todas as variáveis que condicionaram a actuação portuguesa,,e, concomitantemente, a do Almirante Rosa Coutinho, numa situação de enorme e extraordinária complexidade. E, aquele Senhor Coronel fala de experiência feita.
Outros, limitam-se a ser "pombos correios" (sabe-se lá) de que inconfessáveis interesses, ou, outros, ainda, arvorando-se em detentores de altos padrões morais... da sua própria moralidade... fazem absoluta tábua rasa.
É bem certo que a Ignorância e a desvergonha não têm limites no atrevimento.

De Rui Saraiva Alves a 17.06.2010 às 13:12

http://jasg08.bloguepessoal.com/77129/A-CARTA-DE-ROSA-COUTINHO-A-AGOSTINHO-NETO/

...será ignorância, será esvergonha?
Falta de limites no atrevimento, estou de acordo !

A opinião é a opinião e cada um là sabe as linhas com que se cose, mas poderá o Trancose fazer o favor de me explicar o teor deste documento que circula na Google.
Ou será que a verdade só se diz em Fio de Prumo e sempre acompanhada do habitual "exercício didáctico" ?
Esses "detentores de altos padrões morais" a que nos faz alusão, não será que se refere àqueles para quem a experiência africana foi curta ou que se limitaram a pedir comissão após comissão para ganharem mais uns cobres (?), esses sim Trancoso, esses foram os tais "pombos-correios" a que se refere e que penso dos tais "inconfessáveis interesses" que relevo no seu comentário.
Cordial saudação para si.
Rui Saraiva Alves.

De Luís Alves de Fraga a 17.06.2010 às 19:40

Contrariamente ao que é meu hábito, vejo-me obrigado a dar resposta generalizada aos comentários já feitos.
1. É impensável que o Almirante Rosa Coutinho tenha, alguma vez na vida, agido contra a sua consciência de patriota e de português;
2. A calúnia é a arma dos fracos e dos cobardes;
3. Se o Almirante Rosa Coutinho foi parcial nos apoios que deu ou favoreceu fê-lo, não só para cumprir em pleno o Acrodo de Alvor, mas, também, porque as forças da África do Sul, ainda vivendo no mais hediondo racismo, há muito tinham em mira subordinar o recente Estado de Angola e a prova disso foi o mais do que evidente apoio dado ao movimento fantoche denominado UNITA, o qual fora, havia poucos anos, colaborador do Exército Português no combate ao MPLA, no Lestte de Angola. Esse foi o motivo pelo qual a OUA não o reconheceu, de imediato, como movimento libertador do Povo de Angola.
Julgo que a verdadeira História ainda vai demorar algum tempo a fazer-se isenta e justamente.
Julgo que emporcalhar a memória de um morto não é mais do que o vómito de gente com pouca verticalidade.

De Antonio Lopes a 12.08.2010 às 13:24

Um militar serve para servir. Servir a quem? Ou a sua bolsa (mercenário), ou a sua fé religiosa (cavaleiro), ou o seu senhor. E no tempo de que falamos (década de 70), quem deviam os militares considerar como seus senhores? Os Partidos, os Estrangeiros, a soberba ideológica, ou o Povo? Sempre desamparado e sem voz, que tanto em Portugal como em qualquer outra ex-província , nunca teve antes, não teve durante, nem teve depois quem de facto o protegesse ? Sim, porque o que a história vai dizer, é que em Angola os "militares" demitiram-se da sua responsabilidade de proteger o povo, salvo honrosas excepções (porque sem honra não se é militar, pode-se andar fardado, mas não se é militar), porque a revolução não foi mais do que uma revolução corporativa, como tudo o que perpetua a carraça no corpo deste infeliz povo. Como dizia Camões - « Fraco líder faz fraco as fortes gentes.» Mas ainda tenho esperança na honra militar. Gostava que não morrese definitivamente a honra militar, que por andar adormecida se deve levantar, que por necessitar de reabilitação deverá ganhar a primeira batalha - a da verdade, doa a quem doer, pertença a que corporação pentencer, tenha feito as mais boas acções que tenha feito, mas que falhou quando o Povo mais dele precisou.
Antonio Lopes

De noticias de angola a 22.01.2011 às 16:39

Que saudades de angola...

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