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Fio de Prumo



Terça-feira, 18.05.10

Da minha janela eu via o mundo

 

Coisas que às vezes acontecem!

Ao reler o texto que se segue, escrito há quase cinco anos — cinco anos pode ser muito ou pouco tempo… tudo depende da idade que temos — achei que ele, por um qualquer acaso que a roda da Vida impôs, está oportuno para os tempos que passam. Publiquei-o, a primeira vez, no meu outro blogue ao qual resolvi chamar «Desblogueando». Deixo-o, agora, para uma leitura mais política, no momento que atravessamos, aqui, no «Fio de Prumo», pois, embora sendo de cariz intimista, não foge ao padrão definido para este espaço.

 

 

Não sei qual o motivo, mas talvez por causa desta maldita constipação de nariz, na noite de hoje, dormi menos horas que nas anteriores.

Levantei-me um pouco antes das seis da manhã, depois de quatro de bom repouso.

Acordei sob o efeito de um sonho maravilhoso. Estava a passear na minha rua, a rua onde se situa o prédio onde nasci. Porque eu nasci em casa.

Recordo-a sempre como um rio que corre ao contrário, dos Anjos para a Graça, para o largo dos Sapadores, no começo da Penha de França. É a rua Angelina Vidal. Curioso que, entre nós, se cultiva o hábito, inculto, de não averiguar quem foi a personagem que dá nome à artéria onde vivemos. Coisa de gente sem prontidão para o trabalho de saber! Pois bem, Angelina Vidal foi poetisa, ficcionista, dramaturga e jornalista republicana nascida na segunda metade do século XIX e falecida, depois de anos de luta pelos direitos políticos e de cidadania da mulher, em 1917.

Hoje, a minha rua, é feia; encanada entre edifícios do começo do século XX, de um lado, e «modernos» apartamentos dos anos 50, do outro. Quando era pequenito, onde agora estão as casas «modernas», havia duas moradias térreas, uma oficina de trabalho metalomecânico e uma quinta de pinheiros altos que descia em rápido declive para a rua Damasceno Monteiro. Depois, por cima desta paisagem próxima, estendia-se o olhar até quase alcançar o rio, abarcando-se mais de um terço da velha Lisboa. Lá longe, na linha do horizonte, ainda se vislumbrava a cúpula da basílica da Estrela, mais perto, a meia distância, o edifício do Instituto de Medicina Legal e uma parte do Hospital de S. José; um pouco para a direita, o casario da antiga Escola de Guerra e o hipódromo onde os cadetes, montando cavalos, saltavam obstáculos (como essa visão terá sido, também, determinante para o meu futuro!); tendo já de me debruçar da janela, viam-se as árvores do Parque Eduardo VII; ali, à mão de semear, o Martin Moniz, a avenida Almirante Reis, o começo da «Baixa», fervilhando de gente. Essa era a cidade que me habituei a ver, mas a vida e o mundo estavam mesmo debaixo dos meus olhos, na minha rua.

Logo em frente da porta do prédio onde pela primeira vez chorei trabalhava-se do nascer do dia quase ao anoitecer, ligando barras de ferro (como é bonita a chuva de efémeras estrelas que saltam da soldadura eléctrica! Morrem antes de chegar ao chão, sem deixarem rasto...), martelando, torcendo metais; os sons cadenciados chegavam ao segundo andar ainda palpitantes... O trânsito era pouco; a rua, vivia os sons de dentro não se deixando encantar com os que velozmente por ela deslizavam. De manhã, por esta hora a que escrevo, ouvia-se a voz sonora da mulher da fava rica. Depois, mais tarde, era todo o desfilar de pregões das vendedeiras de fruta (de, no seu tempo, os «figos de capa rota»), de hortaliça (alface fresquinha), do peixe «do alto» (a pescada e o carapau). À tarde eram só frequentes as peixeiras com as canastras à cabeça, batendo o salto da chinela no empedrado da rua, quando bamboleavam os quadris em jeito de onda sensual; os longos peixes-espada cinzentos dependurados a enfeitar-lhes as canastras enquanto, ao meio, sobressaíam os cachuchos rosados de mistura com amêijoas, berbigões, sardinhas, chicharros e besugos já moles de muito mexidos. Às vezes, anunciando a chuva para o dia seguinte, lá vinha o amolador, soprando de modo especial uma gaita que soltava sons de paradoxal melodia e estridência. Sem dias nem horas certas, passava o ferro-velho, enquanto o limpa-chaminés, enfarruscado, vasculho na mão e cordas ao ombro, oferecia os seus serviços de manhã. O fim da tarde era o momento da camioneta que fazia a distribuição dos cântaros de água de Caneças tapados com uma rolha de cortiça embrulhada num papel verde-alface. De tempos a tempos, ronceiro na ascensão e veloz na descida, vinha o carro «eléctrico» que, ao subir, tinha paragem mesmo em frente da porta do prédio donde observava o mundo. Saía gente e raramente alguém entrava (não valia a pena pagar bilhete para chegar ao largo da Graça! Tempos difíceis!).

Um pouco mais a baixo e um pouco mais acima da oficina, as duas vivendas eram habitadas por oficiais do Exército e suas famílias (mais outro apelo a seguir a carreira castrense): o Sr. Engenheiro (coronel daquela Arma) e o Sr. Major. Lá no prédio já sobranceiro às escadinhas, na curva, vivia um outro... Chegou a general e malogradamente morreu em Angola num acidente de aviação que ceifou todos quantos o acompanhavam: chamava-se Silva Freire (dou comigo a pensar neste momento: - Com tantos oficiais na minha «frente», será que funcionaram como uma espécie de espelho para o meu futuro? Ter-me-ei deixado impressionar com o aparato das fardas ou prevaleceram a educação nos Pupilos do Exército e a influência familiar?).

Ao ver todos quantos calcorreavam a minha rua, sem infantário para onde ir, foi, olhando-os, com a testa encostada à vidraça, que aprendi, pela mera observação, a crueldade das diferenças sociais, a brutalidade dos sistemas repressivos. Na maior parte das vezes, a aprendizagem era lenta e inconsciente, mas, momentos houve, em que a marca se fez como quem, pelo ferro em brasa, garante a posse do animal.

Hoje, a grande janela dos meninos para o mundo tem um nome novo! Chama-se televisão. Deixa-os ver o que outros programam. O sonho e a fantasia, a realidade, a alegria e a tristeza são fornecidos a conta-gotas como quem dá remédios ou venenos. Mas a vidraça é tão grossa que o real ganha tons de brincadeira, por isso a violência pode ser disponibilizada sob todas as formas e em todos os momentos. Comigo foi doutro modo. Eu conto.

Comecei por me aperceber do trabalho, fosse mecânico, braçal, intelectual, comercial ou de qualquer outro tipo. Na minha televisão os actores eram reais. Se para eles fazia sol e calor, para mim também; o frio chegava ao mesmo tempo à rua e à minha janela, tal como a chuva e o vento. Estávamos todos de pé; eles, porque na rua, eu, porque no banquito que me dava tamanho para alcançar o parapeito.

A primeira experiência com a mão pesada da repressão foi vivida à minha janela. Caso curioso, sobre quem queria ganhar a vida fugindo aos impostos!

Realmente, mais ao fim da tarde que de manhã, lá vinham, quase todos os dias, do lado de Sapadores os polícias cívicos perseguir as vendedeiras as quais, não olhando a prejuízos, fugiam rua abaixo, deixando cair o que das cestas ou canastras estava mal seguro; por vezes, até um chinelo ficava para trás. De todos os «cívicos» um, à paisana, aterrorizava-as mais do que qualquer outro: o «nove dedos»! Era expressão que soava com a rapidez do relâmpago: - Vem aí o «nove dedos». Antes perder parte da mercadoria do que ir para a esquadra do «nove dedos»! Era uma repressão que me incomodava. Não compreendia como tão poucos podiam assustar tantos!

O mais brutal encontro com a repressão, com a violência gratuita, injustificada foi no fim de tarde de 8 de Maio de 1945 (a data soube-a mais tarde, como é evidente!).

Espontaneamente, vinda não sei de onde, começaram a descer a minha rua duas ou três dezenas de pessoas, talvez mais. À frente, um homem com uma bandeira de Portugal presa num pau. Pareceu-me grande a bandeira, muito grande. Lá em cima, na curva, junto às escadinhas, estava parada uma camioneta da PSP. Daquelas que não tinham portas, de bancos corridos como certos carros «eléctricos». De lá saltaram os «cívicos» de cassetete em punho e vá de dispersar, à pancada, todos quantos davam largas à satisfação de a Alemanha se ter rendido. Quem mais apanhou foi o homem da bandeira. Eu já sabia (fora o meu Avô quem me ensinara) que aquele pano verde e vermelho com umas coisas no meio era a bandeira de Portugal (os homens paravam, punham-se direitos, tiravam o chapéu quando a tropa passava com a bandeira à frente ou, quando ao pôr-do-sol, à porta dos quartéis, ela descia do mastro grande ao som de cornetas). A bandeira era Portugal; a República Portuguesa.

Nessa tarde de Maio, na insegurança dos meus quatro anos ainda há pouco completados, rebentava-me no peito a fúria da injustiça a que assistia da janela da casa que me viu nascer. Segurava-me a minha Mãe, não fosse baldar do banquito de onde via o mundo.

Como poderia a polícia bater em quem levantava tão alto a bandeira tão grande de Portugal? Ele, esse herói desconhecido da minha meninice, quanto mais era sovado mais erguia a mão onde segurava o símbolo que muitos respeitavam. Caiu no empedrado do passeio, junto à porta da oficina de metalomecânica, mesmo em frente da minha janela, quando, cercado de «cívicos», lhe batiam na cabeça, no tronco e lhe davam pontapés. Inconsciente, arrastaram-no para a camioneta sinistramente parada lá em cima na curva, junto às escadinhas. A bandeira, essa ficou no chão, espezinhada e rasgada.

Ainda hoje sinto a revolta daquele momento, a onda que me sufoca, a raiva que me dói. Afinal, a bandeira, a grande bandeira que um herói desconhecido levantava bem alto em sinal de alegria por se terem rendido os tiranos, continua rasgada, mais espezinhada, quase esfarrapada, caída no passeio em frente da minha janela, onde já não há oficina de metalomecânica, mas uma loja de ocasião num prédio «moderno», dos anos 50 do século passado. Uma só vez, depois do fim de tarde desse longínquo Maio, ela se ergueu, restaurada, remoçada, drapejando alegremente ao sol de uma nova aurora. Uma só vez! Faltava pouco para fazer vinte e nove anos que ali estava, aos olhos de todos sem que ninguém a visse... Foi na madrugada de 25 de Abril de 1974. Eu já era oficial. Fardava como os outros da minha infância, mas sonhava um Portugal onde jamais alguém batesse no Homem da bandeira! Um Portugal justo, alegre, feliz, sem miséria e com trabalho para todos.

Quem foi que de novo derrubou, no empedrado do passeio, em frente da minha janela, a bandeira, a grande bandeira de Portugal? Quem matou, nos matou a esperança daquela madrugada? De que curva das ruas da vida e do mundo saíram estes cívicos que destroçaram os nossos sonhos? Que nos estão arrastando exangues, quase inconscientes, para um qualquer calabouço?

Desliguem as televisões, silenciem os rádios, tirem as letras aos jornais, mas deixem-nos sonhar com a Liberdade. Deixem as crianças do meu país crescer na esperança desintoxicada de terem uma janela para verem o mundo ser feliz. Deixem...

Portela de Sacavém, 14 de Outubro de 2005

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por Luís Alves de Fraga às 16:21


5 comentários

De Rui Saraiva Alves a 18.05.2010 às 22:56

Mundo é modificação constante e intrínseca, pois de contrário seria como se Deus pudesse consentir todas as utopias possíveis, e não é o caso, Deus consente outras coisas bem diferentes...
Os valores exteriores (que em caso algum nos devem tocar a Alma) dependem só da nossa opinião interior, ou seja, como muitas vezes o digo: da posição do observador.
As ruas, as bandeiras, os meninos, as manifestações e os indivíduos fazem já parte de um outro tempo e as" janelas" mostram-nos mais, muito mais e com a vantagem de podermos ver só aquilo que queremos ver...até podemos ter a janela aberta e não conseguirmos ver aquilo que pretendemos ...porque já nem ver sabemos !
A imagem nunca valida a verdade.
E a verdade foge-nos quando se lhe toca.
A esperança das criancinhas deste país foi já intoxicada pelos "incapazes" do passado.
E quanto aos nossos sonhos, Gedeão ofereceu-nos a última representação poética da nossa incapacidade:
- É que nem sequer sonhar sabemos, como é que poderemos ensinar os nossos filhos a sonhar?
Cordiais saudações.
Rui Saraiva Alves

De A. João Soares a 21.05.2010 às 07:45

Por favor, visite, comente e divulgue por e-mail para todos os seus contactos e pessoas que amem o património Nacional.

Museu da Marinha deve ser defendido
<http://domirante.blogspot.com/2010/05/museu-da-marinha-deve-ser-defendido.html>
Depois das primeiras notícias e do post aqui colocado, Museu da Marinha, com quase 150 anos, será extinto, surge agora o artigo

Possível integração do Museu da Marinha no Museu da Viagem gera contestação
Público. 20.05.2010 - 19:15 Por Maria José Santana

Está a gerar alguma contestação a ideia de que o futuro Museu da Viagem poderá vir a absorver o centenário Museu da Marinha. Nos últimos dias, têm circulado na Internet vários comentários de indignação face à possibilidade de aquele museu vir a desaparecer enquanto instituição autónoma.

A ministra da Cultura garante que o futuro Museu da Viagem só ocupará o espaço que é agora da arqueologia. Ministra assegura que um projecto não invalida o outro

O Ministério da Cultura desmente a existência de qualquer proposta, assegurando que o Museu da Viagem, é, nesta altura, apenas um conceito. Mas o PÚBLICO sabe que essa hipótese está na calha e até já foi avançada num projecto de protocolo.

Nesse mesmo esboço de documento de entendimento, surge a indicação de que as instalações do futuro Museu da Viagem corresponderão às instalações do actual Museu Nacional da Arqueologia – que, como já era do conhecimento público, passará para a Cordoaria Nacional -, abrangendo também o espaço actualmente ocupado pelo Museu de Marinha. (…..)

Este artigo mostra que, felizmente, nem todos os portugueses estão adormecidos em permanente estado vegetativo e alguns estão atentos aos verdadeiros valores nacionais que devem se defendidos por todo e qualquer meio.

A ideia inicialmente divulgada mostra a triste sina dos portugueses. A incompetência dos governantes e a vontade de fazerem algo de diferente, só para mudar e para alimentarem a própria vaidade de colocar uma placa com o seu nome, leva-os a estragar o que está a funcionar bem e a nivelar por baixo e pôr tudo na lama.Aconteceu com o ensino técnico de que agora se sente a falta, aconteceu na saúde, na Justiça com a descriminação e despenalização, nas Forças Armadas, nas Forças de Segurança, etc. etc.

Não tenham inveja do Museu das Marinha. Deixem-no continuar na senda da excelência e tomem-no como modelo e exemplo; imitem-no. Procurem imitar o que há de melhor e, em vez de destruírem apoiem o que merece apoio e aperfeiçoem o que está pior, para se aproximar daquilo que possui boa qualidade.
Cumprimentos
A João Soares
Do Miradouro (http://www.domirante.blogspot.com/)

De Rui Saraiva Alves a 21.05.2010 às 12:53

Penso não ser propriamente o objecto desta pagina, todavia, por razões de ordem pessoal, sinto certa necessidade em responder-lhe.
O nosso Museu da Marinha (que conheço bem) encontra-se bastante desprezado e dá-nos uma falsa imagem daquilo que É a nossa Marinha e muito pouco daquilo que já foi.
Não bastará só assinalar que os manequins que vestem fardas antigas encontram-se corroídos, pouco apresentáveis ao visitante e o Museu em si é pobre na visita que nos oferece.
Os descritivos são curtos, muito pouco históricos e limitam-se apenas a breves apresentações.
No século XV os Portugueses tinham uma arquitetura naval de elevado grau científico que nem sequer nos é apresentada neste nosso Museu de Lisboa, quando, por exemplo, na Normandia (França) um pequeno Museu de Marinha nos oferece a homenagem desta referência de forte interesse para o visitante, e que foi de elevada importância para o mundo desse tempo, A Marinha Portuguêsa !.
Após a visita, que é rápida, o visitante sai ignorante de muitas coisas, frustrado de não ter adquirido mais conhecimentos e pouco satisfeito.
Tal como ele se encontra, este Museu apenas oferece uma visita para “meninos pequeninos” e talvez não seja uma má idéia de confundi-lo com “a viagem” dado que esquecemos atribuir-lhe a merecida referencia que a Marinha Portuguesa bem merece e o legítimo prestígio de mais de 5 séculos.
A Marinha é uma Arma Científica, tem com ela o saber e o esforço, não são só barquinhos e fardêtas, a Marinha é muito mais, é a única Arma que emprega todos os corpos de profissão, todas as profissões que conhecemos fazem parte desta Arma.
Cordiais saudações.
Rui Saraiva Alves.

De José Cruz a 24.05.2010 às 22:24

Meu caro Fraga
Por trás do intelectual e professor, o incorrigível Poeta!
O abraço de sempre.
JCruz

De traumilla bimbi a 02.06.2010 às 13:04

Foi com muito gosto que li este texto, que - com mais gosto ainda - ouvi relatar pelo próprio autor, menino de outrora.
E diz que lhe «falta uma escrita poética»?

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