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Fio de Prumo



Terça-feira, 22.12.09

O juramento do meu Tio José

 

 
O meu Tio José, irmão mais novo do meu Pai, morreu em 1993, com a idade de 70 anos, na sua terra natalícia. Contactámos pouco, ao longo da vida, mas era daquelas pessoas de quem se gosta logo à primeira vista.
Nascido na mais ocidental das povoações europeias — na Fajã Grande, na ilha das Flores — aos vinte anos era um rapaz simples, com a quarta classe do ensino primário, habituado ao amanho da terra, a tratar das vacas, a ajudar o meu Avô nos moinhos da Ribeira das Casas. Amava desde criança a mesma moçoila — a Maria de Lurdes — com quem andara na escola e com ela iria casar.
Chegou a altura de ser incorporado nas fileiras do Exército de Portugal e eis que faz a sua primeira grande viagem por mar rumo à ilha Terceira onde foi instruído no manejo das armas para, depois jurar bandeira. E jurou bandeira, após a recruta, numa festa solene como era usual fazer-se nesse tempo. Estavam presentes todas as autoridades militares, civis e religiosas da Ilha. Jurou com a convicção simples dos homens das nossas aldeias daquela época. Jurou com a convicção de uma educação religiosa e com a força que as palavras tinham entre os homens de poucas letras. Jurou com o coração. Jurou dar a vida, se tal fosse necessário, pela Pátria. Jurou de braço direito esticado em direcção à bandeira de Portugal.
Tão bem cumpria e tão diligente se mostrou que, na primeira escola de cabos que houve, foi nomeado para a frequentar e acabou cabo quarteleiro da sua unidade. Cumprido o serviço militar, regressou à Fajã Grande disposto a juntar dinheiro para montar casa e contrair matrimónio com a “sua” Maria.
 
Casaram. Criou o seu próprio negócio de mercearias e artigos variados no lugar da Ponta da Fajã Grande. Nasceram dois filhos e face aos encargos era, então, necessário pensar num outro rumo para a vida, pois o negócio não rendia nem as terras davam para o sustento condigno da família.
Como a Tia Maria de Lurdes havia nascido nos Estados Unidos da América era, simultaneamente, cidadã portuguesa e americana. Isso abriu-lhes uma janela sobre um futuro mais risonho: emigrarem para os “States”. Assim como foi pensado, assim foi feito. A minha Tia foi para a Califórnia trabalhar e arranjar emprego para o marido, podendo, desse modo, mandar a “carta de chamada” para juntar todo o agregado familiar. Meses mais tarde estavam reunidos na sua primeira casa americana. O meu Tio a fazer o que sabia: cuidar de vacas e à noite a ir frequentar a escola para aprender o inglês suficiente não só para ganhar o pão de cada dia como, também, poder naturalizar-se cidadão americano, como obrigatório, por ser casado com uma americana.
Uma vez aprovado na escola havia que passar à formalização da cidadania. Com os papéis tratados e em ordem foi-lhe marcado o dia para fazer o juramento de bandeira numa cerimónia simples, mas carregada de significado, pois era levada a cabo diante de um juiz devidamente empossado para esse efeito.
O meu Tio José vestiu o seu melhor fato, colocou a gravata, aprumou-se de acordo com a ocasião e lá foi ao departamento respectivo provar que tinha condições para ser cidadão americano. Era importante, porque as oportunidades de futuro para os filhos perspectivavam-se bem diferentes das que a Fajã Grande poderia alguma vez oferecer. Na vida, muitas vezes, fazemos tudo em nome do bem-estar dos nossos filhos!
Prestadas as primeiras provas, demonstrado que falava, lia e escrevia com alguma fluência na língua inglesa, interrogado sobre a Constituição Política dos EUA, foi convidado a, frente à bandeira, estender o braço e dizer a fórmula do juramento e, nesse momento, o Tio José não conteve as lágrimas. Entre soluços profundos, disse as palavras que o obrigavam, agora, a honrar a pátria de adopção.
Admirado o juiz perguntou-lhe qual a motivo das suas lágrimas e da dificuldade de dizer a fórmula de juramento. Na sua simplicidade de homem nascido e crescido numa pequena freguesia de uma pequena ilha dos Açores, o Tio José disse:
— Chorei, pois Deus sabe como me senti, porque há anos jurei dar a vida pela minha Pátria, Portugal, e agora estou a fazer um novo juramento semelhante! Sinto-me um traidor!
Retorquiu o juiz, com a sabedoria de muita experiência, de muita diplomacia aprendida e com o sentimento da verdade: — Fique sabendo que de muitos homens como o senhor precisam os EUA, porque esses sabem o valor de um juramento!
 
Neste Natal, em memória do meu Tio José, apeteceu-me contar, no «Fio de Prumo», esta estória verdadeira. A estória dos Homens que sabem o valor de um juramento!

 

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por Luís Alves de Fraga às 16:29


8 comentários

De António Trancoso a 23.12.2009 às 01:47

Meu Caro e Bom Amigo
Belíssima história do Honrado Juramento do teu Tio.
Na foto,o teu...e meu.
Um grande abraço.

De NN a 23.12.2009 às 16:42

Honra ao seu tio.
E Honra a si por ter partilhado a historia,sabendo que sente tudo o que escreve.

Uma geração de homens assim está se a formar no "Templo Da Luz" para bem da nossa Pátria e para mal dos pecados dos políticos.

De Fernando Vouga a 24.12.2009 às 12:47

Caríssimo Alves de Fraga

Este seu texto soube-me a prenda de Natal.

Hoje, quem mais jura mais mente. É só assistir aos juramentos de tomada de posse dos governos...

Boas festas para si e para os seus

De Luis Fraga Jr. a 24.12.2009 às 14:23

Ora aí está uma história do Tio José que eu não conhecia.
Achei-a como sempre muito bem contada e fez-me sentir mais a responsabilidade de honrar o nosso nome e todos aqueles que usaram antes de mim, porque são os anónimos da História que na maioria das vezes fazem a Pátria grande porque a sentem nos seus corações, os estão longe Dela são os que mais a sentem.
Pai um Beijo Grande e uma boa consoada até amanhã
Luis Fraga Jr.

De jaime basilio a 25.12.2009 às 14:16

Uma bela história!
Eu um dia comprei uma casa e o primeiro contrato foi de palavra! e'interessante olhar para traz e sentir como se podesse ver o que eram antigamente os sentimentos da pessoas,tal como se fazia luz num outro continente a simples selo de lacre.Eram outros tempos defacto e o seu tio josé era pessoa doutros valores que infelizmente pouco se veem.Voce e'um homem feliz por ser herdeiro de tao importante mensagem.

De Bernardette Ribeiro a 28.12.2009 às 12:12

Obrigada pela merecida homenagem que prestaste ao Homem Bom que foi o nosso Tio José.
Obrigada por teres feito os meus olhos ficarem Mar
Obrigada pelo Oceano de saudades que despertaste em mim
No fim mas não por ultimo o Obrigada aos nossos queridos Pais pelo o irmão que me deram
Um grande beijo
Bernardette ..

De J Cruz a 28.12.2009 às 20:52

História que nos apetece ouvir nesta época natalícia e que tu sabes escrever.
Vrícica.
De Família.
Ao teu estilo.
Que mais dizer? A tu família já disse tudo.
O abraço de sempre..

De Célia Soghmahian a 08.04.2010 às 23:19

Boa noite,

Só hoje, por um acaso, encontrei o seu blog. Os meus parabéns, pela forma límpida e honesta como escreve. Adorei esta história sobre o juramento do seu tio, e apesar de ser nova, fez-me lembrar um "juramento" que em tempos fiz a mim mesma: não mudar de Pátria, de nacionalidade e de religião. Não lhe sei explicar...são aspectos que me são muito caros... e agora imagine. Casei com um sírio ortodoxo, pelo civil na Grécia e em Portugal pela Igreija Católica, fizemos um casamento misto, para não violentarmos as convicções de cada um...ele já tem nacionalidade portuguesa, não mudei de pátria, temos um filha linda e sobretudo...somos muito felizes.
Ao ler a história do seu tio, fiquei com os olhos em lágrimas e apeteceu-me partilhar a minha história, porque sei como o seu tio se deve ter sentido...

Célia Soghmahian

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