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Fio de Prumo



Sexta-feira, 03.07.09

Lições não aprendidas

 

Fotografia de David Lynch, Industrial Image, Black & White photograph

 

 
Os políticos portugueses sabem pouca História de Portugal. Era importantíssimo que soubessem mais para evitar cometer erros que já foram feitos no passado.
 
É evidente que a História não se repete e, ainda por cima, de modo igual. Contudo, para quem está atento, identifica perfeitamente os traços de semelhança entre situações ocorridas há cem ou cento e cinquenta anos e a actualidade. Basta reconhecer a similitude e a solução adoptada no passado com os consequentes resultados para os tomar como ponto de partida, evitando ciladas que se podem repetir com as alterações próprias de uma época posterior.
Sobre isto dou o exemplo, para mim clássico, e que, julgo, já aqui, em tempos, aflorei.
 
Quando se estuda o século XIX português é costume referir a fase de grande progresso imposto com as obras públicas lançadas por Fontes Pereira de Melo. Foi o tempo das estradas e do caminho-de-ferro. Considera-se que Portugal se modernizou nessa altura. E não há dúvida que deu um salto na modernidade. Mas há que estudar o fenómeno em si mesmo. Vejamos.
 
Fontes Pereira de Melo acreditou que, contraindo empréstimos no estrangeiro para a abertura de estradas e dando a companhias de capitais mistos o lançamento das linhas férreas e a respectiva exploração, atrairia para Portugal os dinheiros necessários para provocar a industrialização, dado que as infra-estruturas básicas já existiam. Por outras palavras, as estradas e os comboios seriam o motor que levaria à fixação das indústrias no interior, permitindo, depois, os fluxos de matérias-primas e de mercadorias entre as zonas de fabrico e as de consumo ou de exportação.
Claro que, enquanto foi havendo trabalho na abertura das estradas e no lançamento dos carris, as populações locais, habituadas a uma economia de subsistência, deram um tremendo salto, dispondo-se ao consumo, pois tinham semanalmente dinheiro “fresco” nas mãos. Este facto animou uma franca industrialização do país, dando, durante alguns anos, a sensação de que tudo estava a mudar para melhor. No entanto, tudo estagnou quando as obras públicas abrandaram. A debilidade económica da classe média e o endividamento do país ao estrangeiro nunca permitiram que o parque industrial fosse grande e suficientemente sólido para enfrentar a concorrência das potências industriais da época.
Visto assim, em resumo e sinteticamente, este tempo de suposto desenvolvimento percebemos que, afinal, Fontes Pereira de Melo havia olhado a solução da industrialização e modernização de Portugal, partindo do fim para o princípio. Realmente, para ser sólido o desenvolvimento teria de ter começado por instalar indústrias e, só depois, em consequência do parque conseguido e como resultado das necessidades, rasgar-se-iam as vias de comunicação precisas. Nasceu mal a modernização do país, no século XIX, porque as vias de comunicação teriam de ter sido um efeito ao invés de uma causa.
 
Quando Portugal foi admitido na Comunidade Económica o Governo Cavaco Silva, ao receber ajudas financeiras, caiu exactamente no mesmo erro de Fontes Pereira de Melo: mandou que se abrissem auto-estradas onde antes existiam estradas, esperando que, assim, o interior se modernizasse e desse para fixar indústrias que faziam falta.
Ficaram as auto-estradas aparentemente sem trânsito, as populações fugiram para as grandes cidades do litoral onde se empregaram no sector dos serviços e o interior quedou quase deserto, sem agricultura, sem fábricas e com um comércio rudimentar. Depois do ilusório surto de desenvolvimento provocado pelas obras públicas, Portugal encolheu-se e o Estado passou a colmatar o deficit orçamental — fruto da existência de uma pesadíssima máquina de Administração Central que se engrossa face à necessidade de satisfazer os clientelismos partidários (algo herdado do século XIX) — com a venda ao desbarato do património nacionalizado em 1975, tal como a Monarquia já havia feito com a venda dos bens de raiz dos conventos e mosteiros nacionalizados em 1834.
 
Falta aos Portugueses e a Portugal um plano estratégico de desenvolvimento económico, mas, como qualquer estrategista sabe, as estratégias definem-se em função de dois grandes eixos: o estudo da situação presente e o estudo da História. Essas análises passam, depois, pelo real e rigoroso levantamento das fragilidades e dos pontos fortes próprios e alheios com o intuito de descobrir o caminho ideal onde o risco é menor e os resultados positivos têm menos possibilidade de serem anulados pela vontade dos oponentes. As estratégias económicas em Portugal falham e não têm dado bons resultados, porque quem as imagina e quem as estuda desconhece as lições da História. O passado foi sempre para os grandes generais — não esqueçamos que a “arte” da guerra desenvolveu e firmou o estudo da Estratégia — a sua primeira fonte de inspiração; se os nossos economistas estudassem com muito afinco e sentido crítico a História Económica recente de Portugal, ao contrário de desejarem copiar, sem reticências, receitas importadas do estrangeiro, talvez acertassem com os caminhos a seguir no futuro.
Já vamos tarde, todavia, a conjuntura de crise que no momento se vive é ainda propícia a escolhas e à definição de novos caminhos, mas tem de se ter em conta que uma estratégia económica de nível nacional exige continuidade no tempo e não pode estar sujeita às mudanças dos partidos políticos nas cadeiras da governação. Uma estratégia desse tipo terá de ser nacional e para tanto é preciso que se identifique com os superiores interesses da Nação. Ora, identificá-los e defini-los é outro ponto crucial da concepção da estratégia. Tem de se saber, sem margem para especulações, o que é o interesse da Nação.
 
O caminho é tortuoso, porque implica opções que passam pelas divergências doutrinais dos partidos que têm vocação governamental, contudo, há uma linha na qual todos podem estar de acordo: o interesse económico da Nação passa pelo bem-estar da classe média. Defina-se o que é e quem é classe média em Portugal; defina-se o que é o bem-estar da classe média. De posse desses grandes vectores estruturantes de uma estratégia enuncie-se o objectivo a atingir; depois estabeleçam-se os objectivos intermédios e estudem-se as políticas a desenvolver. Assim, talvez, se consigam remediar os erros do passado.
 
Teremos uma classe política capaz de estudar, traçar e executar uma estratégia que corrija as lições não aprendidas com a História? Tenho sérias dúvidas!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 18:54


19 comentários

De Fernando Vouga a 04.07.2009 às 11:24

Caro Alves de Fraga

Grande parte do problema é termos um (des)Governo encabeçado pela pior forma de ignorância, que é aquela em que se julga que se sabe tudo
Se de "engenheiro" a criatura domina mal a matéria, do nosso passado parece não saber nada. E lá diz o ditado: quem ignora a História está fatalmente condenado a repetir os mesmos erros.

De Zéfoz a 07.07.2009 às 17:28

Caro Professor,
sem pretensões de querer avaliar o seu trabalho que ,aliás, acho muito bom, inspirei-me nele e, com a devida vénia, publiquei um post sobre o mesmo tema no meu blogue, Limonete.bloguespot.com, onde fiz um link chamando a atenção para o Fio de Prumo.
Cumprimentos

De Pica-Miolos II a 07.07.2009 às 22:41

Senhor Professor Doutor

Vossa Excelência diz ter sérias dúvidas ...e diz muito bem !
Definir uma estratégia à luz da História !?!
Isso é que era bom !
Mas, para tal, era preciso gente culta e séria, o que, obvia e escandalosamente,, não tem sido o caso dos sucessivos (des)governos !
A Direita, também com muitas responsabilidades, ainda não se libertou da traumática herança do Estado Novo, e lá vai dando umas no cravo e outras na ferradura;
A Esquerda clássica, monolítica, desfasada (no tempo e no modo) mantem o discurso dirigido à Classe Operária da Revolução Industrial, condenada ao marcar passo que a Democracia garante;
A nova Esquerda, alcunhada de esquerdista, expurgada (que terá de ser) de alguns tiques revolucionário-radicais woodstokianos, começa a fazer engulhos aos "bem instalados";
Bem instalados, no Centrão, cuja "estratégia" tem por único e principal parâmetro a gestão parcimoniosa do Orçamento, assente no "acordo de cavalheiros"( há quem diga que é de gangsters):
Ora coço-te eu, ora coças-me tu !
Com isto, anda o Zé Pagode à rasca, curialmente num país cada vez mais...rasca.
Queira, Vossa Excelência, aceitar os meus, ainda possíveis, cumprimentos democráticos.

De mugabe a 08.07.2009 às 03:25

Este Pica-Miolos II é um tipo muita inteligente !!

De Pica-Miolos II a 09.07.2009 às 00:50

Oh ! Homem ! Largue-me da mão !
Retire essas palas dos olhos que destoam do penedo.
Ou será que está desesperado pelo facto de apoiar a sectária e dogmática quarta formação partidária ?!
Bonzinho, bonzinho, era mandar fusilar-me, ou, no mínimo, passar-me guia de marcha para o Gulag, não era?!
Porque não se vai catar para outra freguesia?!

De Anónimo a 10.07.2009 às 00:44

ahahahahah..o anti-comunista primário Sem-Miolos II revela-se a cada passo. A derrota socretina está a fazer-lhe mossa.
Quanto ao castigo, entre o fuzilamento e mandá-lo para um Gulag, podemos ficar pelo segundo.

De Pedro Jorge a 11.07.2009 às 15:15

Meu caro você utiliza as suas liberdades, só para ser ofensivo e para impor as suas doutrinas. Contudo você aparenta ser um cobarde, que se esconde atrás de doutrinas que em boa verdade não compreende, não as estuda e tão pouco as domina no seu conteúdo.
Voce apenas impõe as suas ideias e as suas visões, não respeita ninguém, esconde-se atrás de blogs para mostrar a pessoa que e.
Meu caro ao expor estes comentários infantis e insistir em andar as birras com as pessoas, você tira o rigor e a honestidade intelectual que o professor Doutor Fraga coloca em tudo o que faz.

De mugabe a 11.07.2009 às 17:30

Ó Pedrinho, você é amigo do Pica ou apareceu aqui simplesmente de pára-quedas ? é que você é que fala de borla, porque senão saberia que sempre foi o seu amigo Desmiolado que me invetivou em todos os comentários feitos aqui neste excelente blog,...eu agora limito-me a responder na mesma moeda,...mas agora aqui del rei que o menino já se sente incomodado. Respeite para ser respeitado,..foi o que sempre me ensinaram,..mas o desmiolado não tem jeito,...além disso põe-se a jeito para gozarmos com ele. Saiba que nunca vim aqui defender quaisquer doutrinas, apenas me limito a definir-me politicamente, o que outros pelos vistos não têm coragem de fazer. E para terminar...você é que é cobarde porque ao contrário do que eu faço você aje sob o anonimato,....coloque lá o seu blog vá lá....seja homem.

De Pica-Miolos II a 11.07.2009 às 22:03

Senhor Pedro Jorge

O Senhor acaba de ser inscrito na lista dos inimigos, "primários", "básicos", "reaccionários", do "único democrata" que frequenta este espaço.
Arrisca-se, por ora, a fazer-me companhia no exílio siberiano.
Para a próxima vez, a pena decretada, já sabe qual é !
Já Einstein dizia que o Universo, muito provavelmente, teria limites; a estupidez, não !
No caso vertente ela é de tal ordem que sou levado a crer que estamos em presença de um provocador, cujo objectivo (ao invés do que aparenta) é denegrir a imagem da formação política a que se diz "colado".
A técnica - a do judo - é conhecida.
O melhor será não lhe dar troco.
" Deixá-lo falá-lo que ele calará se há".

De mugabe a 12.07.2009 às 15:54

Numa coisa concordo com o senhor Pica,...ele já disse aqui tanta atoarda a meu respeito (até já julgou que eu era uma mulher)  que não vale a pena dar-lhe qualquer tipo de credibilidade,..é uma pura perda de tempo. Só me resta portanto, ignorá-lo ou gozá-lo..

As suas investidas contra mim (vá lá saber-se porquê) são tão repetitivas que sinto-me até desconfiado.....!será que o senhor Pica na verdade se chamará M. Pinho ???

De Vilhão Burro a 13.07.2009 às 13:25

Está enganado, Pica-Miolos!
A aventesma sofre de tal dose de cretinismo que não se calará nunca.
Admiro a tolerância democrática do Senhor Coronel Fraga ao permitir a entrada, nos comentários, de um anormal que acusa tudo e todos daquilo que na verdade,exponencialmente, é.
Este blog, pela elevação dos seus textos, não merece a presença de uma besta quadrada cuja identidade, unicamente revelada, é a de um troglodita corrupto e miserável assassino.
Quem o contrarie fica de imediato sujeito à sua boçalidade soez.
Salazar ao seu lado não passa de um menino de coro.
Porém, algo de benéfico resulta das suas intervenções:
Fica-se a saber o que poderia esperar o povo português se, algum dia, esta gente alcançasse o poder.
Talvez seja por essa razão que o Autor do blog lhe dê guarida...

De mugabe a 13.07.2009 às 23:19

Ena tantos,..grandes valentes !! pois os meus queridos deveriam saber que quem desvirtua o blog do senhor coronel são vocês com a patente falta de nível demonstrada. Lamentável, mas não me admiro, vêm defender o homem (pica) que num site de relacionamentos dá conselhos a donzelas infelizes. A ridicularia é tanta, que só me fez rir e muito, imaginem só !!!!!! Este ponto G qualquer coisa, nem merece resposta pois o nível e falta de educação está demonstrado. Não respondo a marginais e ponto final. Agora nós Velhaquinho Burro, já te convidei para irmos dialogar para outro espaço, mas ficaste mudo e quedo. Tens aí o meu blog...divulga o teu e conversamos ok ? realmente a tua ordinarice não é digna de conspurcar o blog do senhor coronel.

De Nitro G. a 13.07.2009 às 21:49

Boa, olhe gostei desta.
O Mugabe não ousa dizer que se chama ...Santos e faz-se passar por Mugabe...e depois os outros é que são cobardes.
Nitro G.

De Pedro a 15.07.2009 às 05:43

Meu caro lamento e fico desolado se o ofendi, nao era de facto minha intencao, como tambem nao era mnha intencao ofender ninguem; eu nao me estava a dirigir a si, muito pelo contrario esta a reagir a outra pessoa.
Mais uma vez lamento e desejo-lhe as maiores saudacoes, pois nada tenho contra si

De Nitro G a 13.07.2009 às 21:41

Não tens mesmo vergonha nenhuma de ser tão parvalhão ?
O que é que vens fazer a este blog?
Dar graxa ou recrutar adeptos?
Temos mesmo que OS aturar, caro sr. Pica Miolos II, já não lhes bastou o passado.
Nitro G.

De Pica-Miolos II a 10.07.2009 às 09:40

Aditamento, para um melhor ajustamento à realidade:

Onde se lê : (...) a gestão parcimoniosa do Orçamento(...)
deverá ler~se: (...) a (di) gestão (...)

De BMonteiro a 07.07.2009 às 23:03

Uma pequena achega, com números:
«Quando se estuda o século XIX português», acaba por ver-se como acabou: no colapso de 1891, com o fim do crescimento económico da década anterior.
Com a banca rota parcial de 1892, que levou a um esforço para o equilíbrio das contas públicas e a para travagem do crescimento da dívida pública.
Associado a uma crise internacional envolvendo o banqueiro do Estado português em Londres, o banco Baring Brothers, o fracasso da tentativa de um empréstimo de 10 milhões de libras nos mercados de Londres e Paris.
Apenas no início do século XX (1902), se tornou possível obter novo empréstimo externo, que acabou de ser pago em 2001!
E um longo período de estagnação económica que se mantém pelas décadas seguintes.Os níveis de actividade económica e de vida de 1888, viriam a ser ultrapassados em meados dos anos 20/XX.
E agora? Mais do mesmo, sina nossa.

De Duran Clemente a 22.09.2009 às 20:31

Meu Caro Luis,

Acho bem e concordo que será muito conveniente que os politicos saibam de e da HIistória.
Acrescentaria que tal exigência(ainda que idealista)se deve aplicar ao cidadão em geral.
Não estou em desacordo com o teu texto.Permito-me no entanto achar que o assunto talvez não seja tão pacifico...e que poderão sobre o mesmo tema haver irespeitáveis opiniões diferentes(como aliás já vieram à liça).Não irei aprofundar as diferenças,Creio que são conhecidas.Apenas acho oportuno que se faça uma reflexão ...pois não me parece mesmo que a questão seja: sim ou não.
Haverá ,provávelmente,muitos elementos a introduzir nesta problemática.

Estratégia e Planeamento é coisa que no nosso Portugal...se fica (e mal) pelo que é "rabiscado" ...
Não são só os politicos que se alheiam...deixando a Estratégia ao sabor dos "interesses" e à escala das nossas várias fragilidades....ou pequenez.Os cidadãos que deveriam "do saber" saber mais...são atreitos (excessivamente) a achar que lhes dá jeito traçar "um planeamento" sob o olhar das suas peculiares ambições naturalmente alérgicas ao conjunto dos interesses da sociedade em geral..
A culpa não é do Povo;atenção.Não é isso que quero deixar para reflexão.Quem comanda deve orientar superiormente mas a disciplina que se exige, deve ser consentida, por cidadãos " com qualidade critica" ...e faz cá muita falta uma massa critica mais atenta e mais sábia.

Só mais um achega de "gestor".Um bom gestor é o que sabe gerir o crédito...o endividamento não pode servir - só por si - para justificar...fazer ou não fazer.
Que fazer? Como fazer?Que prioridades?

Como vês não há desacordo com o que dizes...mas haverá muita lenha a pôr na fogueira que nos aqueça nuns próximos Invernos.....se os atentados ao ambiente ...não acabarem com eles!!!!!!!!
Abraço.

De Duran Clemente a 24.09.2009 às 01:20

Errata: No meu comentário anterior onde está escrito "irespeitáveis"(que não existe) deve ler-se " respeitáveis".Lamento que tenha aparecido um "i" que não quis lá pôr.Obrigado.

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