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Fio de Prumo



Quinta-feira, 25.06.09

Estórias de um país pobre

 

 
Conta-se que o Presidente eleito do Brasil Juscelino Kubischeck de Oliveira, quando visitou Portugal, ao ser recebido por António de Oliveira Salazar terá ouvido deste uma breve lição sobre a importância de o Estado possuir uma moeda forte, bem fundamentada nas reservas de ouro do Banco Central.
Juscelino, com o seu jeito bem brasileiro, ao que parece, sorriu e respondeu, com o ar respeitoso que se impunha perante o velho ditador português:
— Pois é Presidente… Eu sempre ouvi dizer que a um Estado com moeda forte corresponde um Estado com economia pobre, mas, pelo contrário, a um Estado com moeda fraca corresponde um Estado com economia forte!
Juscelino, em cinco anos de presidência, construiu Brasília, rasgou estradas onde as não havia, industrializou o Brasil, apostou forte na energia e de tal modo conseguiu o milagre que o seu Governo passou à História como o tempo dos Anos Dourados. Qual foi o segredo? Simples, atraiu capitais estrangeiros para o Brasil de modo a, associados aos capitais nacionais, impulsionar o crescimento industrial e arrancar o país da situação agrícola em que vivia. Houve, depois, inflação, mas o certo é que, descontando o seu efeito, nunca no Brasil o salário mínimo dos trabalhadores foi tão alto como nesses cinco anos e hoje aquele Estado da América do Sul é uma potência industrial nascente. Todo este desenvolvimento se alcançou no decurso dos últimos em 57 anos!
A verdade é que, ao fim de um Governo ditatorial de 48 anos, com orçamentos equilibrados e boas reservas de ouro no Banco de Portugal, o nosso país, em 1974, estava muito longe de ser economicamente um Estado forte; não chegava a ser um país industrializado e já não era um país eminentemente agrícola como Salazar havia querido que fosse!
 
Passaram-se 35 anos sobre o fim da ditadura e Manuela Ferreira Leite veio ontem dizer aos Portugueses que o país está endividado e mais vai ficar se se arrancarem com obras públicas megalómanas e pouco produtivas. Ela tem razão. Não podemos deixar de lhe dar razão.
E o que contrapõe Manuela Ferreira Leite às obras públicas megalómanas? A ajuda às pequenas e médias empresas, porque, em Portugal, são essas que produzem riqueza. E é verdade o que ela diz! Mas também é verdade que, na década de Cavaco Silva, Portugal foi literalmente inundado de dinheiro e hoje, pouco mais de vinte anos depois, o que resta? Que riqueza ficou? Auto-estradas, o Centro Cultural de Belém uma ou duas ferrovias melhoradas e muitas fortunas individuais. Nada mais!
Se Portugal não progrediu significativamente no tempo da ditadura — ao nível da progressão da Europa — e se não progrediu quando a Comunidade Europeia despejou dinheiro como Deus despeja chuva em dias diluviais, vai progredir agora, orientando o estímulo para as pequenas e médias empresas? Não me parece. Não me parece, porque temperamentalmente os Portugueses não estão interessados na riqueza do país. Nunca estiveram! Já no tempo da pimenta do Oriente o rei permitia que quem o tinha servido lá nos confins do mundo trouxesse as especiarias que pudesse, não para enriquecer os cofres do reino, mas para enriquecer as arcas pessoais. O Português é, por natureza e incentivo, individualista; pensa, antes do mais, nele próprio e só lá muito no fim pensa no Estado, no País, na Nação.
 
A política económica e social que se tem de adoptar deve passar pelo conhecimento deste Povo. A pequena e média empresa quando começa a dar lucro foge ao fisco para possibilitar o aumento do património individual dos donos. A economia paralela — a economia dos biscateiros e das empregadas domésticas — é uma outra forma de individualismo dos Portugueses.
Quem governa tem de saber governar um país de individualistas para os educar no sentido do colectivo. E aqui está a razão do mais profundo horror ao comunismo, pois, segundo o resultado de uma propaganda intoxicante, ele é contra a propriedade individual, contra a riqueza das pessoas. Então todos nós gritamos: — Vade retro comunismo que os meus anéis não levas tu!
E não se pense com isto que estou a fazer a apologia do PCP! Estou, simplesmente, a tentar explicar a fobia anti-comunista que foi desenvolvida no tempo do Estado Novo e repetida pelos partidos do centro e direita depois do 25 de Abril de 1974.
 
Para governar um Povo como o português tem de se começar por rever o sistema fiscal, taxando as grandes fortunas pessoais e familiares antes de pensar no tecido produtivo; tem de se ir combater a corrupção através da detecção da fuga ao fisco por colocação de bens em nome de familiares; tem de se permitir o desconto nos impostos das obras feitas na habitação de cada um para se conseguir que os biscateiros passem a declarar as suas receitas; tem de se possibilitar o desconto no IRS do pagamento dos serviços domésticos para que as empregadas possam ser colectadas; tem de se cuidar com cautela da classe média — a verdadeira classe média — ao invés de a sobrecarregar com taxas e impostos; tem, depois disto, de se proteger as micro empresas familiares, taxando-as convenientemente para que não vão alimentar a economia paralela; depois, e só depois, tem de se proteger as pequenas e médias empresas, não separando os bens pessoais, dos pequenos e médios empresários, dos bens empresariais para evitar que, descapitalizando o negócio, enriqueçam os proprietários. Numa frase: a fiscalidade não pode ser pensada só para cobrar impostos, mas para corrigir defeitos e, especialmente, o do individualismo.
 
Um Governo para Portugal tem de conhecer os Portugueses e tem de estar precavido contra todos os artifícios da vasta imaginação individualista que nos caracteriza.
Será que Manuela Ferreira Leite e o seu PPD/PSD conhecem os Portugueses e, se os conhecem, querem corrigi-los?
Sinceramente, duvido…

 

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por Luís Alves de Fraga às 22:32


6 comentários

De mugabe a 26.06.2009 às 02:36

Senhor Coronel, brilhante dissertação sobre o individualismo português e as evidentes semelhanças entre o Estado Novo e os partidos de direita actuais PS/PSD/CDS/PP comungo absolutamente de toda a argumentação lúcida e pertinente.

Quanto à senhora Leite será certamente a futura 1ª pois convidada pelo grupo Bilderberg na sua última reunião de 14 a 19 de Maio na Grécia, recebeu decerto as instruções necessárias a um bom desempenho.

Cumps

De JCruz a 26.06.2009 às 09:42

Parágrafo 4.

Eia pois a essência das hostes lusas.
Mas os parcos e inexistentes bons exemplos vindos de "cima" jamais conseguirão apaziguar e evitar as crispações na sociedade.
Tomemos como exemplo o alto político que num país qualquer das "bárbaras" escandinávias partilha o transporte público para ir para seu trabalho e as caravanas automobilísticas usadas para levar os "senhores feudais" do nosso burgo para a AR.
O problema social português é bem mais complexo, fruto de atitudes "habitués" de quem comanda impune que se mantem nas suas frívolas atitudes de alto funcionário consumidor dos erários públicos.
Choveram, disse bem, milhares de contos para a modernização do país, milhares que derraparam em orçamentos fantasmas e alimentaram a ganância de meia dúzia de alguns em detrimento de milhões, não se julgue por isso que com promessas comezinhas fruto de campanhas eleitorais o Zé lá vai sendo enganado e mostre o seu desinteresse pela coisa política da pior forma, o desinteresse que entrega o ouro ao bandido (os de sempre).
Para mudar o país e a mentalidade subserviente do mesmo é preciso antes de mais exemplos vindos de líderes (onde andam eles), num país de pés descalços com laivos de "nouveau riche" os dados já estão lançados e o jogo viciado, quem ganha é sempre o mesmo, mudar? Sim, o esforço e o grito terá de vir debaixo, a história da formiga espezinhada pelo boi já todos a conhecemos, mas ainda ninguém se lembrou que milhões de formigas o podem devorar, essa é outra história. Porém e até lá, até que a consciência de classe continue adormecida e entorpecida no limbo social, os mesmos de sempre continuarão a vilipendiar e a glorificar-se com actos feitos cortes de laço em pseudo magnificismos, até que, a "revolta dos porcos" se dê. Sempre foi assim, até sempre assim há-de ser...

De Fernando Vouga a 28.06.2009 às 19:36

Caro Alves de Fraga

Passem as implicações partidárias, a montante do muito que há a fazer, surgem dois aspectos incontornáveis: a justiça e a educação. sem a primeira não há presente; sem a segunda não há futuro.

Um abraço

De António José Trancoso a 02.07.2009 às 00:08

Meu Caro Alves de Fraga

Os nossos antepassados Lusitanos (os tais que - no relatório do General Romano - não se governavam, mem se deixavam governar) devem dar saltos na tumba!
A sua malbaratada herança, de rude e orgulhosa Liberdade, transformou-se nessa "coisa" de contornos pouco edificantes que tão bem caracterizas nesta tua reflexão.
O reverso da Epopeia talvez consubstancie a génese de uma mentalidade novo-riqiuista, refinada, na actualidade, pelos seus aspectos menores.
O "chico-espertismo", virado para o imediatismo, representa a fuga aos mais elementares cânones de um Estado de Direito.
É a nova regra, que, a uns e outros, simultâneamente, permite (des)governarem-se.
Afinal...não será que se merecem?!
Um abraço.

De Henrique Miranda a 08.07.2009 às 17:24

Boa tarde,
Gostei de ler estes dois artigos ("Estórias de um país pobre" e "Lições não aprendidas!). Gostaria de lhe perguntar onde coloca a poupança e o seu incentivo como base para o Investimento?
Não concorda que o actual sistema financeiro (que até se serviu do "ataque!" aos Certificados de Afoorro impondo novas regras e descontos etc levando muitos pequenos aforradores a fugirem para a Banca Privada no engodo do rendimento no 1º trimestre...) só interessa à especulação e engenharias financeiras cujo resultado global se está a ver e a sentir?
E quem tem servido esse jogo do empurra para apoio à Banca Privada? Qual a origem e destino de muitos dos políticos neste país? Não há acasos, pois não?
Porque não se exige e impõe que cada um tenha de provar de onde lhe vem o dinheiro quando "antes nem cabra se tinha"? Seve a quem?
Um abraço
Henrique Miranda

De CãoPincha a 11.08.2009 às 12:56

Também nós duvidamos e, por isso, estamos a fazer os possíveis por alertar os votantes para que não caiam na esparrela de votar em alguém só porque o outro pode ganhar.
Temos de ter consciência daquilo que fazemos e não ir atrás dos fazedores de opinião.
Pena não o termos conhecido antes do 25 de Abril.
Parabés pelo belo post de que gostámos imenso.
CãoPincha (compincha.wordpress.com)
.

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