Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo



Segunda-feira, 08.06.09

O Partido Socialista perdeu

 

 
Ontem tivemos a confirmação da prática de uma má política feita pelo PS durante os últimos quatro anos. A derrota deitou por terra todas as sondagens de opinião. E qual o motivo por que se enganaram as empresas de sondagens e se enganou o estado-maior do PS? Aliás, eu diria que o engano foi quase geral em todos os partidos políticos, pois todos foram, de uma maneira ou de outra, apanhados de surpresa pelos resultados das eleições. E porquê?
Acima de tudo, porque os Portugueses votantes quiseram penalizar o PS. Penalizaram-no votando “fora”, isto é, escolhendo um outro partido para recolher o seu boletim de voto ou, o que foi mau, inutilizando o voto, entregando-o em branco ou impossível de ser contado… E foram muitos os que optaram por esta via! Mas foram muitos mais os que se abstiveram! A abstenção ultrapassou os 60% do eleitorado e só isso é suficiente para retirar legitimidade aos resultados obtidos por todos os partidos! Retira legitimidade, porque, afinal, foi uma minoria que votou. Quer dizer, em cada 100 Portugueses houve cerca de 40 que votaram e 60 que não votaram. Ora, pode perguntar-se: — Os resultados representam a vontade dos Portugueses? Claramente, não! Representa a vontade da minoria dos cidadãos.
 
A abstenção mostra à evidência duas coisas muito claras: os cidadãos estão de costas viradas para a Europa — ou, dito de outra maneira, a União Europeia é uma “construção” política feita ao arrepio da vontade dos europeus — e a maioria dos Portugueses está desligada da governação e da política.
Postas as coisas desta forma, poderá afirmar-se que não houve vitoriosos nestas eleições, porque a vitória está cingida a uma minoria de cidadãos. Mas aceitemos como legítimos os resultados eleitorais. Então, como já disse anteriormente, o que salta à vista é a derrota do PS e, de novo, repito a pergunta: — Por que motivo perdeu o PS, ganhou o PPD/PSD e subiram significativamente o Bloco de Esquerda, o PCP e o CDS/PP?
 
A resposta parece-me evidente: — Porque o PS enganou a classe média portuguesa.
 
Se tomarmos como classe média os cidadãos cujos rendimentos mensais se situam entre os mil e os cinco mil euros (os antigos duzentos e os mil contos) temos que os de rendimentos inferiores pertencem já ao grupo social dos pobres e os que os têm superiores fazem parte dos ricos. Claro que há gradações entre os pobres tal como as existem entre os ricos. Então, numa análise simplificada, poder-se-á dizer que a abstenção se situa entre os ricos e os pobres com as devidas excepções que se identificam ideologicamente com o PCP e com o CDS/PP e alguns oportunistas — pois sabem que o centro político é quem governa — que apoiam o PS ou o PPD/PSD. A grande maioria dos votantes do Bloco de Esquerda nem percebe que este agrupamento ideologicamente está muito para a esquerda do PCP (o discurso cordato e simpático dos seus líderes camufla bem a sua doutrina), que, se fosse factível alguma vez ser Poder, iria arrasar a economia e a propriedade, tal como a conhecemos, para implantar a colectivização, os comités de fábrica, de bairro, de escola, de repartição pública, de hospital, de quartel, de navio, etc.. Mas, voltando à análise simplificada, sou de opinião que a grande traição do PS à classe média — traição que se fez sentir na política de saúde, na política de ensino, na Justiça, nos meios militares e nas forças de segurança — favorecendo descaradamente os ricos e não favorecendo os pobres, ditou as movimentações do eleitorado votante, deslocando os boletins de voto do PS para o PPD/PSD e CDS/PP — e aqui situa-se a classe média mais conservadora —, do PS para o PCP — e nestes está a fatia da classe média que sabe que nunca o PCP poderá atingir as cadeiras da governação, mas pode, contudo, ser uma excelente força de contenção das políticas favoráveis aos muito ricos — e do PS para o Bloco de Esquerda — e aqui está a classe média mais ingénua, mais folclórica, menos oportunista e politicamente menos esclarecida.
 
O meu entendimento dos resultados eleitorais de domingo não assenta, por conseguinte, numa vitória, mas numa derrota da democracia — elevadíssima abstenção — e na vingança da classe média — transferência de votos do PS para todos os restantes. Vingança que José Sócrates Pinto de Sousa vai tentar minimizar nos poucos meses que lhe restam de governação através da prática de políticas que arrastem para a votação os ricos e os pobres. Mas essas políticas — porque logicamente teriam de ser antagónicas — vão tentar puxar para os próximos actos eleitorais as franjas dos ricos e pobres mais próximos da verdadeira classe média, ou seja os pouco ricos e os pouco pobres. São esses que, com uma classe média volúvel, poderão dar uma pequena vitória no futuro ao PS. Sócrates, na esperança de um resultado próximo da maioria absoluta, irá jogar com o espantalho da ingovernabilidade, mas os Portugueses já perceberam com duas experiências — a de Cavaco Silva, há mais de vinte anos, e esta do PS — que os Governos de maioria absoluta são pequenas tiranias insuportáveis e prejudiciais da classe média.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 14:02


15 comentários

De Zé da Burra o Alentejano a 08.06.2009 às 15:33

O nosso real sentimento democrático não é posto à prova quando ganha o partido ou grupo de nossa opção mas quando ganha o adversário. Por isso quando diz: "nos resultados eleitorais de domingo, não assenta numa vitória mas numa derrota da democracia".

Pois os leitores têm a ligitimidade de tranferir o seu voto para quem entenderem, é uma característica da democracia. Aquilo a que chama de vingança, poderia chamar também de revolta por terem votado antes num partido que depois não só não cumpriu as promessas como governou fazendo precisamente o contrário do que havia prometido. Direi mais: no meu conceito de democracia, um governo que promete uma orientação política ao seu eleitorado em campanha e depois governa em oposição ao prometido deveria ser imediatamente demitido e marcadas novas eleições, porque fica sem legitimidade para prosseguir a governação: enganou os eleitores que votaram numa determinada orientação política.

De Anonimo a 08.06.2009 às 18:31

O branqueamente do apito dourado teve influencia nao duvide.Não perdoaremos ao socrates e ao laurentino dias.Sem treguas!

De fc a 08.06.2009 às 21:28

Sr. Coronel:
Genial, é a palavra que me assaltou ao ler este seu artigo. Ainda à dois dias, comentei o seu anterior trabalho, para expressar uma preocupação sobre o B.E., e que me pareceu, não comungarmos.Enganei-me. Aqui está, exactamente o que penso sobre este actual espectro politico, que fingem ser o garante da nossa democracia.
A abstenção,essa sim, foi a inequívoca vencedora desta noite eleitoral. E mais uma vez, todos os vencidos(partidos) fingiram não perceber. Algo não vai bem, neste método de eleição. Os vencidos festejam o que não conseguiram, e vão ter o poder que os eleitores de uma forma categórica, disseram não pretenderem.
O 25 de Abril, sai mais uma vez enxovalhado..
Parabens pelo excelente artigo.

De mugabe a 09.06.2009 às 01:31


FC......"fraca cabeça" chamar aqueles betinhos da linha do BE$ extrema esquerda, sem reparar antes, que estão feitos e são apêndices do PS é andar no mínimo todo baralhado. O Miolo está fraco !!

Depois parece que só agora deu porque o 25 de Abril foi enxovalhado,.....ó homem acorde, politize-se e fale de maneira que se entenda, assuma as suas posições, não seja mentecapto.

De mugabe a 09.06.2009 às 01:25

Excelente análise, das melhores que li até agora ! parabens!

De Fernando Vouga a 09.06.2009 às 19:17

Caro Alves de Fraga

Compreendo o seu desapontamento com os resultados eleitorais. Ficou bem claro o divórcio entre o povo e os seus representantes. Mas, enquanto a Lei não for alterada, as abstenções, votos nulos e brancos são formas de expressão legais. Parece não haver muitas dúvidas de que os portugueses estão descontentes com a política e não podiam ser mais claros. Nestes termos acho que a democracia funcionou.
Não quero com isto dizer que a Lei deverá ser mudada. palo contrário. Um cidadão que vai votar apenas para não ser punido não passa automaticamente a ser democrático. É o mesmo que um católico que vai à missa para não perder o emprego...
Por outro lado, estes níveis de abstenção, digamos assim para simplificar, são um duro castigo para a classe política. Porque passam a ser ídolos com pés de barro. As suas bases de sustentação são preclitantes. Veja-se que o partido que "venceu" estas eleições, só teve os voros de 30% de 40% dos eleitores o que, se a matemática não me falha, equivale a uns miseráveis 12%.
Pessoalmente não me identifico com nenhum dos nossos partidos. Para mim são todos maus. E não me venham dizer que na política portuguesa ainda há virgens puras...
Um abraço

De Zéfoz a 09.06.2009 às 21:11

Sr. Coronell, Alves de Fraga
Excelente post que sobressai pela clarividente análise das causas que levaram a estes resultados das Europeias. Sobressai "a traição feita à classe média", funalizada por um líder dito socialista que mais não tem feito do que pôr em prática os objectivos do club Bildeberg e da Maçonaria para não falar de outros loobies, em que a falta de sensibilidade ou o desprezo pelo povo têm sido uma constante. O estado de espírito dos portugueses, com a situação vigente, não é bom e isso reflectiu-se na elevada abstenção da maioria que, na miinha modesta opinião, foi uma maneira de mostrar a sua revolta, pacificamente, até que outras formas extraordinárias de oposição ao poder sejam encontradas. Espero que os políticos entendam estes sinais e invertam o caminho enquanto é tempo, para não conduzirem os Portueses para a pobreza total e o País para a insolvência. Creio, para finalizar, que esta prosa é um pouco forte porque é ditada pelo sentimento de um cidadão que se sente atraiçoado com tais políticos, mas fica ao v/ superior critério, publicá-lo ou não, obviamente.
Cumprimentos.

De Anónimo a 11.06.2009 às 19:26

Senhor Coronel, com todo o respeito, que é feito dos meus "amigos" de estimação, Meão, Pica e Desmancha tão apressados a invetivarem-me ??

Coitados, devem andar de queixo caído com a derrota eleitoral do seu alter ego Socrático.

Cumpts

De Desmancha - Prazeres a 20.06.2009 às 00:20

Ao único "democrata" cá do sítio:

Continue assim, com essa sua "brilhante" visão dogmática, que presta um "relevante serviço" a quem julga beneficiar.
Até me admira como é que ainda não lhe deram um valente pontapé no rabo...
Mas como estão em vias de extinção, compreende-se a aceitação de todos os mais tresloucados e taralhoucos "apoios"...

De JCruz a 12.06.2009 às 02:43

O povo percebeu a velha máxima de John E. E. Dalberg Acton ; "o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente".

A abstenção "sem peso" ganhou, mas como não pesa para contagem de votos "úteis" (???) fico boqueaberto com as mais recentes afirmações de Aníbal, tendo em conta que pareceu-me querer dar um raspanete ao eleitorado, teria sido mais coerente como chefe de estado chamar os partidos com representação parlamentar e passar-lhes o castigo, mas é o PR que temos, siga.

Ao invés temos a declaração de António Barreto; "Dê-se o exemplo de honestidade e verdade, e a corrupção diminuirá. Dê-se o exemplo de tratamento humano e justo e a crispação reduzir-se-á. Dê-se o exemplo de trabalho, de poupança e de investimento e a economia sentirá os seus efeitos", defendeu.

Resumiu em tudo o que o mais alto magistrado da nação se esqueceu de fazer, prejudicado (??) que também deve começar a estar por não ter declinado a confiança num conselheiro de estado envolto em assuntos nebulosos. Preferiu rematar para canto e "puxar as orelhas" ao mais fácil.

O capítulo 2 da saga eleitoral segue dentro de meses, veremos...

De Antonio S a 17.06.2009 às 23:48

Claro que só quem vota no PC é esclarecido! Todos nós outros somos estúpidos!
A leitura a fazer é que os eleitores escolheram PSD e o seu PC (o tal que ganha sempre) passou para quarta força política. De resto, por mim pode continuar a explicar o que não tem explicação.

De Pica-Miolos II a 18.06.2009 às 16:07

Senhor Coronel

Lá perder, perdeu.
Mas ganhou um "governante" tão meiguinho, tão suave,tão humilde, tão...tão...tão...
Há males que vêm por bem, né vedade?!

De mugabe a 19.06.2009 às 15:39


Não. não é !!!! (né) ???

Não disfarces ó Pica,..quem anda de cabeça baixa és tu !!!

De Pica-Miolos II a 23.06.2009 às 12:50

É impressionante a capacidade de análise deste ilustre paladino de monolíticas causas perdidas !!!!
Num "pequeno" pormenor tem razão:
Só quem tem cabeça, será capaz de, gestualmente, aquiescer à argumentação solidamente aduzida.
Porém, há quem, não tendo cabeça, se apresente como um todo, isto é, como um "Penedo com dois olhos" (ainda, por maior desgraça, vesgos).

Vá, vá... venha daí ... com nova "arrancada democrática" !

Comentar post


Pág. 1/2



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Junho 2009

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930