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Fio de Prumo



Domingo, 11.12.05

Arma de arremesso

As associações militares e os seus dirigentes têm feito tudo o que eticamente está ao seu alcance para protegerem os interesses dos profissionais castrenses. E têm-no feito no respeito pela mais estrita legalidade, mesmo quando ela é de uma profunda injustiça. O esforço e o sacrifício, bem como o seu saber, merecem de todos nós muita estima e muita consideração.


Entre as várias movimentações que os dirigentes associativos levaram a cabo uma teve mais impacto na resolução do diferendo que nos opõe ao Governo José Sócrates: a audição por parte dos grupos parlamentares minoritários, na Assembleia da República.


É curioso o facto de todos se terem entendido — e pelos vistos, bem — para conseguir que sejam feitas reapreciações da legislação recentemente saída, a qual tanto lesa os nossos interesses — pequenos interesses, diga-se em abono da verdade — capazes de minorarem os baixos vencimentos que nos são pagos.


Isto prova à saciedade, por um lado, a injustiça das medidas governamentais, por outro, o enorme poder de argumentação dos líderes associativos que nos defendem. Mas prova, também, outra coisa: é que os problemas das Forças Armadas ainda são uma excelente arma de arremesso entre os políticos. Hoje são estes que a usam contra aqueles; amanhã, se preciso for, são aqueles que a usam contra estes. No meio, estamos nós e, pior do que tudo, estão os reais interesses da defesa da Nação.


Neste vai e vem de cá para lá entre políticos e grupos com assento no parlamento é possível que haja ainda algum benefício para os militares, mas eticamente não deveria ser assim. A classe política teria de ter vergonha do jogo que está a fazer, porque toda ela, ao longo de mais de vinte anos, contribuiu para a degradação das nossas condições de vida e, mais grave, deixou que, como força, fossemos ficando obsoletos e incapazes de desempenhar com eficiência — conceito que os políticos desconhecem, pois, socorrem-se frequentemente da eficácia, em alternativa! — a missão a nós confiada pelo Povo português.


As Forças Armadas não podem ser arma de arremesso entre políticos. São assunto demasiado sério para que lhe dêem tal utilidade. As Forças Armadas e tudo o que a elas respeita deveriam merecer o consenso da classe política, porque não havendo esse entendimento entre quem governa e quem, no parlamento, critica o Governo, deixa evidenciado o antipatriotismo dos que, afinal, dizem defender os altos interesses de Portugal. Há valores que não se discutem, porque estão muito acima da política corriqueira pronta à satisfação de desejos vis e particulares. Um desses valores é o da defesa da Pátria e, para que tal seja possível, em última instância, as Forças Armadas têm de estar cercadas de uma aureola de intocabilidade absoluta. Mas o governantes nacionais sempre pecaram por descuidarem a magna questão castrense. Assim se ligaram à História Militar nomes como o conde de Schomberg, o conde de Lippe, o marechal Beresford, todos estrangeiros, que, em momentos de grande perigo, vieram organizar a defesa descuidada pelos Portugueses. Nos tempo modernos, basta recordar todo o improviso que foi a mobilização para a participação na 1.ª Guerra Mundial, para a manutenção da neutralidade armada nos Açores e Cabo Verde, durante a 2.ª, bem como, mais recentemente, a instalação das Forças Armadas em Angola, no ano de 1961. Esta constante é própria de um país onde quem governa desleixa o fundamental e assim se perdeu Olivença, se deixou invadir duas vezes Timor, durante a 2.ª Guerra Mundial, e se permitiram os cruéis massacres de Março de 1961, no Norte de Angola. Depois, quando o «fogo» já consome os haveres, pede-se aos militares profissionais que façam «milagres», desdobrando-se em múltiplas tarefas, improvisando o que a cautela e cuidadosa consciência devia, atempadamente, ter prevenido. Os governantes, em Portugal, cultivam a imprevidência. Por isso, enquanto os Portugueses se podem orgulhar das suas Forças Armadas, as Forças Armadas não se devem orgulhar dos governantes portugueses. Triste sina!


 

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por Luís Alves de Fraga às 19:14


6 comentários

De Anónimo a 12.12.2005 às 09:41

Caro Fraga,como poderão hoje, os Chefes militares Honrados e Dignos, com sentido de responsabilidade, evitar o hara-kiri ou a chacina da dignidade dos militares sob o seu comando?Camoesas
</a>
(mailto:camoesas@yahoo.com)

De Anónimo a 12.12.2005 às 08:28

Têm-se feito alguns estudos sérios sobre a invasão do Estado Português da Índia, mas são poucos. Haveria que aprofundar a verdade histórica desse período em que Salazar sonhava com o total sacrifício de uma guarnição militar para, podendo compará-lo aos dos séculos XVI e XVII, conseguir do mundo o reconhecimento moral ao direito sobre um território que já nenhuma lógica justificava o domínio português. O prisioneiros da Índia são as testemunhas do verdadeiro sentido de responsabilidade de um chefe militar com Honra e Dignidade que, perante um adversário mais forte, recorreu à rendição não humilhante em vez de a substituir por um inútil hara-kiri de um pequeno exército, mal armado e ineficaz perante as forças invasoras. A frieza política de Salazar ressaltou da vingança exercida sobre os prisioneiros e o ex-Governador. Se existe o céu dos crentes a prova de que Salazar não está lá é que, com tal peso na consciência, não havia paraíso celeste que não caísse... Já tínhamos dado por isso!Luís Alves de Fraga
</a>
(mailto:luismfraga41@hotmail.com)

De Anónimo a 12.12.2005 às 00:39

Talvez já o saibam, mas, aqui fica uma das razões que me movem em defesa da condição militar; Eu, sou filho de um desses "traidores criminosos", fui concebido depois do seu regresso, vivo (apesar de oficialmente dado como morto)e cada vez mais tenho orgulho disso e dele, é irónico mas, com o passar do tempo reconstruo a sua vida e percebo o porquê da minha.Camoesas
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(mailto:camoesas@yahoo.com)

De Anónimo a 11.12.2005 às 23:28

Não foram «quase tratados como criminosos»! Foram tratados como traidores, de tal modo que o General Vassalo e Silva, Governador e Comandante-Chefe, foi julgado em Tribunal de Guerra e compulsivamente passado à situação de reforma! E não se julgue que coisas assim, em Portugal, só acontecem em tempo de ditadura... Sempre ocorreram, porque os nossos governantes raramente têm estatura moral para saberem enfrentar os seus fracassos e as suas responsabilidades.Luís Alves de Fraga
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(mailto:luismfraga41@hotmail.com)

De Anónimo a 11.12.2005 às 23:08

O mal já vem de longe. Ao longo da História, e duma forma geral, os militares têm sido tratados como diz. Porque os governantes têm a tendência para só se lembrarem da santa Bárbara quando troveja. Depois, quando recorrem às FA já é tarde. E, pior ainda, sendo o desastre inevitável por incúria de quem manda, a culpa é sempre relegada para os militares. Veja-se o caso das nossas colónias indianas. Apesar de mal armadas e equipadas, Salazar exigiu que combatessem até ao último homem. Finalmente, perante o fracasso, não assumiu as suas responsabilidades. Preferiu vilipendiar os que lá ficaram prisioneiros. Abandonou-os à sua sorte e foi com grande relutância que consentiu o seu regresso a Portugal. Á chegada quase que foram tratados como criminosos.deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)

De Anónimo a 11.12.2005 às 20:08

As Forças Armadas são a bola do ténis-de-mesa político, são batidas para lá, são batidas para cá e assim se vai jogando e nelas batendo, umas vezes com jogadas rápidas, outras com muitos efeitos e neste momento a bola bateu na rede! De facto todos os partidos se estão "a marimbar" para os militares, todos estiveram e continuarão a estar, desiludam-se os que pensam que os opositores de agora, quando com o poder (Governo), mudarão o status quo. As associações e os seus dirigentes merecem reconhecimento e gratidão mas, não podem simplesmente os representados ficar sentados. Distintamente dos sindicatos (sempre com forças partidárias por trás), as Associações de militares são apartidárias e defendem também os interesses mesmo dos que não são associados, esta, a grande diferença e pureza da sua razão de existir. Os que não são sócios têm sempre uma alternativa à cobardia do "lesser faire, laisser passer" ou à comodidade do seu sofá; podem-se fazer sócios e caso discordem dos rumos, apresentar propostas ou candidaturas ou, de alguma forma intervir socialmente em defesa da sua condição e dignidade. Como muito bem diz no anterior post, os militares são apartidários mas vivem em sociedade logo são políticos. Uma coisa não podem os "políticos" negar, a necessidade dos militares, comprovada na própria natureza, na talvez mais evoluída e eficaz organização social, onde existe uma só raínha, as obreiras e os guerreiros também. Suponho que não tenha sido até hoje, encontrada a formiga "política de carreira"... Camoesas
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(mailto:camoesas@yahoo.com)

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