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Fio de Prumo



Sábado, 11.04.09

Para não esquecer...

 

 
Ouvi num dos telejornais de ontem o coronel Jaime Neves dizer qualquer coisa como isto:
— A descolonização não precisava de ser feita como foi. Se não se conseguia aguentar a Guiné, entregava-se a Guiné, mas ficavam Angola e Moçambique… Há meses que não se disparava um tiro em Angola!
 
Se a frase não é textual anda muito próximo do que o coronel Jaime Neves disse e, de certeza, o sentido é o que nela está plasmado.
 
Não fiquei plasmado! Fiquei pasmado!
Pasmado, porque há muitos anos que não ouvia da boca de um militar, dito de Abril, uma frase tão contrária ao espírito do 25 de Abril e, até, do programa do MFA que, ao propugnar uma solução pacífica do problema ultramarino apontava, necessariamente, no mínimo, para a autodeterminação das colónias e, no máximo, como não podia deixar de ser, para a descolonização.
 
Julgo que se a promoção a oficial general das Forças Armadas se fizesse mediante provas públicas, nada mais seria necessário para classificar com a nota respectiva o coronel Jaime Neves!
Tirem-se conclusões!

 

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por Luís Alves de Fraga às 15:07


34 comentários

De Jofre Monteiro Alves a 12.04.2009 às 09:10

As declarações do sr. coronel Jaime Neves são deveras paradoxais, mas não surpreendem de todo. Revela, antes de mais, um verdadeiro desconhecimento da realidade e da verdade histórica mais elementar.
Quando caísse – ou se entregasse – a Guiné-Bissau era politicamente impossível manter as demais colónias, porquanto a questão ultramarina fazia parte de um todo, visto que o problema era global.
Aliás, alguns historiadores afirmam que o professor Marcelo Caetano se incompatibilizou com António Spínola – ou no mínimo mandou travar a fundo as iniciativas de entendimento do general com o PAIGC na Guiné –, precisamente por entender que uma derrota assumida ou negociada separadamente para esta província iria minar a vontade de combater nas demais colónias. Qualquer cedência iria reflectir-se nas outras colónias.
Liberalizar ou democratizar o regime – seja com Marcelo Caetano, ou com o pós-25 de Abril – e manter a guerra eram objectivos insanáveis e incompatíveis. E quem diz manter a guerra, diz manter qualquer das colónias. Esse paradigma – liberalizar e manter a guerra – foi a pedra no sapato de Marcelo e espantam-me como ainda anda seja calçada com esse sapato e com a mesma pedra.
Se ainda resta alguma duvida do absurdo sustentado pelo sr. coronel Jaime Neves, basta ler Marcelo Caetano, que cito de memória: «não podemos aceitar para a Guiné princípios e soluções que são inaceitáveis para as restantes províncias» [Marcelo Caetano, Depoimento, Editora Record, Rio de Janeiro, 1974]. Umas página mais à frente o ex-Presidente do Conselho diz taxativamente que um acordo na Guiné iria «abrir caminho a outras negociações».
35 anos depois há gente que ainda não quer ver a realidade, nem com uma candeia de petróleo a alumiar…
Sobre a promoção à patente de general, na minha óptica um acto criticável, que não faz sentido nenhum, pois arvora outras questões. Não foi o próprio sr. Jaime Neves que optou por não fazer o curso de acesso ao posto de general, e como tal passou à reserva – ou reforma? Justifica-se uma promoção 28 anos depois de estar na reforma – ou na reserva? E os oficiais ainda no activo serão, eventualmente, prejudicados por esta promoção extemporânea? Nessa linha não fará sentido, então, promover Vasco Correia Lourenço e Otelo Nuno Saraiva de Carvalho?
Parece que ainda se anda a pagar favores… Termino como o faz o meu caro sr. Coronel Alves de Fraga: tirem-se conclusões!

De LUIS PARREIRA a 12.04.2009 às 17:24

O que Jaime Neves afirma, é matéria fáctica , seria bom que não reescrevêssemos a história, porque é eticamente reprovável, Após o colapso das potências do Eixo, emergiam também na cena mundial, mas de forma simétrica, duas superpotências: os EUA, a liderar progressivamente todo o Ocidente parlamentar, e a URSS, marxista-leninista, a controlar, após Yalta , toda a Europa Oriental; criaram-se dois blocos com as respectivas zonas de influência, a anglo-saxónica e a soviética -, que vão disputar o controlo das áreas geopoliticamente importantes, bipolarizando-se o mundo. Ambos eram “anti-colonialistas”: os EUA, “(...) por tradição histórica e por motivos de ordem ideológica (...)”, de natureza económica e política; e a URSS por questões doutrinárias e de táctica política. No entanto, na Assembleia Geral, existiam mais grupos anti-colonialistas: os Escadinavos por razões económicas; os Afro-Asiáticos, que são, “(...) acima de tudo anti-ocidentais (...) (será um anti-colonialismo sentimental); os Latino-Americanos, porque ex-colonizados por Espanha e Portugal e pelo facto de a Europa ainda possuir alguns territórios coloniais na América Latina (por exemplo, as ilhas Falkland que, na década de oitenta, conduziram a um conflito armado entre a Argentina e a Inglaterra); outros ainda, como o Líbano e o Irão, por disciplina de blocos. No fundo, o anti-colonialismo surgiu por motivos rácicos, económicos ou ressentimentos com origem em submissões seculares, forjando-se, assim, a política anti-colonial nas Nações Unidas. Chegava-se ao fim do período dos povos colonizados pelos ocidentais que, entretanto, se independentizaram. Mas por que não se levantou nunca a questão da autodeterminação dos povos da Ásia Central, em regime de “telecomando” colonial da URSS, assim como não se levantaram contestações a que o Hawai e o Alasca fossem integrados nos EUA? (Atente-se na importância geo-estratégica dos territórios de ambas, nas referidas condições). Por um feixe de razões de ordem histórica, política, ideológica e estratégica, as superpotências foram as grandes vitoriosas de 1945. Todo o movimento das autodeterminações anti-coloniais do século foi função do interesse dominante destas. Convém ainda notar que a política de descolonização inscrita na Carta da ONU teve a definição que foi imposta por essas superpotências, mas não foi aplicada naquela parte do mundo que não pertencesse, “(...) de acordo com as intenções iniciais, à zona de exclusiva influência e expansão de cada uma delas (...)”. Após Bandung, o apoio das Nações Unidas às independências foi dado expressamente em 14 de Dezembro de 1960, quando a Assembleia Geral, através da Resolução A/1514 (XV), adoptou uma Declaração (Declaração anti-colonialista), inicialmente proposta pela Guiné-Conacry, apresentada pela Rússia e exponenciada pelos afro-asiáticos, segundo a qual a independência é um direito que deve ser obtido de imediato. Com esta Resolução, passou-se do princípio ao direito, ligando-se de forma definitiva a ideia de autodeterminação ao processo de descolonização. Para a Organização das Nações Unidas, todos os povos tinham o direito à livre determinação. Contudo, nunca conseguiu definir o que entende por “povo”. Não tendo em linha de conta referenciais objectivos, ignorou a preparação e o grau de maturidade (tendo por padrão a cultura ocidental) das populações abrangidas, nos territórios em causa, para a independência. Não reclamou qualquer consulta democrática às mesmas para ajuizar sobre as suas intenções. Desencadearam-se as independências atendendo apenas à opinião de uma elite ocidentalizada, e praticando-se a transferência do Poder directamente para um dos movimentos independentistas. Assim, é muito difícil sustentar outra conclusão que não seja a de que foram os territórios e não os povos que constituíram a preocupação motora do processo e que o objectivo não foi a livre determinação, mas sim expulsar as soberanias europeias.
Será que foi no espaço de nove anos, desde a assinatura da Carta das Nações Unidas à Conferência de Bandung, que os povos aprenderam a governar-se por si próprios, ou aprenderam de repente? Ou teria, assim, a colonização de um só país sido substituída por um colonialismo de organização?

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