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Fio de Prumo



Sexta-feira, 06.03.09

A Associação de Praças da Armada e eu

 

 
No dia 16 de Fevereiro recebi, por e-mail, um simpático convite do Presidente da Associação de Praças da Armada (APA) para estar presente no jantar comemorativo do 9.º aniversário daquela Associação Profissional Militar. Não me dei conta de que essa mensagem continha um anexo. Por isso, não o li.
 
No dia 4 de Março, anteontem, lá me apresentei, pouco passava das vinte horas, no restaurante indicado para o convívio. Eram muitos os presentes e vivia-se um ambiente de saudável camaradagem, de ânimo, de alegria e confiança.
Quando foi dado início ao repasto, indicaram-me o lugar na mesa de honra, junto dos representantes de outras Associações Profissionais Militares (APM), do oficial em representação do CEMA, dos representantes dos partidos políticos com assento na comissão parlamentar de Defesa (os quais, por acaso ou desleixo, faltaram, só estando presente o do PCP) e de outras entidades oficiais.
A conversa decorreu animada, centrando-se, como seria evidente, nos problemas que afectam todos os militares, desde a reorganização superior das Forças Armadas até à aprovação do novo RDM o qual mereceu censura unânime dos comensais (o oficial representante do CEMA guardou, como era de esperar, reserva sobre o assunto, facto que, tenho a certeza, foi por todos compreendido).
 
Para que se possa entender o que são as praças da Marinha de Guerra é necessário recordar que este ramo das Forças Armadas foi o primeiro, há muitas dezenas de anos, a ter profissionalizados os mais baixos escalões da sua hierarquia. Era eu uma criança e recordo-me que o recrutamento para a Armada se fazia por voluntariado, entre os mancebos conscritos ou mesmo antes, quando já tinham idade para servir nas fileiras. Depois, sempre houve na Marinha, o regime de contrato que levava à existência de cabos com quarenta e mais anos de idade.
Foram, por conseguinte, condicionalismos específicos dos marinheiros que determinaram a criação da Associação das Praças da Armada.
 
No final do jantar, depois do brilhante discurso do cabo Luís Reis, Presidente da APA — discurso que me fez pensar no quanto ganhariam os Chefes de Estados-Maiores se tomassem em muita consideração as opiniões das APM, vendo nelas excelentes colaboradores da sua acção de comando e, até, permitindo-lhes a reivindicação que as suas condições de comandantes não lhes aconselha a efectivar — passou-se à fase da entrega de prémios instituídos pela Associação de Praças da Armada.
Não vou contar pormenores, mas confesso, fiquei surpreso quando, em primeiro lugar, pediram ao oficial representante do CEMA para proceder à entrega do galardão que premeia o Associativismo. Naquele instante perpassou-me pela mente a ideia de que o prémio deveria ser dado a um marinheiro que pelas suas qualidades se tivesse distinguido no seio da Briosa por acções notáveis em prol da defesa do espírito que junta as praças da Armada à volta da mesma associação. Foi com espanto e mais do que surpresa que ouvi chamarem por mim! Eu não acreditei. Por quê eu?
Tive a sensação de ter decorrido um largo tempo entre ouvir o meu nome e levantar-me.
Lá fui receber o galardão e o diploma que o acompanha.
Depois dos cumprimentos da praxe, dos abraços que se impõem, senti-me isolado do mundo que me rodeava e procurei perceber os fundamentos que justificam a atitude da Direcção da APA. Não atinei com nada que jeito tivesse. Em fracções de segundo passaram pela minha memória lembranças velhas do meu tempo de garoto: o meu Pai saindo de casa fardado de 1.º sargento da Armada, a tertúlia que ele mantinha todos os fins de tarde com velhos camaradas: o 1.º tenente José Marques (antigo sargento condutor de máquinas), o comandante Manuel Gonçalves (mais conhecido como o Manel Marau, antigo sargento de manobra), o 1.º sargento artilheiro Luís Viegas, o comandante José Neto (antigo sargento artífice), o comandante Branco (antigo sargento enfermeiro), os primeiros sargentos Roxo e Ferreira de Sousa, enfermeiros como o meu Pai, o sargento-ajudante Diamantino de Jesus (algarvio por adopção e condutor de máquinas) e muitos outros que em diferentes cafés da baixa lisboeta se encontravam para ouvir o meu progenitor falar sobre política internacional e, às vezes, com as devidas cautelas, da política portuguesa.
Esses Homens foram-me vendo crescer enquanto lhes escutava estórias da Briosa.
Da mais tenra infância recordo marinheiros, o bairro do Alfeite, as descrições das viagens da velhinha Limpopo, nas costas algarvias, do petroleiro S. Brás, a caminho da América Central durante a 2.ª Guerra Mundial e da velha Sagres (que conheci por dentro e da qual guardo lembrança viva).
Nesse instante de abstracção do mundo que me rodeava, depois da singela homenagem que a APA me quis fazer, diante dos olhos da minha lembrança, os rostos desses Marinheiros, com o do meu saudoso Pai à frente, desfilaram sorridentes; a corporação a que haviam pertencido tinha premiado a minha postura em defesa dos direitos da Família Militar. O prémio, afinal, sinto-o, foi para Eles, pois com o seu exemplo, ensinaram-me a ser tal como sou.
 
Já caminhei muito na Vida, já me superei muitas vezes, já dei de mim muito esforço. Aqui e ali tem-me sido feita justiça, tenho sido reconhecido, mas nenhuma honraria me faz esquecer que nasci num lar humilde, honesto e laborioso de um sargento enfermeiro da Armada. O meu Pai foi, naturalmente, importante para mim, mas ele era já de si um Homem diferente (veja-se o meu outro blog «Desblogueando» onde, em cinco artigos, lhe traço parte da biografia) e hoje, com a consciência que a idade me vai dando, sei que não existem acasos, nem sorte; existe algo que não sabemos explicar e nos vai abrindo portas na Vida e para a Vida. O jantar da APA e o prémio Associativismo que me atribuíram não foi um acaso, mas o fruto de alguma coisa que ainda não sei explicar com rigor e precisão.
 
Para honrar os Marinheiros da minha infância, da minha juventude e, agora, os da minha velhice, o «Fio de Prumo» vai continuar a ser uma pequena luz na tempestade das desventuras em que a Família Militar navega. Assim eu tenha forças para manter erguido esse luzeiro sobre as vagas que o querem apagar.
 
Obrigado à Associação de Praças da Armada.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 15:45


10 comentários

De António José Mendes Dias Trancoso a 07.03.2009 às 01:20

Meu Caro Alves de Fraga
Sem desmerecer as condecorações que mereceste e te foram conferidas ao longo da tua vida militar, creio que o galardão, com que a APA te homenageou, tem um Valor e um Sabor muito especiais.
Revela o sentido e entranhado reconhecimento de Homens Sérios a um Homem Sério, Camarada entre Camaradas.
Sendo filho de um Cabo Radiotelegrafista da Armada (falecido há muitos anos) permita-me, a APA, que em sua representação, o associe à Homenagem tão justamente prestada.
Em meu nome, só me resta endereçar-te o mais fraterno e orgulhoso abraço por me honrares com a tua Amizade.
Bem Hajas.

De B. Monteiro a 07.03.2009 às 19:20

Hoje, sábado 7Mar, no Hotel Mundial, Lisboa ao Martim Moniz:
Colóquio sobre o RDM e o projecto de mudança do governo/MDN, promovido pelas APM.
Entre outras intervenções, as dos deputados do CDS, BE, PCP.
O PS e o PSD, primaram pela ausência.
Suponho que tenham tido os seus deputados, todos os deputados, em trabalho de campo, junto dos seus eleitores.
Lá mais para o Verão e até Outubro, lá nos encontraremos.
Nas eleições.
B. Monteiro

De Paulo Contreiras a 08.03.2009 às 11:02

Parabéns ao Professor Doutor Luís Alves de Fraga, pelo justo reconhecimento dos seus dotes intelectuais e pedagógicos.
Parabéns ao Coronel Luís Alves de Fraga, pelo justo reconhecimento do seu inestimável contributo para a melhoria das condições socioprofissionais dos Militares das Forças Armadas Portuguesas.

Um forte abraço, de amizade e respeito

Paulo Contreiras

De Robles a 08.03.2009 às 11:24

O prémio justo no lugar certo

De Fernando Vouga a 08.03.2009 às 17:08

Caro Alves de Fraga

Todos nós já experimentamos a frustrante sensação de não ter palavras para expressar o que nos ocorre na mente. Neste caso, já nem se trata de frustração mas sim de revolta. Porque não sei o que dizer. O meu amigo merece muito mais do que os corriqueiros "parabéns".
O que nos conta é ao mesmo tempo comovente e inquietante. Comovente por ver que ainda há gratidão neste mundo; inquietante porque o evento mostra quão triste é a condição dos nossos Cjhefes Militares. Oficialmente defensores dos nossos legítimos interesses, acabam por ser desprezados, tanto por quem manda neles, como por quem lhes está subordinado...

Para si, um grande abraço.

De Anónimo a 08.03.2009 às 21:39

Senhor Coronel Monteiro Vouga
É assim mesmo!
Vossa Excelência, com a sua adequada e oportuna mordacidade, não lhas poupa!
Será que quem moveu um processo disciplinar,ao Senhor Coronel Alves de Fraga,(por, correctamente, defender os seus) teve a delicadeza de o felicitar,em nome da Força Aérea,pela sua Excelente ascensão ao mais elevado patamar académico do Saber?!
É que, em meu entender, é a própria Instituição Militar que sai prestigiada,sempre que um dos seus membros se notabiliza, designadamente, em domínios culturais que não fazem propriamente parte da sua estrita bagagem profissional.
Ou será que a elegância, também, dessa bagagem, estará alheia?

De Pica-Miolos II a 09.03.2009 às 10:10

Por deficiência minha, a resposta ao comentário do Senhor Coronel Monteiro Vouga,não foi identificada.
Aqui fica a implícita correcção da sua autoria.

De Vilhão Burro a 09.03.2009 às 15:39

Oh! sr. Pica-Miolos!
Então o sr. não sabe que quando as coisas não "me" interessam, assobio para o lado?!
Ora,ora...

De Jofre Monteiro Alves a 09.03.2009 às 16:36

Pese embora todos os considerandos, alguns deles deveras comoventes – como a memória do seu Pai – o galardão é mais que merecido, e deve ficar em lugar de honra, pelo seu significado profundo. O mérito não se pede nem se mede! Vou espreitar de pronto as notas biográficas de seu Pai no outro blogue. Honra lhe seja feita sr. Coronel Luís Alves de Fraga!

De luiz henrique a 27.09.2012 às 12:47

Meu nip era 858909-95, fui mulitar pela MB durante três anos, pedi baixa, mas gostaria de voltar a ativa, por favor se alguém tiver alguma informação a esse respeito me comunique.

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