Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo



Sábado, 20.12.08

A crise e as ideologias políticas

 

 
É indubitável e incontestável que a 1.ª Guerra Mundial foi uma consequência directa do crescimento económico desmesurado e descontrolado das grandes potências capitalistas europeias: a Alemanha, a Grã-Bretanha e a França as quais, por razões meramente diplomáticas, arrastaram outros Estados para o conflito — Estados que partilhavam dos mesmos princípios ideológicos e económicos dos primeiros — acabando por fazer entrar nele os Estados Unidos da América, potência económica do Novo Mundo e potência económica nascente no mundo ocidental. A guerra constituiu o verdadeiro fim do século XIX e, em simultâneo, a sua eclosão correspondeu ao culminar da maior crise económica até então vivida: a da concorrência sem peias entre capitalismos ávidos de dominar mercados à custa da exploração da mão-de-obra. A própria forma como o conflito militar se desenrolou — guerra de trincheiras, estática e de grande desgaste de homens e material — é indicadora de uma mentalidade virada para a produção e consumo (de artefactos bélicos) sem respeito pela vida dos “trabalhadores” (combatentes); o conflito militar foi, na sua essência mais pura, uma guerra capitalista!
Nos anos que se seguiram ao final do confronto bélico surgiram e consolidaram-se novas ideologias políticas que buscavam uma solução aceite como razoável para a eterna luta entre o trabalho e o capital, ao mesmo tempo que se demandavam novos caminhos para evitar crises determinantes do desequilíbrio entre a produção e a procura.
Inscrevem-se no quadro traçado a implantação do socialismo soviético na Rússia, o fascismo na Itália, o nacional-socialismo na Alemanha, o New Deal nos Estados Unidos da América e a social-democracia nos Estados do Norte da Europa. Como na vida não há só o branco e o negro, também desta nova escala de ideologias políticas surgiram nuances ou sistemas mitigados de cada uma das soluções.
 
Curiosamente, poderei dizer que o final do século XX não aconteceu quando a centúria chegou ao seu término, mas, uma dezena de anos antes, ao dar-se a queda do muro de Berlim com o consequente desmoronamento dos Estados socialistas de Leste. A sucessão de acontecimentos posteriores gerou a paz de um conflito que, desde 1945, havia assumido a designação de Guerra-fria (uma vez mais, um processo de confronto capitalista conduzido através da obsolescência técnica dos artefactos bélicos nunca usados), e gerou, também, a certeza de que a vitória cabia ao sistema que defendia a livre concorrência mercantil. Foi a vez de John Meynard Keynes, Marx e Lenine cederem o passo a Milton Friedman indefectível defensor do liberalismo económico o qual marcou em simultâneo os governos de Margaret Thatcher e Ronald Reagan. O progresso da nova forma de pensar, sem a oposição do socialismo soviético, rapidamente ganhou adeptos e transformou-se, dando lugar ao conceito de economia global. As possibilidades de enriquecimento rápido e descontrolado vieram ao cimo, permitindo negócios financeiros só aparentemente sólidos. A crise global estava à vista e só não foi detectada com mais antecedência, porque a ânsia de lucros, o desejo de consumo e o hábito do bem-estar obscureceram a capacidade dos órgãos reguladores descortinarem os sinais mais evidentes. As críticas foram levadas à conta de despeito ou, pior ainda, à de derrotismo perante um sistema que se mostrava prometedor.
 
A crise está instalada e, na falta de outros remédios, estão-se a aplicar, devidamente adaptadas, algumas das soluções teorizadas por Keynes há oitenta anos. O Estado está, de novo, a assumir papel interventor nos mecanismos que se julgavam capazes de serem regulados pela livre concorrência e pelo mercado. Esta repescagem das teorias do New Deal não pode desembocar novamente em velhos princípios políticos; tem, forçosamente, de dar lugar a ideologias políticas que ponham o poder do colectivo, plasmado no Estado, ao serviço da colectividade. Novos socialismos terão de aparecer no rescaldo desta crise ou, se assim não ocorrer, ela será somente a fase de um ciclo que vai repetir-se a curto prazo com custos imensamente mais elevados.
 
Na minha opinião, seria bom que os Portugueses — pioneiros em vários domínios da vida política da humanidade — fossem capazes de, mais uma vez, mostrar ao mundo o novo caminho a ser trilhado, escolhendo com acerto a ideologia política que se aproxime da ideal, ou seja, dos princípios da justiça social, da liberdade, da fraternidade e da igualdade.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 18:00


12 comentários

De Mugabe a 20.12.2008 às 21:39


Excelente artigo; actual, com o qual concordo inteiramente.
Gostei particularmente da referência aos "trabalhadores" (combatentes).
No final os seus justos desejos, são também os meus e certamente da maioria esmagadora das pessoas.

Mais uma vez, belo artigo, enquadrado na época natalícia, para a qual desejo umas Boas Festas a todos.
Cumprimentos !

De Anónimo a 20.12.2008 às 22:26

Meu caro Fraga
Erudito e muito interessante, como sempre.
JC

De Jofre Alves a 20.12.2008 às 22:38

Hoje venho somente deixar as minhas saudações natalícias a este blogue que há muito acompanho pelo grande qualidade e frontalidade, uma preciosidade na blogosfera, até pela temática e dignidade. Desejo um santo e Bom Natal e um Próspero Ano Novo, tudo cheio das maiores felicidades, repleto de esfusiante alegria, com tudo de bom, com muito bacalhau e rabanadas minhotas.

De Menina do Rio a 21.12.2008 às 15:33

Bom dia, Luís! Tens razão ao dizer que possuimos formas distintas de escrever. Escreves sobre a tua realidade; ao passo que eu escrevo as minhas fantasias. É certo que não podemos ser só realidade, nem só fantasia, mas uma combinação de ambas, o tempero; pois nem só de duras disciplinas vive o homem. É preciso sonhar para que tenhamos a sensibiidade de compreender a alma e todo o ser...

Quanto ao texto, na parte final, só tenho a dizer que os portugueses fizeram um "estrago", por assim dizer na ganância de se apoderar do mundo, impulsionados pela facilidade e pelos meios proporcionados por Inglaterra e Espanha, apossaram-se demais coisas do que cabiam-lhes as mãos. O resultado? Países pobres e devastados, riquezas arrancadas dos solo, milhões de "cidadãos órfãos de pai, tráfico, escravidão e, no final das contas, temos o retrato de um império falido...
Desculpe-me a ousadia, mas é assim que vejo.

Espero que aceite o comentário de uma poetisa brasileirinha, sincera, cética, mas acima de tudo, AMIGA.

A ti, meus desejos sinceros de Boas Festas!

De Um Poema a 21.12.2008 às 18:29

....

Um Feliz Natal para ti e para quantos te são queridos.
Que 2009 seja um ano de esperança, de paz, de saúde e alegria e também, se possível, de alguma prosperidade.

Um abraço

De António José Mendes Dias Trancoso a 22.12.2008 às 10:19

Meu Caro Alves de Fraga
Começa a desenhar-se no horizonte a redignificação da componente sócio-política.
A convergência de honestas vontades dá os primeiros e necessários passos para expurgar o oportunismo vilipendiador dos valores que enformaram Abril.
Em época de votos, o meu vai para o sucesso daquelas corajosas e sérias Vontades.
Um grande abraço.

De Fernando Vouga a 22.12.2008 às 11:16

Caro Alves de Fraga

Excelente análise, como de costume. Mas temo que este meu merecido elogio, porque é disso que se trata, acabe por se dissolver numa certa onda de elogio bajulador e, pior ainda, oportunista.
Nada pior que ser elogiado hipocritamente por quem tem demosntrado não ter o mínimo resquício de mérito...

De .A. João Soares a 22.12.2008 às 15:57

Caro Alves Fraga,
É um prazer enriquecedor ler os seus textos. Ultimamente tenho comentado menos, por o tempo ser escasso para outras tarefas.
Agradeço os seus votos de Boas Festas deixados no meu blog e retribuo-os com muita amizade, esperando que 2009 seja mais pacífico do que foi o 2008. Há casos para esquecer e que será bom que não voltem a acontecer.
Um forte abraço de consideração e amizade
João Soares

De jose antonio borges da rocha a 23.12.2008 às 11:06

Esclarecedor.
Está na hora da RELEGITIMAÇÂO do regime...

Pensar a demoracia, a forma de Governo, o modelo político, a representatividade, o sufrágio, a legitimidade política: TUDO FALIU.

O Sufrágio é um LOGRO: um terço dos deputados que "pastam" na AR não foram escrutinados, foram eleitos administrativamente (tudo porque os restantes 2/3 são falsos candidatos: arrolados para magistérios de influência . ministros, directores, inspectores, e etcetores; e o restante terço apenas EMPRESTOU a cara para anoite das eleições)...

Está na hora de exigir que tudo começe da estaca ZERO.

Agradecido pelas reflexões pertinentes, aproveito para Lhe desejar um Natal feliz e um 2009 melhor que 2008.
Com estima e consideração

De Pedro Cardoso a 23.12.2008 às 14:07


Meu Carissimo Amigo.
Sobre o escrito nada tenho a comentar.
Só desejo ao seu autor, muita saúde para o ano continuar.

UM SANTO E BOM NATAL.
E PRÓPERO ANO NOVO.

UM ABRAÇO

Comentar post


Pág. 1/2



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Dezembro 2008

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031