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Fio de Prumo



Segunda-feira, 03.11.08

O aviso do general

 

 
Causou um certo rebuliço o artigo publicado no jornal Público de há dias pelo general Loureiro dos Santos. Ele é uma figura pública com nome firmado nos órgãos de comunicação social nacionais. Se dá uma opinião qualquer supõe-se que esteja devidamente fundamentada. E estará, certamente, graças aos círculos sociais por si frequentados e às conversas por ele mantidas. Como diria Eça de Queirós, o general Loureiro dos Santos «bebe do fino».
 
Eu sou um quase anónimo coronel que se refugia no seu gabinete de trabalho onde leio os jornais, os livros clássicos, a História e me deleito a pensar sobre os assuntos. Não bebo do fino, mas julgo pensar com finura. Essa a razão pela qual há já vários meses eu vinha prevendo e escrevendo neste blog aquilo que o general Loureiro dos Santos acabou por dar a conhecer aos Portugueses nas páginas do Público.
 
A insatisfação ganhou contornos diferentes quando se tomou conhecimento do projecto de Orçamento do Estado e se verificou que, mais uma vez, as Forças Armadas iam ser alvo de fortes cortes financeiros que afectarão todo o funcionamento das unidades militares; não se trata já só da assistência na saúde, nem da progressão nas carreiras, nem do equipamento das tropas, mas da vida corrente. O dia-a-dia vai ser lesado nos seus mais ínfimos pormenores graças ao desprezo orçamental a que se votam as Forças Armadas.
Os militares andam descontentes; tanto os da reforma como os do activo e isso não é um facto recente, mas tornou-se num facto agravado. Juntam-se descontentamentos: os dos militares do activo pelas razões que já disse e os dos militares na reserva e reforma, porque, para além de tudo o mais, sabem que, no próximo ano, as verbas destinadas ao apoio sanitário vão sofrer um corte significativo. Isto quer dizer que José Sócrates Pinto de Sousa e Nuno Severiano Teixeira estão dispostos a deixar cair os militares na pior das condições.
 
Severiano Teixeira foi à televisão desmentir o general Loureiro dos Santos e tornar consigo coniventes os Chefes dos Estados-Maiores. Veio desdizer o que é uma verdade incontornável. As fissuras entre entidades responsáveis estão à vista de todos, restando, contudo, aferir se os Chefes dos Estados-Maiores querem ficar com o odioso da situação, isto é, se admitem estar colados ao ministro e, por conseguinte, ao Governo ou se, pelo contrário, se vão desvincular dessa posição. Todos eles sabem que a tropa os culpa de incapacidade de afirmação poderosa perante o Poder político, independentemente de terem, em tempo oportuno e nos lugares certos, defendido os homens que comandam. No ponto em que a conjuntura chegou as tropas de todos os escalões e de todas as situações o que desejam é ver atitudes que identifiquem as Chefias com o sentimento de descontentamento generalizado. Obediência e disciplina têm limites morais e institucionais que em qualquer altura podem ser rompidos e, se calhar, para bem de todos, podem ser rompidos e devem ser rompidos.
 
Sócrates e Severiano Teixeira estão a brincar com a tropa! E não se trata de um eufemismo, antes pelo contrário. A posição que adoptam leva a que, no meio civil, o respeito pelos militares e pelas Forças Armadas — que já é pouco devido a uma forte campanha de desinformação — baixe para níveis inaceitáveis.
Sócrates e Severiano Teixeira — que de tropa têm (se tiverem) a visão de simples oficiais milicianos, se é que o foram — não podem fazer crer que as reivindicações dos militares se tratam de caprichos de um corporativismo mal compreendido. Não podem, porque, do mesmo modo que os magistrados carecem de estar cercados de condições especiais para o desempenho da sua função, também os militares têm especificidades próprias da sua missão. Uma missão que não tem paralelo com mais nenhuma outra.
 
O desprezo e o achincalhamento das Forças Armadas afectam, em primeiro lugar, o respeito pelo próprio Estado, pois aquelas são o último pilar de sustentação deste. E que não venham militares — absolutamente desesperados com o tratamento a que a instituição castrense está a ser sujeita — proclamar a defesa do fim das Forças Armadas! Isso corresponde à admissão do fim do próprio Estado.
 
O general Loureiro dos Santos teve razão nos avisos que fez e escusa de usar de cautelas linguísticas para atenuar agora o que disse, porque o ministro Severiano Teixeira não tem qualquer rebuço em o considerar «uma fonte sem legitimidade» para falar sobre o bem-estar ou o mal-estar nas fileiras. Quando um ministro assim se refere a um general — que, por acaso até já foi ministro — o respeito deste por aquele deve ser nulo para honrar as estrelas conquistadas com muitos e duros anos de serviço.

 

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por Luís Alves de Fraga às 14:15


34 comentários

De CAUTELA a 03.11.2008 às 21:32

Cautela,

sendo eu o Cautela, pouco mais tenho a acrescentar do que “Cautela”.

A questão é muito mais complexa do que uns simples disparates efectuados por jovens Militares.

Penso que os ditos serão oficiais com algum sangue na guelrra, embora com o total apoio dos restantes militares no activo ou fora dele...e muito bem.

Perante a situação actual em que o Estado Português, intrinsecamente mergulhado num marasmo de uma União Europeia que não É nem deixa de SER, e que deixou de ponderar as suas condições Estratégicas, em prol da Loucura Económica e de Poder...poderão existir outras Loucuras.

Ou seja, entra-se naquele conceito totalmente irresponsável e juvial de que a “Tropa não serve para nada a não ser para gastar dinheiro dos contribuintes e consumir recursos a jogar aos Cowboys”.

Nada de mais ERRADO.

País que não tem Exército é País cobiçado, mesmo nos dias de hoje...pertença lá onde pertencer.

Afinal, como diz a Lei, não será o Exército (com todos os seus ramos), o Garante da Independência Nacional??

Todos assistimos à crise financeira internacional em que O QUE ERA JÁ NÃO É !!

Um País sem Exército, por minúsculo que seja, pode perfeitamente vir a não O ser amanhã, independentemente das alianças ou acordos que tenha.

Muito mais na nova ordem global.

Felizmente não temos recursos naturais cobiçados Internacionalmente, senão....

Quero com isto dizer que as nossas Forças Armadas, como em qualquer País têm que ter o DEVIDO reconhecimento por parte de qualquer Governo.

Fala-se de Estratégia Geo-Global, não de Política de clientelismo, que é a actual na Europa.

Não se pode, constantemente, aumentar desmesuradamente os Deputados e as suas Viagens, e dar apenas algumas migalhas aos cidadãos comuns, mesmo tratando-se de um Povo de Brandos Costumes.

Faça-se apenas o pequeno exercício de determinar a média de idades dos Secretários de Estado do actual Governo....UMA BRINCADEIRA.

E o pior é que a maior parte não faz ideia da Condição Militar.

Tristemente.



Agora a respeito da “Cautela” vou ser bastante pragmático.

Temos Comandos, Páras, Fuzileiros, Cavalaria, Artilharia, Infantaria e as fundamentais Força Aérea e Armada.

Quando necessário, e em consonância, é esta gente que MANDA neste País...não haja a mínima dúvida...

EM CONSONÂNCIA.

Trata-se do Melhor que temos da Nossa Raça...basta assistir a um Desfile ...do 10 de Junho, por exemplo.

E depois ??

Há que pensar nisso, se é que não está já “pensado”.

“QUANDO O ESTADO DESPREZA OS SEUS MELHORES CIDADÃOS, ESTES DESPREZAM O ESTADO”

Vamos com “Cautela”...mas VAMOS em busca do melhor para as nossas Famílias.

Nunca esquecendo que os Governos deste género “enriquecem” e “acumulam” a sua própria defesa...há que LHES abrir os olhos para que não aconteçam “Disparates” evitáveis.

“Cautela”

De andrade da silva a 04.11.2008 às 20:03

À CAUTELA

Direi que não pode estar nada pensado ou vir a ser pensado com canhões.

Os militares têm de em todas as circunstâncias manter um comportamento enformado pelos superiores valores da liberdade e da democracia que foram legados às gerações e hoje pelos capitães de Abril. O 25 de Abril foi um acto patriótico e não nenhuma acção de indisciplina nos Quartéis.

Os militares têm de ser respeitados como cidadãos, e terão de exigir,, como todos os demais cidadãos respeito pela sua dignidade profissional e pessoal, mas em nenhum militar deve existir qualquer dúvida que os problemas dos militares e do país se resolvem com mais e melhor democracia e com uma opinião pública activa e com uma consciência profunda de cidadania que não pactua com a corrupção e a falta de capacidade do Estado para fazer cumprir as leis pelos poderosos.

Os militares são cidadãos-militares com direitos e deveres e se se exige e, bem, o cumprimento dos deveres, cabe ao Governo, mas também à hierarquia militar respeitar os seus direitos, o que é o necessário e suficiente, na minha opinião, para que todos os militares se sintam bem consigo mesmos, com as Instituições e cumpram com eficácia as missões que o país lhe quiser confiar, mas obviamente que o País e os governos têm de saber que Forças armada querem e para quê. Não podemos ter uma forças armadas só com oficiais generais e coronéis, isto não pode ser, é óbvio.

À cautela não tragam pesadelos para a discussão desta problemática, que deve ser, mas não levantar espantalhos que não fazem agora nenhum sentido. Os militares não podem em democracia substituir-se ao povo que tem todo o poder para alterar e moldar a situação politica se essa for a sua vontade.
andrade da silva

De Desmancha-prazeres a 05.11.2008 às 13:56

Senhor Coronel Andrade da Silva
Diz o senhor, e bem, que "os militares não podem (não devem, penso eu) substituir-se ao povo que tem todo o poder para alterar e moldar a situação política se essa for a sua vontade".
Mas, os militares, tal como os professores e tantas outras classes profissionais, não fazem parte do Povo?!
Se fazem, como é suposto fazerem, porque razão descuram os seus direitos individuais, de empenhada cidadania, contemporizando com o oco folclore que ilude um eleitorado de curta memória?!
Em nome de uma pretensa Estabilidade, pede-se Maioria Absoluta.
Esta, aí está, instalada, mas, a estabilidade, existe?!
Para os instalados (de sempre, em alternativa, faces de uma mesma moeda) claro que sim !!!
Para quando o entendimento de que os Partidos Políticos não são clubes de futebol ?!
Para quando o entendimento de que ser-se Cidadão não é o mesmo que ser-se tifosi futebolístico ?!
Para quando o entendimento de que SERVIR, não pode, nem deve, desvirtuar-se em "servir-se" ?!
Mas, isto, relembro eu, que sou quem sou.
Queira aceitar os meus cordiais cumprimentos.

De andrade da silva a 05.11.2008 às 22:05

Claro somos cidadãos –militares, e como é um direito Constitucional, podemos e devemos manifestar a nossa indignação, como aliás o temos feito, usando os mesmos instrumentos que os demais cidadãos, e isto a Nação e o Governo têm de levar em muita, muita, muitíssima boa conta, como lhe compete por ser democrático e é devido aos SERVIDORES PÚBLICOS com obrigações tão especificas e difíceis como são os militares.

Estes argumentos têm de ser os necessários e suficientes para que o Governo, o Sr. Presidente da República fazerem o que deve ser feito, e que perante a nossa indignação e persistência não poderão deixar de fazer.

Sei e tenho plena consciência, como participante activo no 25 de Abril de 74, quando à Instituição Militar é pedido mais e o dever o exige, mas não é esta a circunstância, por isso evocar outros comportamentos é, na minha opinião, um pesadelo.
abraço
asilva

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