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Fio de Prumo



Terça-feira, 13.12.05

O dia do Combatente

Tanta coisa tem mudado neste país, de acordo com as modas internacionais (leia-se, «americanas») que eu já me perdi em relação a certas datas festivas. Para mim, aos 17 ou 18 anos de idade, todos os dias era dia de S. Valentim... Talvez não estivesse junto da namorada, talvez não lhe desse flores, talvez não lhe mandasse um bonito cartão com frases inventadas por outros, mas de certeza que o meu coração palpitava por ela como não tinha, antes, palpitado por nenhuma outra. Quem era ela não é importante. Importante é que não precisava de ter um dia especial no calendário para me lembrar de namorar nem de que tinha namorada. Igualmente, quando tinha 5 ou 6 anos, não havia árvore de Natal, nem faixas com letras garrafais dizendo «Merry Christmas», nem tocava insistentemente, em todas as lojas, o Jingle Bells, mas fazia-se o Presépio e quem «dava» as prendas era o «Menino Jesus». Quando era um adolescente, ainda não se falava em «Dia das Bruxas» ou «Halloween», mas gozávamos, até cair para o lado, os três dias e as três noites de Carnaval. Quando era garoto, não havia «coelhinhos de Páscoa» nem imensos ovos de chocolate, mas comiam-se as broas, os folares e as amêndoas doces. Agora, desapareceram as velhas tradições e impõem-se novas, que são de outros por outras razões e outras estórias a sustentá-las. Mas recordo-me, também, de ser petiz, e, ou a 9 de Abril ou a 11 de Novembro, se fazer um peditório nacional, no Dia do Combatente. Recordo-me, porque, salvo erro, por uma quantia, então já significativa — 50 centavos de um escudo, que tinha cem — dada para apoio da Liga dos Combatentes, dita, na altura, «da Grande Guerra», se recebia um capacete de lata pintada, a imitar os de ferro, que cobria a cabeça do meu dedo indicador. Ainda coleccionei uns quantos de vários anos de peditório.


Não estará na altura de sermos originais — tanto quanto se pode sê-lo — e lutarmos por ter de volta o nosso Dia do Combatente?


Podia ser a 9 de Abril. De preferência, batalharmos para que seja feriado. Recordarmos em todas as terras deste país — cidades e vilas —os nossos mortos e os nossos estropiados, de todas as guerras, mas, em especial das últimas onde combatemos.


Não interessa a justiça da causa belicosa. Não é a nós militares que compete julgar essa questão. Importa recordar os homens que comandámos e que connosco viveram as angústias de todas as campanhas.


É necessário que os jovens saibam reconhecer, nos veteranos, os sacrifícios de quem lutou por uma comunidade — a nossa, a portuguesa. É imprescindível que se façam palestras nas escolas, onde os militares vão explicar o significado de Pátria e a importância de cada beliscadura deixada no corpo e na mente de quantos lutaram, em todos os tempos, para que a bandeira de Portugal pudesse esvoaçar ao lado de outras, de grandes nações, sem arremedos de vergonha, nem subterfúgios de arrependimento. Explicar que, mesmo quando a luta pode parecer injusta, foi a disponibilidade para servir os altos interesses do Povo que levou os melhores de todos nós a entregarem-se no altar da Pátria e aí depositarem a vida, bem supremo, para cumprir, sem tergiversar, as ordens tidas como boas.


Num país, cujo Estado é laico, mas festeja com feriados, os dias santos do catolicismo — que tem dois mil e cinco anos de existência — parece não ser exigir muito que os seus 862 anos de independência, a qual, como disse Mouzinho de Albuquerque ao Príncipe Real D. Luís Filipe, «é obra de Soldados», tenham, também, um feriado para nele se dar a todos e, em particular, aos mais jovens, notícia dessa «obra».


Seria o Dia do Combatente. Daquele que lutou em Ourique, em Aljubarrota, na Ribeira de Alcântara, na Baía da Salga, em Malaca, em Diu, em Ormuz, na Serra dos Guararapes, no Ameixial, no Rossilhão, em Flor da Rosa, no Buçaco, em Azeitão, no Cuamato, nos Namarrais, no Cunene, em Nevala, em La Lys, no Guadarrama, em Nambuangogo ou em Mueda. Daquele que lutou em todas as guerras, soltando dos lábios duas palavras: o nome da pessoa amada e o de Portugal.


Chegou a altura de exigirmos dos poderes públicos, do Presidente da República, dos deputados, dos governantes, dos juízes, a aprovação do feriado nacional dedicado ao Dia do Combatente para que as bandeiras se ergam nos mastros de todos os quartéis, de todos os navios, de todas as escolas, de todas as repartições públicas, drapejando ao vento e à chuva, ao sol e ao frio, para que os órgãos de comunicação social recordem que se trata de uma jornada de festa, mas de reflexão, de alegria, mas de respeito, de repouso, mas de orgulho. Orgulho em todos os que, pelos seus sacrifícios, nos deram a coragem de andarmos de cabeça erguida entre os povos dignos e honrados que honram os seus heróis, mesmo que anónimos, mas sempre grandes.

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por Luís Alves de Fraga às 09:58


2 comentários

De Anónimo a 13.12.2005 às 23:28

Concordo em absoluto. Mas na falta dessa cultura que, pelos vistos «não cairá dos céus» até por causa das razões que invoca, por algum lado se tem de começar... Um feriado está mais dentro da índole dos Portugueses!Luís Alves de Fraga
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(mailto:luismfraga41@hotmail.com)

De Anónimo a 13.12.2005 às 22:24

Caro Fraga. O que faz falta é uma cultura de defesa (não confundir com espírito belicista de índole fascisante do género "Mocidade Portuguesa")como parte integrante da formação cívica dos cidadãos. O resto, incluindo o dia das FA, virá por acréscimo. Mas não me parece realista contar com o apoio de quem detém o poder, incluindo a comunicação social. E, como se sabe, tanto o Governo como a dita comunicação social são profundamente antimilitaristas.deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)

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