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Fio de Prumo



Terça-feira, 09.09.08

Alinhamentos inadequados

 

 
Estamos no começo de Setembro, o dia em que escrevo estas linhas está magnífico; o céu apresenta-se azul, corre uma ligeira brisa e a temperatura é excelente. Estamos no período mais agradável do Verão. Tudo me recorda os tempos da minha juventude quando, de férias, ainda tinha quase um mês para gozar. Pois é, é disso que hoje vou escrever.
 
Quando eu era criança, mais tarde já um jovem e, depois, um homem no limiar de uma vida de trabalho, o ano lectivo começava depois do dia 5 de Outubro e acabava, com os exames já concluídos, lá para o meio de Julho — os melhores alunos ou os que por ordem alfabética estavam no início das pautas até se despachavam antes! — começando um longo e retemperador período de férias: todo o mês de Agosto e de Setembro. Uma maravilha!
Os nossos pais podiam escolher o tempo de ir, ou para a praia ou para o campo, repousar, enquanto nós, dentro dos limites impostos pela época, estávamos disponíveis para “noitadas”, bailaricos e outras distracções, porque os dias eram longos e as manhãs suavemente retemperadoras até à hora do almoço. O tempo de férias não voava! Pelo contrário, parecia nunca mais ter fim, dando às paixões de Verão.
Voltar para a escola ou para o liceu era uma consequência lógica do fim do Verão, de os dias serem mais curtos, as manhãs e as tardes mais frescas. Vivíamos, de facto, ao compasso da Natureza. Uma Natureza extremamente pródiga em sol, calor e claridade neste Portugal deixado no começo do Atlântico, mas, por isso mesmo, também no fim do Mediterrâneo; um Portugal de clima ameno e suave, mesmo quando se verificam alterações resultantes das inúmeras maldades que os homens fazem à Natureza.
Nessas épocas já distantes nós sabíamos de cor a tabuada e aprendíamos equações, logaritmos, química e física, sabíamos o que era o caso notável da multiplicação e discutíamos o binómio; muito cedo, aprendêramos o que eram números primos e sabíamos operar com potências; multiplicávamos, somávamos, subtraíamos, integrávamos, radiciávamos e fazíamos tantas outras operações com números; resolvíamos problemas de física e sabíamos acertar uma fórmula de química inorgânica; também estudávamos biologia, filosofia, francês, inglês, latim e português. Numa palavra, muito ou pouco, sabíamos. E tínhamos quinze dias de férias pelo Natal e outros tantos pela Páscoa. Os nossos professores eram produtivos e ensinavam-nos e sê-lo. E tínhamos férias de Carnaval! E chegávamos ao fim do ano lectivo e sabíamos! Uns passavam com 14 ou 15, outros com 10 ou 11, mas passavam e os que reprovavam eram porque não sabiam ou não tinham estudado o suficiente. Ninguém entrava na Faculdade de Ciências sem saber a tabuada de cor ou com média negativa a matemática, ou a física, ou a química, ou a qualquer outra disciplina.
Em Portugal, na minha infância, juventude e começo da idade activa podia não haver produtividade em mais nada, mas no ensino ela era real… O que estudávamos era para ser sabido!
E tínhamos quase três meses de férias de Verão! E os professores do ensino — de qualquer tipo de ensino — tinham, também, as suas merecidas férias de Verão. Um Verão longo, suave e doce que nos retemperava a mente. Devo acrescentar que nem todos os mestres eram professores profissionalizados, isto é, de carreira, mas, nem por isso, deixavam de ser exigentes. Nesse tempo era possível um aluno fazer num só ano lectivo o exame dos anos que equivalem hoje aos 7.º, 8.º e 9.º. E muitos adultos concluíam em três anos lectivos os sete que constituíam o curso do liceu. Era preciso estudar muito, mas isso não era impossível. Fui professor em colégios particulares onde se preparavam alunos para essa tremenda maratona. Havia produtividade, como já disse, sem que, contudo, houvesse facilidades e facilitismos.
 
Depois de Abril de 1974 e, especialmente, em seguida à adesão à CEE, houve a vontade de alinhar pela Europa e, lentamente, Portugal, país de sol e longos Verões, começou a encurtar as férias e a aumentar o tempo de presença dos alunos na escola e na universidade sem que, com tal medida, se tenha conseguido um maior nível de conhecimentos; muito pelo contrário… Hoje vejo-me obrigado a ensinar na universidade coisas que eu aprendi na instrução primária!
Hoje a produtividade dos alunos baixou e também a dos professores. Como é possível?
A ânsia de alinharmos pela Europa há vários anos levou a que o Governo decretasse uma igualdade horária que em Agosto nos punha com dia claro às vinte e duas horas! Uma loucura!
Outra loucura é começarem as aulas em Setembro! Que isso aconteça na Alemanha, na Holanda e, até em França, onde as temperaturas descem significativamente, onde as chuvas se fazem sentir de forma acentuada, onde o sol desaparece no horizonte antes das dezanove horas, compreende-se… Mas em Portugal?! Porquê? Só para rendermos mais? Só para dizer que alinhamos pelos padrões dos outros Estados europeus? Isso é uma prova da mais completa cretinice. É um alinhamento inadequado e inapropriado.
Tivessem os Alemães, os Suecos, os Dinamarqueses o nosso Verão e veríamos se as aulas não começavam lá para meados de Outubro, como já aconteceu quando éramos iguais a nós mesmos e não desejávamos ser como os europeus!
Não é por o burro estar mais tempo atrelado à carroça que ele a puxa mais depressa!
A União Europeia não implica nem obriga a uma uniformidade de critérios subserviente; há que saber respeitar as diferenças e impô-las, mas nós, os Portugueses, estamos sempre dispostos a apagar-nos perante os outros, a inferiorizar-nos diante dos estrangeiros! Nacionalismo não é sinónimo de fascismo e só por uma distorção mental o pode ser. Nacionalismo é o sentido de defesa e orgulho do que é nacional, do que nos identifica como Povo, do que nos caracteriza.
Saibamos impor ao nosso Governo a diferença. Saibamos exigir o direito de poder gozar férias de Verão com os nossos filhos no mês de Setembro como acontecia há quarenta ou cinquenta anos atrás. Não arranjemos desculpas impróprias para privarmos as nossas crianças e os nossos jovens de gozarem o excelente Verão português. Sejamos nós mesmos com verticalidade. Comecemos pelo que parece pouco importante para conseguirmos chegar às reivindicações mais notórias e significativas.
Será assim tão difícil?

 

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por Luís Alves de Fraga às 11:53


7 comentários

De Jerónimo Sardinha a 09.09.2008 às 15:44

Auspicioso regresso de férias, Caro Coronel Alves de Fraga.
E pelos vistos, com a nostalgia da juventude.
Belo retrato, que nos convida, a nós, que vimos desses tempos, a fechar os olhos e recordar.
Era sem dúvida uma vida mais equilibrada e ao compasso da natureza.
"Um tempo para cada coisa e cada coisa no seu tempo".
Penso, que de entre todas as perversões da ditadura, coisas houve que eram salutares e inteligentes. Parece que os homens pensavam mais e melhor do que hoje.
Quanto a Nacionalismos, todos se arrogam "Viriatos", mas fogem a sete pés quando ouvem a expressão "Nacionalista ou Nacional". Tiraram-nos, ou quisemos, perder a identidade como povo. Hoje somos europeus, seja lá isso o que for.
Quanto ao ensino, estamos conversados. Nem vale a pena bater na tecla. Há anos, muitos, que me queixo dessa cultura da ignorância, que nos obriga em nível universitário a ensinar o que aprendemos nos tempos de 4ª. classe ou 1º. ano de Liceu.
Vissicitudes catalogadas de evolução.
Extraordinário artigo num tempo de regresso em tempos difíceis.
Respeitoso abraço, do,
Jerónimo Sardinha.

De andrade da silva a 10.09.2008 às 19:42

A propósito deste post não posso deixar de referir quanto acho as férias dos jovens de hoje, a começar pelas do meu do meu filho bem diferentes das minhas, desde logo porque, na infância e na adolescência, vivi na Madeira, numa moradia; o meu filho, em Lisboa, num apartamento.

Naquela altura mesmo sem sair de casa bastava ir para o quintal e estava em contacto com a natureza e inventávamos brincadeiras. O meu filho e os jovens deste agora passam grande parte do seu tempo de divertimento com os game boy e coisas similares. Que diferença?...

O mar, as montanhas, o andar a pé foram coisas bem presentes no meu quotidiano de férias e muito ausente nas deles, e entre as nossas infâncias decorreram 30 anos, e tudo mudou tanto que parece que passaram séculos.

Quanto ao início das aulas em Setembro, de facto o nosso país é muito complicado. Pessoalmente deixei os bancos da Universidade em 93 e as minhas más recordações reportam-se ao mês de Junho em que, por vezes, se atingiu temperaturas de 40º e era o mês das festas, o que tornava um suplício a preparação para os exames.

Outros meses de má memória eram os de Janeiro e Fevereiro por causa do frio dentro das salas de aula, (estou a falar das Faculdades, porque em 67 na Academia Militar, os barracões, onde, o Prof. Vidal nos fritava os miolos, para mim, Madeirense, aquilo foi a minha Sibéria) mas o gelo até parece que é bom, aumenta a produtividade intelectual, segundo me dizem alguns amigos.

Pelas minhas contas, por razões naturais e pelo abandono das escolas pelo menos até 93, poucos meses são amigos dos alunos.

andrade da silva

De Eira-Velha a 11.09.2008 às 20:31

Eu também recordo com muito carinho o tempo da minha criação. Mas não posso afiançar que era assim tão bom.
Para mim foi um tempo bem agreste e as férias apenas serviam para incrementar alguma mão de obra na difícil tarefa de angariar "o pão que o diabo amassou".
E nem todo o esforço despendido pelos dedicados professores de então foi suficiente para combater um elevadíssimo índice de analfabetismo.
Já dizia nesse tempo meu pai que Portugal caminhava atrasado em relação à Europa 50 anos. Hoje não deve estar muito longe disso e continuamos a fazer de conta (veja-se o que acontece com as "novas oportunidades").
Querer alinhar pelo resto da Europa não será, em meu entender, a pior política. O problema é a execução dos planos para atingir tais objectivos.

De António José Trancoso a 11.09.2008 às 20:59

Meu Caro Alves de Fraga
Desde o mote, lançado por Mário Soares, de que a Europa era o paraíso na Terra, que os políticos do PS seguem, religiosamente, a cartilha europeísta.
Não há discurso ou lenga-lenga em que a bengala UE não seja invocada para justificar tudo e mais alguma coisa; o que é raramente bom e o que, de tão inadequado e pernicioso, não tem justificação racional.
Já enjoa tanto seguidismo acéfalo, subserviente e carreirista.
Quem diria que foi Portugal que deu Novos Mundos ao Mundo?!

De Rui Saraiva Alves a 16.09.2008 às 10:15

O que é que mudou no espaço e no tempo de férias de que hoje beneficiamos ?
Serão as necessidades que trouxeram esta mudança ou o “pensar” que veio alterar o que antigamente se passava e que nos parece ainda bom?
Penso que são os nossos sentimentos, uma nova forma de ver e de abordar a vida é que nos trouxe esta alteração.
Setembro era e ainda é um excelente mês para passarmos férias, porém, uma nova palavra nos surge e que traz com ela uma nova forma de mobilização:
- La rentrée.
Este novo raciocinio de “la rentrée”, chegou até Portugal com a montagem da Europa e oferece-nos um novo mecanismo...Portugal virou-nos as costas e a Europa acolhe-nos !
Cordiais saudações.
Rui Saraiva Alves.

De Rui Saraiva Alves a 19.09.2008 às 21:04

Ha nostalgia no olhar desta gente e, também tristeza...Deus tinha-lhes dado a Liberdade como limite e os homens tiraram-lha.
Temos que aprender a lição e salvar o que ainda resta do “Indio” livre em cada um de nos.

Nem so o mês de Setembro nos oferece a boa recordação do passado; não (!), Simon and Garefunkell, por exemplo, lembram-nos uma época e...muitas coisas mais nos trazem por vezes o aroma de um certo tempo...tempo esse que ja passou.
Falando de férias (...e também de trabalho compensado por férias), ha anos atraz tive a oportunidade de descobrir os Estados Unidos e quando digo que foi uma oportunidade, é facto que a “vida” me ofereceu a possibilidade descobrir esse Pais como eu o entendi...vi, olhei, retive, descobri, guardei, etc...enfim; recordações !
Como é claro, quando se põe um pé do outro lado do Atlantico, por razões de Cultura, o Indio vem imediatamente em primeiro plano... mas, breve, entre as variadissimas coisas que me interessavam, havia uma reportagem fotografica de um tal Curtis, cujo trabalho se situou nos principios do século XX, trabalho esse feito com meios técnicos pouco eficazes e que ficou para a Historia; pois não so Curtis fotografou todas as reservas Indias, todos os Chefes evangelisados, mas também situações cujo espirito dessas fotos é bem proprio dessa época...ensuma, todo este trabalho faz objecto de um tema delicado, controverso e repleto de imagens; todavia interessante; bastante interessante.
Acontece que nessa altura procurei o Livro de Curtis, edição recente, e, acontece que não o consegui...limitei-me a aceitar esta impossibilidade e disse para mim que nada havia de urgente e talvez um dia pudesse encontrar o documento em questão...!...
Isto da “mão do Mesmo”..., é ... coisa curiosa.
O Coronel Fraga, como que por “artes” “do Mesmo”, e, pela “mão do Mesmo”, oferece-me o livro em questão...e, é aqui que eu quero chegar, é que esse livro chegou-me às mãos com a dedicatoria que tomei a liberdade de transcrever no inicio deste comentario...um tanto longo, porém, o seu Autor merece-o, foi a melhor compensação dessas minhas férias passadas num certo Setembro e entendo que devo aqui o meu agradecimento ao Homem cuja sensibilidade é bem expressa neste Blog; o Coronel Luis de Fraga.
Sei que sinceridade é a corda de uma guitarra, mas é também a Mão de Um Escritor.

Coisa mais bela: - Deus tinha-lhes dado a Liberdade como limite e os homens tiraram-lha...

Isto são palavras escritas por Luis de Fraga e que nunca esquecerei; e nunca esquecerei porque são palavras “verdade”; como verdade é o trovão.
Peço desculpa de ter sido tão longo, mas acontece que tive vontade de homenagear quem estimo e que sem este Blog, pois nunca teria tido esta chance...espaço de liberdade, Fio de Prumo assim obriga.
Acontece que os acentos ortograficos, não os tenho no meu teclado e por isso peço também o vosso esforço.
Uma cordial e bem sicera saudação...Setembro trouxe-me esta recordação e de facto, esta da Liberdade por limite...é mesmo para pensar.
Rui Saraiva Alves.

De Henrique Salles da Fonseca a 21.09.2008 às 19:08

Faço minhas as suas palavras.
Peço autorização para reproduzir no meu blog "A bem da Nação" em http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/
Melhores cumprimentos,
Henrique Salles da Fonseca

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