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Fio de Prumo



Sábado, 17.12.05

Ensino Militar - Formação de oficiais

Academia Militar.jpg


 


 


Estamos no tempo em que o económico comanda todos os aspectos da vida. Para economizar há sempre quem tenha opinião, porque sobre o assunto, entre nós, é usual falar quem sabe e quem não sabe do que fala.


Fazer economias é fácil! Basta receber e não gastar ou, em alternativa, não gastar o património que se tem. Mas economizar deste modo será a forma mais correcta de o fazer? Estou doente, como quero economizar, não vou ao médico, nem compro medicamentos. Economizei sem olhar a consequências. Tal atitude só se pode classificar de uma maneira: é o fruto de uma determinação estúpida.


Anda por aí muito aprendiz de político que, não percebendo rigorosamente nada de educação militar nem, até, de processos de ensino, preconiza, para economizar, a junção das escolas que formam oficiais das Forças Armadas. Tal e qual como se «fazer» um oficial do Exército fosse o mesmo que dar graus de licenciado em Direito, Farmácia ou Medicina, para referir algumas de entre todas as licenciaturas possíveis.


Ser oficial do Exército não é o mesmo que ser oficial da Armada ou da Força Aérea. Há uma idiossincrasia específica para cada Ramo das Forças Armadas; há-as, até, dentro do mesmo Ramo! O meio e as exigências que se colocam ao emprego de cada força, definem as diferenças. Não ser capaz de perceber isto é como dizer que um notário pode fazer de advogado ou o juiz de notário só porque todos são licenciados em Ciências Jurídicas.


Economizar juntando os futuros oficiais na mesma escola, e só distinguindo o que é de todo distinto, é votar as Forças Armadas à quase inoperância.


Claro que, entre nós, há até oficiais militares, que defendem um modelo de formação única, numa única escola. Mas existem dois motivos para que assim seja: ou desconhecem, desvalorizando, os outros Ramos; ou receiam a perda de importância hegemónica — por maior peso específico, em função da chamada «massa crítica» — de um dos Ramos sobre os outros dois. Não vou entrar em pormenores. Importante é perceber a diferença entre formação inicial do oficial e formação posterior. Nesta já se podem fazer cursos conjuntos entre componentes dos Ramos, desde que não prevaleça a referida intenção hegemónica!


A grande lição a tirar é a de que se tem de formar primeiro o oficial, depois o técnico, não se devendo nem podendo confundir economia de meios com qualidade formativa, nem se esquecendo que as tradições existem como elemento aglutinador do presente como factor de sobrevivência no futuro. Acima de tudo, é importantíssimo saber que os erros praticados no ensino não são cobrados no imediato, mas no mediato, com juros muito altos.


 

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por Luís Alves de Fraga às 10:19


3 comentários

De Anónimo a 18.12.2005 às 15:31

Caríssimo «deprofundis», depois de ter seguido a sua instrução, eis-me a dar resposta. Também eu andei na AM e reconheço que a realidade sociológica «Força Aérea» só começou a ter existência e «personalidade» depois dos primeiros anos de guerra (lá para 1965/1967), porque, até então, funcionava (sociologicamente, entenda-se) como se ainda fosse a 5.ª Arma ou uma simples junção de técnicos vindos do Exército e da Armada. A FAP ganhou a sua verdadeira autonomia em 1977, quando passou a formar, em escolas exclusivamnete suas, todos os seus oficiais (recordar que até muito tarde os oficiais técnicos e do SG faziam parte do curso em Águeda). Foi em 1977 que se fundou a Academia da Força Aérea, da qual fui director de ensino e largos anos professor; nela criei os cursos de bacharelato para ser ela a única escola a formar todos os oficiais da Força Aérea (acabando com a, jucosamente designada, «universidade da Ota» - BA-2). O que acontece na actualidade. Para que os oficiais se conheçam e se desenvolvam laços de boa e sã camaradagem devem existir escolas e cursos para serem frequentados depois de se ter atingido o oficialato, tal como acontece nos EUA. Por lá não se dispensam as três Academias iniciais. É isso que dá a tal «personalidade» ou idiossincrasia. Porque será que os oficiais da Força Aérea diplomados pela AM aceitam a formação conjunta, em oposição aos oficiais da Armada e aos que já são só formados na AFA? Exactamente, porque nós - os da nossa geração fomos «vacinados» com a «vacina» do Exército e os outros foram «vacinados» com as respectivas «vacinas». A separação inicial é um factor óptimo para que mais tarde se possam todos compreender e cooperar sem complexos. A uniformização inicial deixa «marcas» que, há cerca de treze anos ficaram evidenciadas numa experiência tentada e falhada ao cabo de três ou quatro anos de duração. Por mais que se lute ainda subsiste o problema da tal «hegemonia» que só um estudo aprofundado e cientificamente comprovado faria mudar atitudes (se fizesse!) de certas chefias responsáveis.Luís Alves de Fraga
</a>
(mailto:luismfraga41@hotmail.com)

De Anónimo a 18.12.2005 às 12:01

Caro Luís Fraga. Com toda a amizade que sinto pela sua pessoa e respeito que tenho pela sua opinião, tenho que lhe dizer que não concordo inteiramente consigo. O que não quer dizer que me sinto integrado no grupo dos que desconhecem os outros ramos nem dos que receiam hegemonias. Uma universidade (que é o caso da AM) deve ser isso mesmo: universidade (de universal)e não instituto técnico. Por isso, não me repugna nada a ideia de dar uma formação geral,de pendor mais cultural e humanista, comum aos três Ramos num mesmo local. Depois, sim, que a formação específica seja dada em estabelecimentos separados. Tal medida aumentaria a meu ver a coesão dentro fas FA. Não nos podemos esquecer que por detrás de um militar do Exército, de um marinheiro, de um aviador, há sempre um ser humano, pelo que as diferenças ñunca serão assim tão grandes. Nos meus tempos de cadete os aviadores faziam o seu curso na AM e não me parece que, por isso, fossem piores pilotos. E, na guerra do ultramar, havia a vantagem de nos conhecermos todos, o que foi proveitoso para ambas as partes. O que já não acontecia com os marinheiros que manifestavam certa repulsa pelo Exército.
Estudei dois anos no Exército dos EUA e verifiquei que entre as armas não há barreiras intransponíveis à movimentação de pessoal. No curso de Estado-Maior, em Ft. Leavenworth, as matérias eram comuns para todos os alunos. Não havia distinções entre as armas e entre estas e os serviços. E era frequentado por alguns alunos da Marinha, Marines, Guarda nacional, Reserva, Força Aérea e até por um civil do ministério da Defesa. E também por cerca de 100 estrangeiros provenientes de 50 países diferentes. E, salvo alguns alunos do dito terceiro mundo, ninguém se atrapalhou com as especificidades.
deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)

De Anónimo a 17.12.2005 às 10:37

"receiam a perda de importância hegemónica — por maior peso específico, em função da chamada «massa crítica» — de um dos Ramos sobre os outros dois"
Tal como a também prevista extinçao dos Chefes de Estado-Maior dos três ramos, depois a classe política só terá de "domar" o CEMGFA, mas como é uma escolha política, já o estará . O Passo seguinte é óbvio; Também será extinto o CEMGFA e o Ministro da Defesa actuará directamente nas Forças Armadas, até terá a tão ambicionada competência disciplinar sobre os militares (que agora já tem mas por "delegação"). Infelizmente, creio que num espaço de 5 anos, o objectivo da classe política será atingido, cuidem-se os militares de então!Camoesas
</a>
(mailto:camoesas@yahoo.com)

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