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Fio de Prumo



Quarta-feira, 11.06.08

As Chefias Militares e a crise

 

 
É indubitável que a crise económica está instalada em Portugal e que, daqui para a frente, tudo se vai agravar em termos sociais: as famílias com rendimentos médios — já não falo das mais carenciadas — vão começar a ficar insolventes perante os encargos financeiros assumidos e, continua uma estúpida campanha publicitária consumista a levá-las à contracção de novos empréstimos, como se vivêssemos no mais tranquilo dos quadros económicos.
O aumento imparável do preço dos combustíveis vai fazer disparar os custos de toda a natureza, já que, directa ou indirectamente, a economia mundial está assente no crude. Alegremente, ainda há quem veja com olhos risonhos o futuro próximo e esses ou são os beneficiários desta crise terrível ou os inconscientes que, no meio do naufrágio, continuam a mandar que a orquestra toque para que se dance como se nada estivesse eminente.
 
Os Chefes dos Estados-Maiores da Armada e da Força Aérea já deram um primeiro alerta quanto à dificuldade de cumprimento de missões se o preço dos combustíveis continuar a escalada actual. E nada indica que ela vá parar. A limitação de missões terá, necessariamente, de começar pela ordem inversa da sua importância. Assim, deixar-se-ão de cumprir as menos significativas para se levarem a cabo as mais primárias, mas há-de chegar-se a um momento em que até estas poderão ficar fortemente condicionadas.
O alerta destes Chefes militares foi, julgo eu, atempado e nada alarmista, porque feito no momento preciso: não foi antes da crise ter mostrado já uma grandeza significativa nem quando era impossível tomar medidas cautelares.
 
Claro que, em primeiro lugar, os Chefes militares tem como responsabilidade imediata o cumprimento da missão atribuída a cada Ramo das Forças Armadas, mas é bom não esquecer que, moralmente, estão obrigados a ir muito mais longe, ultrapassando esse limite profissional. E estão, porque as Forças Armadas são o último baluarte da Nação. O último baluarte defensivo da estabilidade e do cumprimento dos destinos e obrigações do Estado.
 
Com efeito, se o Estado tem como objectivo nacional último a defesa e o bem-estar da Nação e se para os defender soberanamente mantém as Forças Armadas, em instância derradeira, os Chefes militares têm como obrigação constitucional — porque juraram defender a Constituição Política — interrogar o Governo sobre o rumo da crise económica e alertá-lo para os riscos de rupturas sociais que possam colocar em causa a ordem e a paz internas. Ora, a verdade, é que caminhamos para essa ruptura social a passos bem largos: o derivativo do campeonato de futebol acaba em breve e as férias de Verão já não constituem salvaguarda suficiente para dar cobertura ao desmoronar próximo.
É evidente que o Governo tem as suas fontes de auscultação do sentir social, mas dois aspectos devem ser tomados em consideração: são mecanismos governamentalizados, facto que não lhes dá garantias de isenção informativa, e não são eles que, em último recurso, serão chamados para repor a ordem nas ruas, se se chegar a essa necessidade. E isso pode acontecer em caso de grave crise económica! E não se me chame alarmista, pois, por razões menores, os bairros periféricos de Paris, há bem poucos meses atrás, estiveram em polvorosa! Imagine-se o que representa a carestia generalizada do peixe, da carne, da electricidade, do gás, dos combustíveis, do pão, das batatas e de tudo o mais que faz falta numa mesa para matar a fome de cada dia! Imagine-se o apetite que representa para os especuladores esse movimento de alta de preços! E os movimentos de açambarcamento! Tudo isto são outros tantos rastilhos para fazer explodir o barril da revolta popular… E, depois, declarado o estado de sítio, chama-se a tropa para repor a ordem nas ruas!
Eis o motivo pelo qual aos Chefes militares cabe a obrigação de, com antecipação, tomarem uma postura defensiva perante o Governo. Não precisam de alardear publicamente as suas preocupações — nem isso lhes está cometido como missão — mas devem fazê-lo no silêncio dos gabinetes ministeriais, deixando escapar, aqui e ali, uma ou outra frase para a opinião pública de modo a que os mais atentos de nós percebam o quanto já foi feito.
O primeiro alerta dois dos Chefes militares deram-no, como disse linhas atrás. Resta que se não fiquem só pela enumeração das dificuldades castrenses.

 

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por Luís Alves de Fraga às 15:20


1 comentário

De Pica-Miolos II a 19.06.2008 às 01:37

Senhor Coronel

Há Chefes e... chefinhos.
Uns, grangeiam respeito e estima; outros, nem tanto.
É a vida...

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