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Fio de Prumo



Terça-feira, 13.05.08

Deficientes das Forças Armadas

Centro de Documentação 25 de Abril

Universidade de Coimbra

 
Amanhã vai haver uma manifestação dos deficientes das Forças Armadas. Reclamam das condições a que estão sujeitos.
 
É inadmissível que num país europeu que manteve uma guerra durante treze anos em três frentes de combate, há trinta e quatro anos, ainda os deficientes das Forças Armadas tenham de fazer manifestações para conseguirem melhorar a sua condição.
Dito de outra maneira, para estes homens, Esta não é a ditosa pátria minha amada, porque honraram a Pátria e a Pátria não os contempla.
Foram homens que deram pedaços de si a Portugal e este não lhes paga como deve. E um Governo — seja ele qual for e muito pior se se disser socialista — que não faz a justiça de tudo empenhar para os recompensar não é digno de se sentar nas cadeiras do Poder. Não honra quem honrou Pátria.
 
O ministro da Defesa Nacional e o primeiro-ministro já deveriam ter-se debruçado sobre as reivindicações de homens que arrastam consigo há muitos anos os aleijões de guerra de modo a resolver todos os problemas que os atormentam. Não o fazendo não se mostram à altura dos cargos que ocupam.
E não se mostram merecedores do nosso respeito, porque não conseguem gerir a herança que receberam quando aceitaram ser os representantes de Portugal. Eles sabiam que havia deficientes de guerra; eles sabiam que há reformados das Forças Armadas que serviram no antigo Ultramar numa guerra que não desejaram, mas que não renegam; eles sabiam que à frente de todas as mordomias que têm ou permitem que outros Portugueses tenham deveria estar a protecção aos deficientes das Forças Armadas e aos reformados militares. É o mínimo de justiça que se pede!
Quem serviu numa guerra para a qual não contribuiu tem de ser ressarcido dos incómodos que ela lhe causou.
 
Se no nosso país houvesse verdadeira consciência dos sacrifícios pedidos a uma geração de jovens, os Portugueses, há já muito, estariam divididos em duas grandes categorias: os que foram mobilizados para a guerra colonial e os outros. Aos primeiros, atingida a idade de 65 anos — isto é, o tempo de vida segundo o qual se lhes reconhece o direito à reforma — o Estado tinha por obrigação pagar, pelo menos, 75% das despesas de farmácia relativas a todas as doenças de que possam sofrer. Deficientes ou não todos nós, os que por terras de África e da Índia andámos, somos veteranos de uma guerra; demos a nossa mocidade em climas e condições adversas. Mas uma tal medida ia deixar muito claro que entre os velhos políticos os há que nunca puseram os pés nas frentes de combate e que os novos políticos, aqueles que eram crianças, jovens ou nem mesmo nascidos em 1974 — mas que já se banqueteiam com lautos salários que a sua dedicação às causas partidárias lhes permitem — não são capazes de nutrir respeito por quem não regateou sofrer na carne e na mente os trabalhos de todos os incómodos de uma saída forçada para terras longínquas em condições adversas para cumprir, sem apoucar, um dever de cidadania que um Governo tão iníquo como aqueles de que fazem parte lhes impôs em nome de Portugal.
 
Não posso estar presente, amanhã, na manifestação dos meus camaradas veteranos deficientes. Obrigações maiores me impedem, mas espero que a eles e à sua causa se juntem os reformados das Forças Armadas e os antigos combatentes para mostrarem aos políticos governantes e aos que o não são, mas dão com o seu silêncio guarida ao oportunismo dos detentores do Poder, que fomos uma juventude sacrificada, afinal, para sermos uns velhos desonrados pelas suas irresponsáveis medidas.

 

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por Luís Alves de Fraga às 10:02


16 comentários

De António José Mendes Dias Trancoso a 13.05.2008 às 14:35

Meu Grande Coronel e Bom Amigo
Muitos parabéns pela magnífica exposição.
Aceita o meu mais solidário e fraterno abraço.

De João de Castro a 13.05.2008 às 15:23

Caro Coronel,
Para quem não for cego basta olhar a fotografia que escolheu para perceber a sua mensagem. Repare-se nas caras dos homens que nela estão... Vê-se perfeitamente que não passam de uns miúdos a quem foi tirada a juventude, mas que no me meio da adversidade ainda conseguem ter um sorriso. Um sorriso que certamente já se lhes apagou do rosto depois destes anos de democracia. Afinal o que é que receberam em troca do sacrifício que fizeram?
Se calhar, nada!
Que idade têm agora? Como é que a guerra lhes afectou as vidas?
Disso estes defensores da Democracia nada querem saber... Mas querem saber qual será o lugar que vão ocupar quando deixarem de ter assento nas reuniões de ministros, lá isso querem saber e estão a fazer continhas.
Olhe meu caro coronel, estes gajos são todos uns sacanas, como dizemos nós e os brasileiros. Sacanas que só se sentem bem de mula cheia.
Vá em frente e que Deus (se acredita em Deus) o ajude na sua luta contra estes políticos e os generais que já estão mais vendidos aos políticos do que as laranjas do Algarve estão vendidas no mercado.
Um abraço
João de Castro

De Pica-Miolos II a 13.05.2008 às 23:59

Senhor João de Castro
Reportando-me à parte final deste seu comentário apetece-me dizer-lhe o seguinte:
Da missa, se calhar, nem o senhor, nem eu, nem o Zé Povinho, conhece a metade...
A opacidade da transparência política é notável! Né?

De Jerónimo Sardinha a 13.05.2008 às 16:18

Caro Coronel Alves de Fraga,
Sempre em cima das injustiças sociais.
Cá estamos de novo com um assunto incómodo, ou o mais incómodo dos assuntos sociais.
De tudo o que bem expõe, existe um predicado que me incomoda sobrameira. Não podemos esquecer que existem nas hostes políticas de hoje, antigos militares. Alguns, "militares de Abril", cuja voz nunca ouvi. Nem na defesa deste caso, nem de outros que envolveram ou envolvem militares seus camaradas. A curta memória ou a grande conveniência. E alguns até são reformados. Para os políticos (quase todos) que se apresentaram sob essa "designação" , não podemos esquecer que muitos cumpriram serviço militar, inclusívé no Ultramar, mas "assobiar para o lado" e obedecer ao partido é mais importante, ou rende mais.
O caso do actual MDN é mais gritante, pois é filho de militar de carreira, contemporâneo, e se ele não se viu nessas andanças, deve recordar-se bem da vida do pai. Não sabe é honrá-la. Ou honra-o só a ele, o que não acredito, pois a vaidade e o narcisismo não lho permitem. Henrique Nuno Pires Severiano Teixeira, tinha a obrigação de maior sensibilidade e dum maior cuidado no trato da pasta que gere. Até por formação académica. Impede-o a subserviência política.
Até quando teremos de aguardar e sofrer, por uma sociedade digna desse nome ?
Abraço e cumprimentos respeitosos.
Jerónimo Sardinha.

De Camoesas a 13.05.2008 às 19:16

"Ninguém fica para trás"...
... Lema que nada diz a os nossos governantes.
http://ultramar.terraweb.biz/Noticia_jornal_aurinegra_00.htm

"A casa da vergonha"
“Fiquei assim” – frase habitual no Lar Militar da Cruz Vermelha. “Assim” é tetraplégico.
à falta do link original da reportagem, aqui fica este:
http://forum.autohoje.com/archive/index.php/t-3900.html

A nossa "classe" poítica preocupa-se é em PISAR E ULTRAPASSAR PARA FICAR NA FRENTE.

De Luís Alves de Fraga a 13.05.2008 às 20:54

Caro Camoesas ,
Como sabe é política minha nunca responder aos comentários que deixam nos meus escritos. Às vezes abro uma excepção. Abri, hoje, a tal excepção para si.

Num dos links que menciona encontra-se referenciada a figura do meu querido Amigo e camarada de curso da Academia Militar (entrado, também, em Outubro de 1961) major-general Avelar de Sousa. É referido não por ser major-general, mas por ter assumido publicamente o desejo de coordenar a recuperação dos restos mortais dos soldados pára-quedistas sepultados na Guiné.

Conhecendo o Avelar de Sousa tal como o conheço era inevitável que a uma tal iniciativa partisse dele, de um Homem do curso Mouzinho de Albuquerque, de um Homem da "colheita" de jovens cadetes de 1961.

Éramos muitos e muitos aprendemos e guardámos para sempre os grandes valores que nos transmitiram alguns oficiais do Corpo de Alunos e alguns dos Mestres que nos ensinaram as Tácticas, a História e a Estratégia.

Tenho de me sentir orgulhoso pelo acto do Avelar de Sousa.
Obrigado por o ter partilhado connosco.

De Camoesas a 13.05.2008 às 22:20

Amigo Fraga,

Boa "colheita" essa, castas seleccionadas do melhor que já se "produziu" na Instituição Militar.
O senhor Fraga é um exemplo; "bebe-se" com prazer, é frutado q.b., amadurecido pela idade...
...Proveniente de "solos" áridos e radiosamente banhado pelas virtudes da sabedoria, dignidade, honra e camaradagem.

Contra-indicações;
Pode provocar dores-de-cabeça, mal-estar e alguma ressaca, quando bebido em excesso, por incautos desconhecedores dos prazeres da boa leitura e do humanismo.

Um abraço,

Camoesas

De Carlos Nuno a 14.05.2008 às 16:28

Caro Snr Cor. Fraga
Não, a Pátria não os contempla, isso cabe aos governos a menos que sejam governos que se governam com a Pátria. Fiz-me entender?. Em 1968, após um acidente com fractura de uma perna, estive algum tempo no que era chamado, ao tempo, o depósito de estropiados. O Anexo do HMP na R. Artiilharia 1 e tive oportunidade de me emocionar com o que via. Estropiados de toda a ordem, literalmente ali depositados, escondidos, para que não se soubesse da sua existência . Mas se a verdade desse tempo podia ser escamoteada, a de agora é gritantemente mais vergonhosa pelo desprezo a que essa gente é votada pelo Governo. Eles e os reformados são o estorvo da Pátria no conceito dessa gente que não sabe, não imagina, não respeita quem viveu essas amarguras. Aqui fica a minha modesta homenagem a quem sofreu e sofre, desprezado por quem devia ser acarinhado.
Um abraço.

De BMonteiro a 14.05.2008 às 22:27

Caro Fraga
Lá estive, descendo da Estrela para S. Bento, com o Oliveira Simões (General da FAP).
Quanto à questão DFA's (e outras) - reflexão que fui transmitindo a alguns dos presentes:
Nada disto vai lá com manifestações deste tipo.
Nesta república da Dinamarca, os dirigentes desenvolveram uma pele, uma carapaça demasiado rija, imune ás picadas dos cidadãos, tratados como insectos.
Talvez com um pouco de vontade e organização.
Talvez se a ADFA, em colaboração com as Associações de Antigos Combatentes, quisessem unir esforços.
Talvez que entrando no jogo do poder político.
Talvez mobilizando uns largos milhares, umas centenas de milhares entre DFA, Antigos Combatentes, familiares e amigos.
Talvez conseguindo, em próximos actos eleitorais, desviar umas centenas de milhares de votos, do bloco central/partidos ditos do arco governativo.
Se a ADFA quisesse arriscar perder a contribuição financeira do MDN.
Se tomássemos o exemplo de uma personagem do filme "The Birth of a Nation", revisto há tempos na Cinemateca: «se o meu direito de voto não me render nada, tambem não o quero».
Sejamos práticos.



De Luís Alves de Fraga a 14.05.2008 às 22:40

Caro Barroca Monteiro,
Talvez não saibas, mas tenho por hábito não responder aos comentários, deixando que o meu blog seja uma porta aberta para todas as participações, mas, para ti, desta vez, vou abrir uma excepção.

Acho que genericamente tens razão no que dizes, contudo, esqueces que é necessário agitar a opinião pública e para isso servem as manifestações que, umas a seguir às outras, dão do Governo a imagem real. Só depois de passada essa «mensagem» para a opinião pública poderemos delinear outras estratégias.
É importante que se agite a opinião.
Os blogs e os jornais também servem esse objectivo.
Nas eleições logo veremos.
Um abraço com a camaradagem e a amizade de sempre

De Luis Nabais a 25.05.2008 às 10:41

Também lá estive.!Sou sócio da ADFA, e, por contagens várias, a média seria entre 1500/2000.
Mas o curioso foi a recepção que tivemos.Desceu o bloco de esquerda, o pcp, o cds...e pronto.Mas está bem, para os outros não contamos, pelo contrário, somos gente a esquecer (abater?), e a prova disso veio depois.
A TVI deu uma reportagem, a SIC Notícias no dia seguinte, embora pequene, referiu a manif.E quanto a TV estamos conversados.
Os jornais, que eu tivesse conhecimento, foram O DN,o Correio da Manhã e o Público.
Não vamos, nem podemos parar.Está em causa TUDO, e tudo nos querem e vêm tirando.
A última vem a caminho, como já comuniquei aqui.A comparticipação nas consultas vai baixar de 22,68 ,para 14,47 Euros, a partir de 1 de Junho.
Estou a ver como vão ser assistidos todos aqueles que vivem no interior, que não têm acesso aos Hospitais Militares, e que vão ser vítimas de denúncia de contratos de médicos e clínicas, que se preparam para o fazer, por demasiado baixa comparticipação.
Vamos para a rua novamente.Temos de ir, mas incomodando, o que não foi o caso agora.
O "politicamente correcto" tem de deixar de existir.
Abraço a todos
Luis Nabais
Ten-Mil (ADFA)

De P. Cardoso a 15.05.2008 às 02:18



Caro Sr. Luis Alves de Fraga.

Peço desculpa de mais uma vês entrar no seu blog, mas desta é por uma boa causa.

Fico grato pelo seu esclarecimento,de que ainda há militares que andaram na guerra, e ainda por cima deficientes de guerra.

Pois eu pensava que só existiam, heróis politicos, vira casacas, que hoje até são comentadores da radio e da tv, e muito bem na vida mesmo dizendo autenticas estapafurdias.

asim como uns tantos rapases que como trabalhadores estudantes conseguiram tirar os seus cursos, com bastante sacrificio estudando de noite ,e , ainda não existia o método de Bolpnha.
Mas começaram por andar a colar cartazes, nos clubes lá da terra, mas chegaram a Enjenheiros e Doutores, que antes até eram empregados de balcão de banco, e veja-se onde chegaram.
Sr. Coronel, quantos somos os reformados, uns mais que outros , mas todos extropiados, daquilo a que tinhamos direito e nos tem sido retirado.
Porque não uma marcha única de todos nós Militares ao cemitério do alto de São João e gritar bem ALTO junto au pavilhão dos EX COMBATENTES.

A VOSSA MORTE NÂO FOI EM VÃO

Um Abraço

De Pica-Miolos II a 15.05.2008 às 20:08

Oh! Senhor P. Cardoso!
Então a morte e os traumas de tantos e tantos, na Guerra Colonial, não foi em vão?!
Claro que foi.
Se não fosse teimosia do Botas, "assessorado" pelos grupos dominantes que, em proveito exclusivo, (se) sustentavam (de) uma economia de rapina dos recursos coloniais, a guerra não teria acontecido.
Se outra tivesse sido a postura política do Estado Colonizador, a inevitabilidade das autodeterminações teria sido pacífica, subtraindo os Povos implicados - o Português e os Outros - aos terríveis sacrifícios que, criminosamente, lhes foram impostos.
Ao Estado Democrático - se o fosse, de plenitude - competiria "remediar", com correspondente dignidade ao sacrifício exigido, todos os combatentes-vítimas daquela catástrofe.
A democracia, contudo, faz-se com Democratas, não com miseráveis arrivistas.
Foi em vão, Caro Senhor, foi em vão.

De Jofre Alves a 17.05.2008 às 20:21

É da mais elementar justiça reconhecer aos deficientes das Forças Armadas os direitos que eles conquistaram nos campos de batalha em nome da Pátria, com sangue, sacrifício e dor, como muito sabiamente expôs o caro Coronel em mais este magnifico artigo, cheio de humanidade e dignidade.

Honrar estes bravos militares, sem esmolas, seria dignificar o nosso presente e respeitar o nosso passado colectivo. Aqui, falta, ainda, cumprir Abril para a plenitude do Estado Democrático e dos mais legítimos anseios!

Mas quando vemos, no Orçamento aprovado recentemente, os deficientes em geral a serem absurdamente taxados com agravamento da sua carga fiscal..., fico deveras céptico. Boa semana.

De Sérgio MIiguel a 18.05.2008 às 16:11

Os governos deste País desprezaram e desprezam os Ex-Combatentes... o pior é que quanto mais nos afastamos, temporalmente, da década de 60 e 70 do século vinte, pior... a vontade deles é que Todos morram o mais depressa possível para assim deixarem de ser aquela "pedrinha" no sapato que tanto os incomoda mas que não têm coragem de lá ir tirar... e a continuar assim, com este tratamento vergonhoso e indesculpável, depressa o desejo deles será realizado, infelizmente. Gostaria de ver os Ex-Combatentes a organizarem-se e a celebrarem o seu Dia longe destes "Políticos" de algibeira... não se deixem levar por contos do vigário, pois já viram que esses senhores só gostam de aparecer nas fotografias, depois por trás é sempre a dar facadas...

De Roberto Robles a 21.05.2008 às 10:56

Infelizmente também não pude estar presente, contrariamente aos meus hábitos.
Permita-me que utilize o seu blog para divulgar mais uma atitude estranha por parte de quem é chefe.
Ver post "Obviamente, não há comentários" em furiadocajado.blogspot.com
Com toda a estima
Roberto Robles

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