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Fio de Prumo



Terça-feira, 06.05.08

A classe média militar

 
Ontem de manhã ouvi uma notícia na rádio sobre a tomada de posição de um dos responsáveis da Caritas Portuguesa quanto à situação da classe média nacional.
Lê-se no site da Antena 1: «O aumento dos preços e a escassez de bens de primeira necessidade leva a que, segundo a Caritas, “o espectro da fome” paire sobre “muitos portugueses”, com “muita gente a viver abaixo do limiar de pobreza e com esquemas de apoio social muito deficientes”.
“A questão é eminentemente política”, declarou à RTPN Eugénio da Fonseca. O presidente da Caritas Portuguesa aponta que os níveis de produção nunca foram tão elevados, mas “o problema está no desequilíbrio dos bens produzidos e isso depende da regulação que os políticos devem fazer da economia”.
 
Esta notícia chamou-me a atenção para a problemática da subsistência dos sargentos e das praças das Forças Armadas. Eles são verdadeiramente a baixa classe média dos militares. Os seus rendimentos são fraquíssimos e os vários equilíbrios financeiros que têm de fazer são impressionantes.
Os cortes efectuados no sistema de apoio na doença vieram tornar ainda mais precária a sobrevivência dos sargentos e praças profissionais.
 
Os sargentos, muito em particular, deveriam ser, efectivamente, a classe média militar, porque pelas suas atribuições estatutárias estão entre as praças e os oficiais, funcionando para aquelas como o primeiro exemplo a seguir. Se um sargento não prima pelo aprumo e brio profissionais não pode servir de elo de ligação entre a oficialidade e as praças.
E como poderá um sargento ser um exemplo se o que lhe é pago não é suficiente para a manutenção de um razoável desafogo familiar? Quantos sargentos têm de recorrer a segundas ocupações para complementar o seu orçamento ao fim de cada mês? E quantos se podem dar ao luxo de terem os respectivos cônjuges unicamente a tomar conta dos filhos e a tratar da casa? E quantos têm as mulheres em subempregos, muitas vezes, pouco dignos da categoria sócio-profissional do marido?
 
Ao ritmo a que o custo de vida se acelera em Portugal, conjugado com os fracos aumentos que são dados aos militares, não me espanta nada que, durante os próximos anos, os sargentos e as praças das Forças Armadas tenham de se socorrer dos apoios fornecidos pelo Banco Alimentar Contra a Fome ou pela Caritas.
 
Se o ministro da Defesa Nacional tivesse assessores realmente preocupados com a forma como vivem os sargentos e as praças — para não falar dos postos mais baixos de oficiais — já teria mandado lançar um grande inquérito destinado a averiguar as dificuldades da classe média militar e, assim, munido de dados seguros, poderia junto do primeiro-ministro e do ministro das Finanças fazer valer as suas razões — se é que isso lhe importa realmente! É evidente que uma acção desta natureza poderia e deveria começar por ser tomada pelos Chefes dos Estados-Maiores dos Ramos para se assumirem como os lídimos defensores dos interesses dos homens por si comandados. Números na mão, inquéritos no papel, essa poderia e deveria ser a maneira de ultrapassar muitas das dificuldades financeiras hoje existentes no seio das Forças Armadas.
Bom material de guerra tem de ser operado por homens e mulheres satisfeitos e realizados técnica e financeiramente.
Mandem os senhores Chefes dos Estados-Maiores que os adidos militares junto das diferentes embaixadas das capitais europeias façam um estudo entre o custo de um cabaz de compras pré-determinado (no qual entre o valor médio do arrendamento de uma casa e as despesas inerentes à sua manutenção) e os vencimentos pagos aos sargentos e praças desses mesmos países; depois, determinem o estabelecimento das escalas de comparação e, munidos dessas informações, reclamem junto do ministro.
Talvez, desta maneira, deixando escapar alguma notícia para os órgãos de comunicação social, ganhem popularidade mais do que suficiente junto dos seus subordinados.
Comandar não é só saber dar ordens… É preciso que essas ordens traduzam um rumo condutor até à satisfação de quem é comandado.

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por Luís Alves de Fraga às 01:06


13 comentários

De Camoesas a 06.05.2008 às 19:37

Caro Fraga,

Ouvi hoje, nas notícias da SIC que, o Director da PJ será demitido por ter sugerido a mudança da dependência da PJ para o MAI...
...Tão simples quanto isso; alvitrou e irá "pagar" por isso!

Uma das inúmeras vantagens e regalias de viver num país "democrático", onde a liberdade de opinião e expressão é supostamente garantida (desde que favorável e consentânea com a vontade mutante dos políticos QUE SE REVEZAM e alternan (sem segundas intenções) nas cadeiras do poder).

Os políticos que escolhem as chefias militares (enquanto as há e não acabam com elas...) para lhes ficarem obedientemente submissas e mudas.

"(...)Mandem os senhores Chefes dos Estados-Maiores que(...)"
Dá-me vontade de rir (ou chorar de revolta?) que sugira aos "Chefes" mandarem algo não conveniente ou sem pedir auitorização aos verdadeiros "chefes" ; os políticos que os nomearam.

Não há "volta a dar" sem uma posição de FORÇA, uma vez que qualquer opinião ou sugestão, além de ignorada, será o motivo necessário e suficiente para o..."despedimento" supostamente com justa causa...

Quanto aos Sargentos e Praças, digo nada!

De Pica-Miolos II a 07.05.2008 às 08:52

"(...) reclamem junto do ministro."
Reclamem junto do ministro?!!!!
Isso é que era bom!!!

De Fernando Vouga a 07.05.2008 às 15:39

Caro Alves de Fraga

O meu amigo tem cada uma! Dar sugestões numa democracia musculada (ou ditadura disfarçada) é coisa que se faça?
Como diria o Zeca Afonso: "eles sabem tudo e não resolvem nada".
Vejo que não aprendeu a lição. Já apanhou um processo disciplinar e agora quer o quê? Ir parar ao Xelindró
Olhe que ter ideias e, o mais grave, divulgá-las, é pura subversão. O Regime não precisa delas. Do que precisa é de obediência e fidelidade. O grande timoneiro é que sabe. E a gente só tem de baixar as orelhas...
Olhe que ainda vai ser condenado por actividades subversivas e incitação à revolta dos sargentos e praças!
Quem me avisa...

De António José Mendes Dias Trancoso a 07.05.2008 às 16:59

Meu Caro Monteiro Vouga
Subscrevo integralmente as suas obervações e avisados conselhos.
Mas...( lá vem o mas)... a Seriedade, do nosso Bom Amigo Alves de Fraga,...não tem conserto.
Quanto mais o quiserem "assustar" mais porá a boca no trombone.
Ele sempre foi assim!
Que se cuidem os vira-casacas.

De Fernando Vouga a 07.05.2008 às 20:58

Caro António Trancoso

O nosso amigo Fraga pode estar descansado. Pelo menos, da nossa parte, nunca ficará só.

De António José Trancoso a 08.05.2008 às 09:15

Caro Monteiro Vouga
O Fraga sabe que assim é. E não só da nossa parte.
Se alguém está - em cada dia que passa - mais isolado e "destribado", seguramente, não é ele...
Quase sinto pena... não fora a importância que o bastão pode ter na mão de um vilão.
Aguardemos o parto da Montanha.
Um abraço.

De Anónimo a 07.05.2008 às 22:58

Meu Caro Coronel Alves de Fraga.
Subscrevo inteiramente e reitero as opiniões do Com. Vouga e do Sr. Dias Trancoso.
Como calcula conheço o processo que descrevem, do "antigamente".
Se a sua excepcional exposição, serve para chamar a atenção de um facto que há muito se agrava, não esquecendo que no paralelo civil as coisas se degradam da mesma forma ou mais acentuadas, deixa-nos uma situação social muito complicada.
O aparente "músculo" que os políticos fingem mostrar, não passa de "aldrabice" para intimidar. Ainda hoje o "homem do MAI" mentiu descarada e friamente na chamada Casa da Democracia. Tudo não passa já de fuga para frente, numa tentativa atabalhoada de salvar a face. Tal como aconteceu com os de 1973/74.
Vamos ver onde e como é que isto pára.
Agora que os dois supra citados têm razão, têm.
Mas são Homens com este querer e esta verticalidade que moldam as linhas tortas da história, que os outros tentam escrever.
Força Coronel Fraga. Sabe que muitos estão consigo, ou professam as mesma ideias e ideais. Não é fácil, não dá medalhas nem louvores, mas dá um sono repousado com a consciência tranquila, coisa que pouca gente neste País consegue ter.
Abraço de solidariedade da sociedade civil (ou parte dela).
Com amizade e respeito,
Jerónimo Sardinha.

De P: Cardoso a 08.05.2008 às 09:10





Sr. Coronel

Caros amigos, a verdade doi, e incomoda, quem não se sente não é filho de boa gente.
Quem deveria zelar pelos reformados,ê que arriscaram a vida para defender a Pátria e agora nem direito a uma assitencia médica digna teêm.
Que dizem as associações de reformados.

Diz-se que um coronel estava ao nivél de Juiz.
Eu sou do tempo em que os Sargentos estavam iguais aos profssores e Enfermeiros e agora.
Alguem tem de dar o grito do " IPIRANGA".
Sr. Coronel estou cnsigo. NA LINHA DA FRENTE.

De Carlos Nuno a 08.05.2008 às 15:10

Mas bolas , eu dei o grito do Ipiranga e o Cor. esteve comigo, por isso o tentaram "entalar". Terão que me entalar também a mim que não me calarei e vou escrever novamente aos senhores nossos "donos". Não se livrarão de mim que já sou velho combatente e sargento de muito orgulho. Vou revelar coisas novas da assistência médica : dizer por exemplo que uma taxa moderadora para minha mulher no centro de saúde da minha zona é mais barata do que no Hospital da F.A . Esta é uma parte dos tais privilégios que o Senhor 1º Ministro diz que os militares tê. Vamos ver.

De Jerónimo Sardinha a 09.05.2008 às 00:41

Ao Sargento Carlos Nuno.
Só pode ser motivo de orgulho, para si e exemplo para todos nós, o Sr. Coronel estar solidário consigo.
É óbvio que o tentaram "entalar".
Mas não se iluda, a ideia era muito mais longa e perversa.
O que não esperavam, foi a movimentação, militar e civil, que se gerou em torno do Sr. Coronel. E implicitamente, de vós, sargentos. Para além da imprensa escrita, a "blogosfera" encheu-se, num espaço de vinte e quatro horas, de comentários críticos para a espécie de poder e apoio ao Sr. Coronel, para não falar do "Martinho" que juntou gente de todos os quadrantes.
Caro Coronel Fraga, peço que me perdoe, mas não resisti a esta resposta, pela dignidade do comentário e pela singeleza da manifestação. Longe de mim ter capacidade para defensor. E muito menos intenção de porta-voz.
Cumprimentos sinceros e amigos.
Jerónimo Sardinha.

De Carlos Nuno a 09.05.2008 às 19:36

Senhor Jerónimo
Claro que esta accção para com o Snr . Cor. Fraga não passou de um balão de ensaio porque facilmente se infere que já andavam há tempos a ver se o "entalavam". Não contaram, de facto, com a subtileza da sua inteligência e, muito menos, com o apoio que lhe foi logo demonstrado. A divulgação que ele deu à minha carta e as considerações sobre a responsabilidade das chefias foi o toque de clarim para o ataque. Tudo por causa da assistência na saúde do HFA onde a única coisa que mudou foi, por ora, não haver filas no portão. Elas voltarão porque o problema das consultas para algumas especialidades persiste. Não obtive resposta directa às questões por mim colocadas naquela carta. Outra surgirá, agora com mais denúncias do mau serviço de saúde que me é prestado e ao qual tenho pleno direito. Já num capítulo deste Blogue eu tinha sugerido ao Senhor CEMFA que se não tem possibilidade de cumprir aquilo que é uma das suas atribuições básicas - zelar pelo bem estar do seu pessoal - o melhor é renunciar. Não é com castigos que se resolvem estes problemas. É com médicos e mais pessoal suficiente. O HFA desde o seu nascimento e até a alguns anos serviu perfeitamente e agora tem obrigação de o fazer da mesma maneira. A ver vamos.

De F.Coutinho a 17.05.2008 às 23:06

Shr.CMD Fraga, referir me ei assim,apesar de não ter tido o privilégio de o conhecer pessoalmente, nem de ter militado sobre as suas ordens,pela admiração que tenho por si.Alias,este blog está repleto de varios documentos por si escritos, que são o testemunho da sua grandeza como militar e como homem.Isto explica porque o seu blog começa a ser uma autentica bola de neve, que a continuar assim,poderá tornar-se no principio de uma frente,organizada e activa para todos os militares que não se conformam no tratamento ultrajante, que têm sido alvo nos últimos tempos.
Mas permita que me apresente, sou uma das vitimas destes vergonhosos processos, 1sar no activo, e apesar das restrições,não resisti em vir aqui, oferecer toda a minha solidariedade para com o meu CMD, e camarada de luta nestes tempos tão difíceis,que me fazem lembrar a minha infância.
Estarei consigo,hoje amanhã e sempre.O meu CMD, é um exemplo de grandeza, que eu humildemente vou juntar com o meu camarada e Presidente da ANS, LIMA COELHO,na minha lista de GRANDES MILITARES ,que me enchem de orgulho, como Militar e PORTUGUÊS.
Deus lhes dê muitos anos de vida, porque vamos precisar muito destes dois MILITARES DE EXCEPÇÃO.

De S. Costa a 21.05.2008 às 16:13

Amigo COR Fraga, se por acaso se pensa que os Sargentos estão conformados com a sua situação actual, pois fique sabendo que o copo já transbordou, e que existe um verdadeiro mau estar dentro da Classe. Nunca eu me tinha apercebido, como actualmente, nas conversas tidas no dia a dia, a vontade de tanta gente em dar um murro na mesa. Acredite que esta situação não é mesmo nada normal. Espero, para bem de todos, que impere o bom senso, que do topo da pirâmide se comece a olhar um pouco mais abaixo, não se enxergue,apenas quem está mais perto do topo, mas também também os alicerces da sua estrutura.
Um Abraço repleto de solidariedade.

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