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Fio de Prumo



Segunda-feira, 19.12.05

Interesse público, segurança e desgoverno

Nasci e vivi muitos anos no bairro lisboeta da Graça. Conheço-o perfeitamente mais os seus arredores.


Quem vem, de carro, pela avenida General Roçadas em direcção à rua Morais Soares tem de contornar meia praça Paiva Couceiro e ficava parado, nos semáforos, de frente para dois edifícios construídos no final dos anos 20 início dos anos 30 do século passado: um, destinado a junta de freguesia e, outro, a esquadra de polícia. Diga-se, em abono da verdade, este último com uma traça apropriada ao efeito, pois no topo tinha uma guarita redonda em cada canto da frontaria. Qualquer dos dois, se a memória não me atraiçoa, não passava do segundo andar, ou seja, tinha três pisos.


Há coisa de três anos, na rotunda das Olaias, começaram obras na via pública para construir uma passagem desnivelada e saídas para a praça Paiva Couceiro e rua Morais Soares. Noutro dia, por qualquer motivo que não recordo e que não vem ao caso, fiz o percurso pela avenida General Roçadas e eis que, no semáforo, tal como se fosse uma boca desdentada, dou pela falta do edifício da velha esquadra de polícia. Pura e simplesmente tinha sido derrubado para dar lugar a uma inesperada estreita rua de acesso a amplas vias que, passando por trás dos prédios da artéria Barão de Saborosa, na zona da Picheleira, vêm dar à rotunda das Olaias.


Fiquei espantado. Tão espantado que encravei o trânsito quando o semáforo passou a verde e não arranquei de imediato com o carro. Lá rodei por sobre o espaço onde em tempos foi a esquadra e tive de encostar, mais à frente, para perceber a enormidade urbanística que havia sido cometida. Urbanística, cívica e anti-segurança pública.


Então, seja qual for o motivo, destrói-se uma esquadra de polícia, que havia sido concebida de origem e raiz destinada a esse fim, para dar entrada a um acesso que poderia ter ido entroncar em qualquer outro lugar? Está tudo doido ou serei eu o estrábico (não tenho nenhum engulho contra os que sofrem deste defeito físico, note-se!)?


Se ainda existe, eu sei que, na Vila Cândida — a cerca de setecentos metros dali — há uma esquadra de polícia. Mas essa serve a Graça, os Anjos, o Bairro América e a Quinta do Ferro, quase até Santa Apolónia.


Onde está o sentido de gestão dos poderes públicos, camarários e urbanísticos? Troca-se seja o que for, para abrir uma via mais rápida para se chegar ao engarrafamento da rotunda das Olaias, e «entupir» a avenida Gago Coutinho mais depressa, em hora de ponta. Alguém ganhou com este negócio, mas não foram os residentes das zonas afectadas. Esses, perderam em segurança!


Ainda não me tinha refeito da desagradável surpresa e eis que tenho, pela leitura dos jornais diários, a resposta para as minhas dúvidas e incertezas. Foi quando o ministro da Administração Interna visitou unidades da GNR e PSP para ver e «entregar» os novos coletes anti-bala com que aquelas corporações vão ser dotadas. Pois foi! O senhor ministro António Costa declarou que se iria proceder à venda de património para assim comprar equipamento para as forças de segurança.


Isto é andar ao arrepio de qualquer boa medida de gestão.


O Povo diz, e tem motivos, «vão-se os anéis, ficam os dedos». Veja-se a profundidade do aforismo: vão-se os anéis, quer dizer, perde-se o que se pode voltar a comprar, mas sustenta-se o património, aquilo que não é renovável. Pois! Só que António Costa, e os seus companheiros de Governo, percebe o adágio ao revés. Prefere cortar os «dedos» para comprar «anéis». O património nunca mais volta a ser recuperado, atendendo ao sucessivo endividamento do Estado, e o material vai tornar-se obsoleto dentro de alguns anos! Feitas as contas, fica-se sem nada.


Claro que se têm de equipar as forças de segurança, mas há, pelo menos, duas outras maneiras de o fazer: ou se poupa no orçamento de despesas correntes ou se aumentam as receitas. O mais correcto, é racionalizar os gastos, coisa que este e todos os Governos que o antecederam não fizeram.


Importante é que a receita para tratamento destes males foi, uma vez mais, declarada publicamente. Fiquemos, agora, à espera de qual vai ser o património restante das Forças Armadas que se venderá para, com o produto, se comprar material de guerra.

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por Luís Alves de Fraga às 23:22


4 comentários

De Anónimo a 24.12.2005 às 01:33

Por falar em meios proporcionais:
E que tal vai o "negócio" da droga em Singapura?

Aniceto Carvalho Aniceto Carvalho
(http://alfredo6.no.sapo.pt/)
(mailto:de-poiares@netcabo.pt)

De Anónimo a 23.12.2005 às 23:34

Amigo Aniceto, não se resolve porventura o problema da criminalidade, mas, certamente se diminuirá a exposição ao risco dos agentes da autoridade. Investir em sistemas "sofisticados" e informáticos para a "caça à multa", só contribuirá para a colecta rapida e eficiente. Se para se exercer autoridade não fossem necessários meios ( de defesa e ataque porporcional à ameaça ), bastaria para equipar um agente, a identificação com B.I. e crachá, nem a arma (antiquada ou não) seria necessária!Camoesas
</a>
(mailto:camoesas@yahoo.com)

De Anónimo a 23.12.2005 às 23:15

E pergunta a minha ignorância: É com coletes à prova de bala que se resolve o problema da criminalidade?

Aniceto CarvalhoAniceto Carvalho
(http://alfredo6.no.sapo.pt/)
(mailto:de-poiares@netcabo.pt)

De Anónimo a 22.12.2005 às 11:24

Pelos vistos, o Governo não vai ficar por aí. Há mais esquadras na mira. Assim, com a medida de mandar para o lixo os processos menores, a juntar-se mais esta, a pequena criminalidade vai finalmente trabalhar em pleno.
Vender património para custear despesas correntes é, em princípio, uma medida desastrosa que irá comprometer o futuro. Mas, nessa altura já não será o Eng. Sócrates a governar...deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.ptg)

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