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Fio de Prumo



Sexta-feira, 11.04.08

Homem de causas

 
Tenho sido, ao longo da minha vida, um homem de causas. Em abono do que afirmo recordo muito vagamente um episódio ocorrido, quando teria cinco ou seis anos, no pequeno jardim do miradouro da Senhora do Monte, lá para as bandas do bairro da Graça.
 
Era Verão e, naquele tempo, as mães levavam os filhos até pontos frescos na cidade, para eles poderem correr e brincar.
Certa noite a minha progenitora, porque estaria de conversa com a minha irmã, mais velha do que eu sete anos, perdeu-me de vista e, quando sentiu a minha falta, mandou-a procurar-me. Ela descobriu-me — não era difícil — mas foi chamar a minha mãe, porque não sabia como resolver a situação. Vou contar o que me lembro.
No miradouro, por trás de um velha e frondosa árvore, ainda existe um longo banco de pedra. Eu estava sobre um dos lados desse banco, rodeado de uma pequena multidão de adultos, a interpelar o guarda da PSP que ali fazia serviço. Perguntava-lhe porque é que eles, em vez de andarem atrás das varinas que vendiam o peixe no passeio da minha rua, não iam para a guerra lutar como soldados. O cívico, homem pacato e com sentido de humor — maior do que o de certos responsáveis dos dias de hoje — dava-me conversa para, como soe dizer-se, me puxar pela língua e eu replicava que era na guerra que se via a coragem dos homens e não a correr atrás de pobres peixeiras.
Foi com grande sobressalto que a minha saudosa mãe interrompeu aquele infantil comício que estava a divertir quem me ouvia e, provavelmente, dava prazer ao polícia. Mas a minha progenitora, sabendo como a PIDE actuava temeu, durante uns dias, que a minha precoce tendência para defesa da causa dos oprimidos e dos que não têm voz valesse ao meu pai — sargento enfermeiro da Armada — algum incómodo. Nada aconteceu, para além de ter passado à história da família esta minha ousadia e o meu grito de revolta.
 
Sou um homem de causas. O meu blog está aqui para o demonstrar. Continuo e continuarei a bater-me com os «cívicos» mal-humorados, estando ao lado de todos quantos sejam vítimas de injustiças. Quem me conhece da juventude sabe como eu sou: frontal e “diplomata” na medida em que a “diplomacia” não constitua uma cedência aos valores que defendo.
 
Através de vários meios de informação, mas também pelo Diário de Notícias, tomei conhecimento do anteprojecto de reforma do Regulamento de Disciplina Militar. Este, segundo a agência de notícias Lusa, nas palavras do secretário de Estado da Defesa, João Mira Gomes, terá sido trabalhado no Ministério da Defesa Nacional com as chefias militares e a colaboração do Ministério da Justiça.
É curiosa a forma como o senhor secretário de Estado coloca o problema da restrição das liberdades e garantias dos reformados militares, pois diz, segundo a Lusa, textualmente o seguinte: «não há nenhuma intenção do Ministério da Defesa em limitar os direitos dos militares, constitucionalmente consagrados, excepto aqueles de que voluntariamente abdicam quando abraçam a vida militar». É que, quando se lê o famigerado anteprojecto, salta de imediato à vista a pretensão de que os reformados fiquem abrangidos por deveres que são próprios e constitucionalmente previstos para os militares na efectividade de serviço. A quem é que o senhor secretário de Estado pretende enganar quando faz a afirmação transcrita?
 
«Abraçam a vida militar». Eis o cerne de toda a questão!
O senhor secretário de Estado está a partir do princípio de que a condição militar é também motivo para limitar direitos a cidadãos que, tendo servido durante longos anos a vida castrense, ao reformarem-se continuam amarrados às obrigações militares. É essa a volta que se pretende dar para retirar direitos constitucionais aos reformados. Esquece-se o senhor secretário de Estado que todos os direitos que os militares reformados têm, e foram conquistando desde a Guerra Peninsular, são uma forma reduzida de o Estado e a Nação compensarem três vertentes da sua conduta ao longo de uma carreira: a disponibilidade absoluta para o serviço em qualquer parte sem limitações de horários nem necessidade de pagamentos extraordinários; a dádiva da própria vida, se tal for exigido pelo serviço da Pátria; e a limitação do exercício de certos direitos de cidadania quando estão na efectividade de serviço. A reforma liberta o militar desta última grilheta que só o serviço activo justifica.
«Abraçar a vida militar» não é fazer voto de silêncio e de obediência; é jurar servir a Pátria enquanto se tem possibilidades físicas para o fazer. Depois, quando o corpo já só é um tropeço, quando só se pode fazer bom uso das faculdades intelectuais, calar os militares reformados, ao invés de os estar a honrar, está-se a brutalizá-los, retirando-lhes a dignidade da cidadania completa a qual já não pode ser compensada com a dignidade do serviço castrense.
 
Acima de tudo, é estranho que as chefias militares, segundo o despacho da Lusa, hajam trabalhado com o Ministério da Defesa neste anteprojecto e não tenham sabido interpretar o que de negativo ele contém quanto aos reformados. Trabalhar com o Ministério da Defesa não passa por aceitar tudo o que aquele pretende pôr em execução, a não ser que haja concordância, e, está claro, a ser verdadeira esta última hipótese, agindo de tal forma, mostrarem à saciedade o desejo de calar a voz da crítica e da denúncia salutar dos erros que eventualmente possam cometer ou deixar cometer. E, já agora, deixem os meus leitores que lhes coloque uma pergunta “ingénua”: — Haverá por aí algum precedente que justifique a afirmação?
 
Seja como for, a inconstitucionalidade do anteprojecto é mais do que evidente — como inconstitucional é mandar aplicar aos reformados o actual Regulamento de Disciplina Militar — e, só por isso, deve apelar-se para o Presidente da República para, na devida altura e se o que está errado não sofrer alterações, mandá-lo apreciar pelo Tribunal Constitucional.

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por Luís Alves de Fraga às 14:51


26 comentários

De Fernando Vouga a 11.04.2008 às 19:16

Meu caro Fraga

Naturalmente, eu estaria espantado com a estupidez de semelhante medida. Estúpida porque contraria o mais elementar bom senso e estúpida porque a sua aplicabilidade e aceitação, caso seja aprovada, émuito difícil. Mas deste (des) Governo e do seu responsável, cidadão Pinto de Sousa, já não espero nada no que concerne a discernimento e decência. Pelo que já nada me espanta.
Mas, ao invés, estou espantado com o comportamento de duas pessoas que julgava conhecer bem e tinha por inteligentes e honestas: os generais Valença Pinto CEMGFA ) e Pinto Ramalho CEME ). Se me não falha a memória, foram ambos meus alunos no IAEM . Conheci Pinto Ramalho em Angola, nos Dembos. Pertencia ao estado-maior do Comando de sector em Santa Eulália e eu era oficial de operações do Batahão de Zemba . Conheci melhor Valença Pinto porque também foi professor do IAEM no meu tempo.
Não esperava que um dia viessem a ser coniventes com uma das leis mais torpes e antidemocráticas que já vi propor. Uma lei que fere profundamente a dignidade e as mais elementares liberdades individuais de camaradas seus, muitos dos quais com 4 estrelas. Como foi possível?

De António José Trancoso a 11.04.2008 às 22:13

Meu Caro Monteiro Vouga
As estatísticas demonstram, salvo raras excepções, que as estrelas são portadoras de um estranho e perverso vírus, que só desaparece, devolvendo a sanidade mental aos seus portadores, quando passam ao ocaso.
Li, no Miradouro (do Comandante Soares) as posições dos senhores Generais de 4 estrelas, na situação de reforma. Subscrevo-as sem hesitação.
Mas, pena é, que um deles, o senhor General Martins Barrento, quando CEME, afectado pelo tal vírus, não tenha sido capaz de fazer justiça aos que (à margem da própria legalidade então vigente, em acto de arbitrária e suprema indisciplina) tão maltrados haviam sido.
Como vê, Caro Amigo, tudo é possível.

De António José Trancoso a 11.04.2008 às 23:29

CORRIGENDA
Onde se lê "..., no Miradouro..." deverá ler-se:
"..., no De Mirante (do Comandante Soares)".
Pelo lapso apresento as minhas desculpas.

De Camoesas a 11.04.2008 às 19:35

Amigo (S)enhor Fraga,
Tempos houve e não estão assim tão distantes, em que os militares também depositaram toda a confiança no Presidente da República. O maior ataque (desde o 25 de Abril 74) à Instituição Militar e aos direitos dessa "família" tinha sido lançado, faltava apenas a "batalha" final, a promulgação.
"D. Sebastião" (O Salvador) mantinha o seu silêncio, parecia carismático; de quem tudo sabe e pode, qual Rei Salomão que acertadamente escolhe...
O último dia para a sua decisão aproximava-se, os militares contiveram a sua raiva e orgulho ferido, aceitaram a maior de todas as bofetadas até então. Calaram os seus filhos e os seus pais e acreditaram no Presidente da República (Chefe Supremo das Forças Armadas) e na sua sapiência...
...No último dia, o Presidente da República promulgou !A sentença.

Bem sei que agora o PR é outro (O sucessor do anterior mencionado), desde o início que fez questão de mostrar com orgulho que é O Chefe Supremo. No entanto...
...Não seria mais aconselhável e prático, recorrer à justiça? Eu continuo a acreditar que ela existe.
Não seria mais prático e eficiente "combater" com as mesmas armas; o recurso à Lei (tanto quanto julgo saber as leis são como a "tropa", existe hierarquia e um Regulamento não se sobrepõe ao EMFAR e este submete-se à Constituição) e aos tribunais? Não seria mais eficiente a contribuição ou "solidariedade" para um (o) fundo comum que possibilite essa defesa ou recurso?

Bem sei que a vida está difícil mas, talvez seja chegada a hora de mais actos e menos palavras; mostrar a solidariedade de modo "palpável", um pouca a cada um, mas entre muitos...
http://www.ans.pt/imagens/Cartaz_Fundo_de_Solidariedade_20NOV2005.pdf


De Camoesas a 11.04.2008 às 20:09

Imaginando que o Governo até consegue os intentos de escravidão silenciosa dos militares até à morte (reserva e reforma), será caricato:
- O ex Presidente da República, General Ramalho Eanes (Capitao de Abril), processado por delito de opinião por um qualquer General do activo, por tecer críticas à política de defesa numa outra tese de um outro curso superior que venha a fazer...
- O ex CEME, General Loureiro dos Santos, detido à saída dos estúdios de uma TV por, em directo e em flagrante delito (de opinião) comentar negativamente a política de defesa...
- Já agora, então o senhor Major/presidente de câmara, irá "piar fininho" com medo dos Generais "activos"???

Por vezes dou comigo a pensar se vivo num país ou numa anedota...

De António José Mendes Dias Trancoso a 11.04.2008 às 21:38

Meu Caro e Velho Amigo

Sei que, dada a tua frescura de espírito, não aprecias lá muito este meu tratamento de "Velho" Amigo, mas, uma Amizade que tem as suas raízes há 54 (cinquenta e quatro) anos, só com muito esforço primará pela juventude...
Deste teu precoce comício, no Miradouro da Senhora do Monte, tomei conhecimento, não posso precisar há quantas dezenas de anos.
Fizeste-me recuar aos nossos "verdes anos", quando todos os sonhos, de construção de um Mundo Melhor, ainda não se tinham transferido para o domínio das ingratas desilusões.
No entanto, os Valores que, desde muito novos, nos inculcaram, encontraram, em ti, um fiel depositário.
Dentre aqueles, destaco a Frontalidade ("antiga" Virtude Militar) que posta em prática, junto a quem a ela renegou, ao invés de justos Louvores, ter-te-á garantido a "consideração e amizade" dos poderosos "politicamente correctos".
De uma coisa, para além de muitas outras, estou certo:
Quando fazes a barba (ou o que dela não deixaste crescer) e te olhas ao espelho, tirando as inevitáveis e desagradáveis marcas do tempo, não te envergonhas do que vês.
Nisso se revêem os teus entes queridos e todos os que se orgulham de contar com a tua sempre franca e correcta Amizade.
Bem Hajas.

De A. João Soares a 11.04.2008 às 21:43

Caro Fraga,
Há um aspecto de que raramente se houve falar. Os políticos referem-se à CONDIÇÃO MILITAR, como se os militares fossem escravos mudos. Ora esse estatuto deve ser interpretado como um contrato em que os militares cediam direitos em troca de benefícios compensadores. Isto é natural e não choca ninguém,, seja mais ou menos moderno.
Porém, o governo, principalmente o actual,, retiraram essas compensações, em muitos dos seus aspectos. o que tira validade ao contrato, libertando a outra parte de cumprir a sua parte. Moralmente os militares do activo não são obrigados a prescindir dos direitos de cidadão, porque a outra parte, tendo deixado de cumprir a sua parte não tem o direito de exigir dos militares os sacrifícios a que se submeteram.
Penso que se trata de um tema a desenvolver, por um especialista de Direito Civil.
Abraço
A. João Soares

De António José Trancoso a 12.04.2008 às 02:05

Senhor Comandante
"..., por um especialista em Direito Civil." (?!)
Perdoar-me-á, mas, em questões desta natureza (política), não estaremos já fartos das "especialidades" dos especialistas?!
Os resultados, dos modelos (salvadores do encadeamento de sucessivas crises, nos mais variados domínios) por eles preconizados, não estão à vista?!
Então, o Senso Comum, não tem aqui lugar?!
Como diz, e muito bem, a derrogação, por uma das partes contraentes, não é razão bastante para a denúncia de um contrato?!
Especialista?! Para quê?!
Para demonstrar... o que demonstrado está?!
Mais; enquanto aquele elabora uma interminável tese-relatório, os pseudo-interessados, nas inerentes conclusões, consolidam, nesse ínterim, as medidas de que nunca quiseram abrir mão.
Como saberá, Senhor Comandante, "quando não se quer que alguma coisa se realize...cria-se uma comissão para estudar o assunto".
(Naturalmente, constituída por de especialistas).
Espero que não me leve a mal esta minha dissidência.

De António José Trancoso a 12.04.2008 às 10:26

CORRIGENDA
A redacção, dos dois últimos parágrafos, deverá ser substituída pela seguinte:

(Naturalmente, constituída por especialistas).
Espero que não leve a mal esta minha dissidência.

De Fernando Vouga a 12.04.2008 às 14:04

A propósito de comissões, passo a citar uma máxima da autoria de F . Allen :

"Uma comissão é um grupo de não-preparados , nomeados pelos sem-vontade , para fazer o desnecessário."
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A propósito de comissões, passo a citar uma máxima da autoria de F . Allen : <BR><BR>"Uma comissão é um grupo de não-preparados , nomeados pelos sem-vontade , para fazer o desnecessário." <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>in</A> "O Receituário de Peter " de Laurence J. Peter

De Camoesas a 12.04.2008 às 09:27

Os militares fazem um juramento de sangue. Este juramento é uma tomada de posição ética em que o militar conscientemente compromete e abdica da sua comodidade e liberdade total como cidadão, com permanente disponibilidade até ao limite da sua própria vida. Este juramento é feito pela Nação; pela independência do solo Pátrio e pela liberdade e segurança das suas gentes, o seu povo.
Sendo esse juramento feito à Nação, é lógica a dependência e obediência dos militares ao representante máximo da Nação, o Presidente da República, que é também o Comandante Supremo das Forças Armadas. Os militares juram ainda obedecer e cumprir a Constituição da República Portuguesa e as demais Leis e Regulamentos.

Temos assim que os militares não fazem um "contrato de trabalho" com o Aparelho de Estado, não se limita a uma simples relação entre empregador e funcionário, não se tratando a relação de contrato entre a pessoa que existe atrás do militar e o Aparelho de Estado ou Governo.
Numa relação entre um funcionário e o Estado é exigido um compromisso de honra em que o funcionário se compromete a desempenhar uma determinada função, sujeito a esse contrato de trabalho mantendo obviamente todos os direitos, liberdades e garantias de cidadão.

O juramento feito pelos militares, além dos compromissos éticos já mencionados, contempla taxativamente e expresso na Lei, a sua aceitação a que lhes sejam retirados alguns direitos dos demais cidadãos e exigidas obrigações mais do que a esses outros. Militar não se limita a ser uma profissão mas antes uma vocação e renuncia à cidadania de pleno direito que defende e garante para todos os restantes.
Faz ainda parte das obrigações expressas dos militares, a Solidariedade e a manutenção do "espírito de corpo", assim como assegurar a sua Respeitabilidade e o Prestígio das Forças Armadas, obrigações não exigidas em nenhum contrato de trabalho.
Chegamos assim à percepção que nestes termos, Militar não pode ser considerado como simplesmente profissão. Militar implica todas estas características peculiares que o distinguem dos demais cidadãos, seja pelo juramento ou pela abdicação de alguns direitos.

Numa perspectiva futura em que se opte por caminhar para que a Condição Militar se resuma a apenas profissão, não se poderá exigir um juramento de sangue, a dádiva da própria vida e o não usufruto de todos os direitos dos cidadãos, dos trabalhadores em geral. Seguido esse rumo (se), for a opção e vontade da Nação, teria obrigatoriamente que ser decidido por Ela própria e nunca por seus representantes temporários a curto ou médio prazo (Governo ou Aparelho de Estado). Na sociedade actual torna-se exigível um período de Informação e Reflexão, para que toda a Nação tome uma decisão Irreversível pela total quebra com a tradição e uma radical mudança de valores, regras e compromissos. Obviamente que se trata de uma questão de Referendo!

Sendo um assunto em que o voto directo da Nação decidiria o caminho a seguir, sendo matéria de extrema delicadeza e responsabilidade, necessitaria de tempo útil. Nesse interregno de Informação Meditação e Voto, (se) for essa a via a seguir (profissionalização pura, não camuflada) para haver continuidade e ser mantida a Soberania, Independência e Liberdade da Nação, teriam obrigatoriamente que ser feitos simples "contratos de trabalho" com voluntários, que apenas poderiam aceitar essa "profissão",sem juramento de sangue, e a quem fossem garantidos todos os direitos, liberdades e garantias de cidadão de pleno direito.

De Fernando Vouga a 12.04.2008 às 14:16

Penso que haverá um certo exagero na expressão "juramento de sangue". Quanto mais não seja, porque ele já foi feito por centenas de milhares de Portugueses, dos quadros permanebtes e do serviço militar obrigatório.
De qualquer forma, esse juramento não deixa de ser um contrato. Implica a doação do que jura, mas pressupõe cuidados a ter pelo Estado. Porque os militares não juram ser carne para canhão...
Voltamos assim ao ponto de partida: eliminados os pressupostos, o juramento perde muita força.

De Camoesas a 12.04.2008 às 18:15

Os militares cumprem as missões que lhes são atribuídas como missão primária e secundária, pois não existem só como "carne para canhão", em situação de conflito, pela sua existência e por esse simples facto, existindo já se tornam um meio dissuasor de qualquer agressão interna ou externa. São também atribuídas outras missões aos militares, às Forças Armadas, em situação ou tempo de paz. As Forças Armadas são geridas pelo Aparelho de Estado, o Governo, a quem compete também dotar os militares do equipamento necessário ao cabal cumprimento das suas missões. Por fim, como o seu juramento é feito à Nação, é lógico e determinado em Lei, que o Chefe Supremo das Forças Armadas seja o seu mais alto representante, o Presidente da República e não o Governo.

Devem pois os militares, estar preparados e treinados para cumprir essa função se necessário, defender o território e as suas gentes, por isso juram fidelidade à Pátria, à Nação, em juramento de voz (e por escrito os do Q.P.) em que se comprometem com a dádiva da própria vida e abdicando de liberdades e direitos garantidos aos restantes cidadãos. O militar não é um cidadão de plenos direitos, está em Lei especificada a sua limitação de direitos como as suas obrigações também não exigidas aos restantes cidadãos.
Entre vários direitos que lhe são vedados, o militar é obrigado a estar permanentemente disponível o que implica a perda ao direito à família, a sua missão e a Nação em primeiro lugar e só depois a família. Os militares trabalham também normalmente "fora das horas normais de serviço", trabalham de noite, em fins-de-semana e feriados. Todo esse esforço suplementar, contabilizado ao abrigo do Código do Trabalho, resultaria sempre num valor superior à vida do militar do quadro permanente (Q.P.), no fim da sua carreira.
Todo o conjunto Legal aplicável aos militares, com todas os seus deveres, limitações e obrigações (alguns direitos também) é a chamada Condição Militar.

Quando em situação de conflito ou ameaça (terrorismo), agressão interna ou estrangeira, ou em situação de calamidade pública (oficialmente declarada ou não), a sociedade civil clama pelos militares. As Forças Armadas fazem o seu melhor, com os meios que lhes estão atribuídos e cumprindo as ordens e decisões do poder político.

Resumindo; os militares só podem fazer o que o poder político lhes permite e com o suporte que estes mesmos lhes poem (ou não) à disposição para o cumprimento das suas tarefas.

E sim, concordo que esse "juramento de sangue" possa ser entendido como um contrato (um juramento é um pacto, implica duas partes) que sendo quebrado por uma das partes, "liberta" a outra ...
...Esta talvez seja a parte que o poder político está perigosamente a esquecer!

De MANUEL CLEMENTE a 12.04.2008 às 01:47

CARO FRAGA,UM ABRAÇO

DEVIAS MANDAR ESTE TEU TEXTO PARA O BLOGUE DA A25A .

Aonde é que estamos a chegar????
Isto é mais do que um pesadelo.

De António José Trancoso a 12.04.2008 às 11:15

Caro Manel
É com muita satisfação que registo a tua intervenção.
O Fraga, nosso velho Amigo, merece todo o apoio da Gente de Bem.
Gente essa que este "governo socialista em liberdade" intenta amordaçar.
O processo disciplinar instaurado a um Reformado mais não é que um "balão de ensaio"...
Balão esse que, pelo que se tem visto, corre o risco de rebentar na cara do(s) seu(s) Autor(es).
Dizes que o texto deveria ser enviado para o blog da A25A...
Os teus afazeres, muito provavelmente, não te terão permitido verificar a projecção que toda esta situação tem tido na blogosfera.
E, sinceramente - sem pretender desprestigiar quem quer que seja - não me parece que, tanto o Fraga como o seu Fio de Prumo precisem de qualquer bengala para se afirmarem.
Um abraço.

De Sérgio Miguel a 12.04.2008 às 23:14

"Acima de tudo, é estranho que as chefias militares, segundo o despacho da Lusa, hajam trabalhado com o Ministério da Defesa". Desculpe o meu Coronel, acha estranho? Até parece que não está a sentir na pele o excelente trabalho dos "homens sem dignidade" que estão sob a "asa" do Sr. Ministro. Abraço e continue com força e determinação, não deixe que uns poucos manchem a honra, dignidade e bravura de outros!

De Jofre Alves a 13.04.2008 às 04:17

Venho de novo, e sempre, expressar a minha modesta solidariedade e relembrar que os militares não são escravos, sendo gente de grande integridade e verticalidade, que não se pode amordaçar e achincalhar. Digo-o plenamente consciente, até, na condição de quem não fez o serviço militar. Um abraço e boa semana.

De Camoesas a 14.04.2008 às 21:12

As homenagens fazem-se em vida, a democracia em Portugal está moribunda!

Acaba por ser irónico, a poucos dias de se comemorar (porquê?) mais um 25 de Abril, somos confrontados com toda esta situação (balão de ensaio como já lhe chamaram) em que se testa num cidadão exemplar e militar ilustre, a aberrante proposta de alteração ao RDM que visa silenciar os cidadãos/militares até à hora da sua morte.
Personalidades públicas como os generais Loureiro dos Santos, Espírito Santo, Rocha Vieira, Garcia Leandro, Martins Barrento, Fernando Paula Vicente e Lemos Ferreira… bem como cidadãos sem farda dos quais se destaca Joaquim Letria, tomaram posição nos OCS e demarcaram-se desta “sujidade” e prepotência ditatorial.

Se por um lado o Coronel reformado (Luís Alves de Fraga) sabe com o que conta por parte dos seus “iguais”( leia-se militares), o ilustre Professor Universitário (Luís Alves de Fraga) terá certamente um “exército” de alunos que no mínimo o admiram e estimam. Para além, é claro, de “anónimos” cidadãos (dos quais faço parte) que sentem o prazer de ler os seus escritos (Senhor Luís Alves de Fraga) e saborear as virtudes de uma vida passada e revista em jeito de memórias, ideias, comentários e pensamentos, no seu blogue.

Deparei com este “Porto de honra de solidariedade” para com o Coronel Rf Luís Alves de Fraga, e volto ao início deste texto: “As homenagens fazem-se em vida”!

http://www.ans.pt/imagens/portohonra.jpg

Certamente chegará a sua vez (que só lhe desejo ser daqui a muitos anos e quando a Liberdade e Democracia porque continua a lutar, estejam de facto implantadas em Portugal), como a minha e a de todos nós mas, que ninguém venha mais tarde a arrepender-se de não ter comparecido ou faltado a esta demonstração de afecto por uma das cada vez mais difíceis de encontrar, rectas pessoas, como um “fio-de-prumo”.

Não só os militares, também os alunos e os portugueses livres e anónimos que prezam e estimam a pessoa por detrás do Coronel, bem-haja Senhor Luís Alves de Fraga!

De A. João Soares a 15.04.2008 às 16:26

Caro Alves de Fraga,
Estive uns tempos sem cá vir, mas tenho continuado o apoio à sua causa nos meus blogs.
Agradeço aos comentadores que pegaram na minha ideia do «contrato», os quais no fundo aceitaram , embora com ópticas diferentes, essa imagem. Os ideais militares que os oficiais do QP beberam nos bancos da escola e o juramento de fidelidade à Pátria são fundamentais, mas estão a ser aproveitados pelos políticos para se servirem dos defensores da Pátria como se fossem escravos, cuidando menos deles do que os cavaleiros cuidavam das suas montadas.
Sempre os governos consideravam que, para ser feita tanta exigência aos cidadãos militares, era necessário e justo atribuir-lhes compensações para minorar as dificuldades que o serviço lhes acarretava.
Ultimamente desde o ministro Fernando Nogueira essas compensações têm-se esfumado e os militares estão a ser considerados como um peso inútil, algumas vezes substituídos pela GNR, que não merecem o dinheiros do orçamento.
E não temos tido generais com coragem para bater o pé aos políticos. Mas sabem levantar processos disciplinares aos militares que levantam a voz e passeiam na baixa em protesto contra este estado de coisas.
Os meus parabéns ao Ten Cor Alves de Fraga pelo apoio que está a ter.
Abraços
A. João Soares

De António José Trancoso a 15.04.2008 às 19:32

Comandante A. João Soares
Permita-me uma correcção:
O Autor deste blog não é Ten-Coronel; é Coronel.
O seu a seu dono, como compreenderá.

De Fernando Vouga a 15.04.2008 às 22:35

Caro João Soares

Esta mordaça que pretendem colocar na boca dos reformados militares é pura desculpa oportunista. Reformados há muitos: pobres e ricos, políticos e militares, juízes e médicos, trabalhadores e funcionários públicos, magistrados e diplomatas. Todos diferentes mas todos iguais, na medida em que todos estão libertos dos compromissos e restrições que as suas funções lhes impunham. Todos? Não. Os militares reformados, vá-se lá saber porquê, ficam sujeitos à lei da rolha até à hora da morte. Apesar de terem deixado de ser definitivamente "cidadãos armados". Afinal onde é que está a igualdade dos cidadãos perante a Lei?

De António José Trancoso a 15.04.2008 às 23:39

Caro Fernando Vouga
Os Juízes Jubilados estão sujeitos a algumas limitações, limitações essas que, de todo em todo, não podem, nem devem, ser enquadradas, ou transpostas, na, e para, a Condição Militar.
De resto, a protecção, que o Estado dedica, por um lado, aos Magistrados e, por outro, aos Militares, não é equiparável.
Já foi, mas, já não é.
Contudo, todos os cuidados não são demais, porque a "tendência governativa" pende quase sempre, nestas situações, para o nivelamento das contrariedades.
As benesses, essas, já têm destino predestinado.
Um abraço.

De Fernando Vouga a 16.04.2008 às 13:06

Caro António Trancoso

O meu amigo não deixa escapar nada...

Eu não quis entrar em pormenores. Mas é claro que há muitas profissões que obrigatoriamente limitam o uso da palavra aos seus profissionais na reforma . É o caso dos médicos, advogados, diplomatas, magistrados e outros que agora não me ocorrem. Mesmo os militares reformados continuam, e bem, impedidos de revelar assuntos classificados.

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