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Fio de Prumo



Terça-feira, 29.01.08

Políticos corruptos, em Portugal?

 
Corrupção é coisa que não existe em Portugal! Isto, toda a gente sabe! Aliás, todos nós nunca convivemos com corrupção! Nem com ilegalidades! E o mal é este de sermos completamente virgens e, consequentemente, inocentes, em tais matérias.
 
Vou dar-me como exemplo. Filho de uma família da pequena burguesia urbana de Lisboa, nascido durante os anos difíceis da 2.ª Guerra Mundial, convivi, ainda criança, com as célebres senhas de racionamento e as infindáveis bichas, ou como agora se diz, fugindo ao brejeiro brasileirismo, filas do peixe e de outros géneros com que a minha Mãe tinha de alimentar a família. Claro que nessa época de falta e consumo controlado nunca houve falcatruas, nunca houve padeiro que fizesse misturas ilícitas na farinha, nem distribuidor de leite que tivesse urinado no dito para acrescentar mais um litro ao precioso líquido necessário ao alimento das crianças! Não, porque em Portugal sempre imperou a honestidade! Claro que não houve armazenistas que praticassem o açambarcamento para depois venderem mais caro o que haviam comprado a preço de dez réis o mel coado! Claro que nunca houve fortunas feitas de um dia para o outro e que ninguém sabe explicar! Claro que muitos homens da minha idade que usufruíram de uma excelente vida, quando os pais haviam nascidos tão pobres como Job, não fazem ideia nenhuma do que tenha sido corrupção e desonestidade! Foram milagres! Foram outras tantas Senhoras de Fátima que apareceram a uns pobres pastores conferindo-lhes poderes mágicos para ficarem ricos como Ali-Babá! Porque corrupção nunca houve em Portugal!
 
Senhores chega de ironia!
Eu cresci os meus primeiros anos a conviver com corrupção e com corruptos! Digo-o sem qualquer tipo de receio.
Quando ia, diariamente, às compras com a minha Mãe bem ouvia ela dizer ao talhante lá do bairro: — Senhor António, um quilograma de bifes, mas dos especiais — e lá ia o senhor António à câmara frigorífica especial tirar um bom naco de carne tenrinha e cortar os desejados bifes. Bifes que eram vendidos acima do preço tabelado, claro está! A minha saudosa Mãe, na ânsia de pôr na mesa o melhor, de alimentar a família com carne, peixe, manteiga, chouriço e outros artigos de qualidade extra, alimentava, também, contra-vontade, a corrupção dos pequenos comerciantes que, entretanto, já tinham vivendas nos arredores de Lisboa.
Foi com esta corrupção que eu cresci.
Com ela cresceram todos os jovens da minha geração e das gerações mais próximas. Habituámo-nos a ver pactuar com a falcatrua. Mais. Habituámo-nos a fazer parte da falcatrua. Mas, estávamos, vão-me dizer, em ditadura! Uma vez mais, tenho de dizer: claro! Estávamos em ditadura e se não houvesse esta cedência perante a corrupção iríamos comer os bifes mais duros que houvesse nos talhos de Lisboa, nos talhos de Portugal! Iríamos, nós a gente da chamada classe média remediada ou abastada, porque os pobres nem bife tinham para comer…
 
O medo da denúncia política cresci eu com ele, convivi com ele. Todavia, tive, também, sempre medo das consequências da denúncia da corrupção, por causa das consequências… Depois não havia à mesa aquelas coisas boas de que eu tanto gostava!
Foi este sentimento que moldou gerações e gerações de Portugueses e possibilitou que nuns se fosse implantando a cumplicidade do silêncio e noutros a certeza da impunidade.
 
Quando um afoito bastonário da Ordem dos Advogados vem dizer «existe em Portugal uma criminalidade muito importante, do mais nocivo para o Estado e para a sociedade, e que andam por aí impunemente alguns a exibir os benefícios e os lucros dessa criminalidade e não há mecanismos para lhes tocar. Alguns até ostensivamente ocupam cargos relevantes no Estado português» há cadeiras que estremecem como resultado do tremor que se apoderou de quem nelas está sentado. António Marinho Pinto não tem medo de comer bifes duros ou, até, de não comer bifes! Mas o tremor de quem treme não resulta do medo… provém da raiva. Raiva, porque alguém com responsabilidades na sociedade civil ousou fazer uma acusação que muitos fazem sem terem a audição do bastonário.
O impoluto engenheiro Cravinho já havia sugerido, em tempos, a aprovação de uma lei contra a corrupção… Despacharam-no para bem longe! Igual sorte teve Ferro Rodrigues. Será que vão mandar Marinho Pinto para outro lugar que não aquele que os seus pares lhe atribuíram?
 
O bastonário, face aos níveis de corrupção que todos os dias se verificam no nosso país, tinha de começar por algum lado e começou por atacar o Governo, pois dele dimana o exemplo — o mau e o bom. Agora, clama-se que Marinho Pinto tem de fazer prova, denunciando. Ora essa! A prova de inocência tem de ser feita pelo acusado; por todos quantos, como há sessenta anos ocorreu, de um dia para o outro, deram sinais exteriores de riqueza! Cabe ao Estado identificar esses sinais e, se o Estado nada receia, porque nada receiam os seus agentes, deve pedir as explicações que entender.
 
Claro que Marinho Pinto sabe, tão bem como eu sei, que as suas palavras só vão servir para ocuparem um parágrafo — pequeno — na História da actualidade, porque Portugal, todo o Portugal, todos nós, é uma Nação de corruptos. Corruptos, porque colaboramos passivamente com a corrupção ou porque somos agentes activos da mesma. Cada um que escolha o lugar que mais lhe convém!
Eu, tal como o bastonário da Ordem dos Advogados, já optei: acuso. O leitor fará como melhor lhe convier.

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por Luís Alves de Fraga às 09:22


21 comentários

De H.U. a 29.01.2008 às 16:32

O Sr. Luís Fraga trata as coisas pelo nome. Concordo com tudo que diz no seu comentário. Os corruptos estão bem protegidos. O dinheiro roubado ao Povo dá para os corruptos comprarem tudo e virarem a caça contra o caçador. Eles abafam tudo. Portugal está minado de lés a lés. Todo aquele que for sério está condenado a ser abatido. Ou vende-se, ou cala-se. O Bastonário que se cuide, porque os corruptos não lhe perdoam e já começaram a movimentar-se. A podridão atingiu grandes patamares e. Está solidificada.

De António José Trancoso a 30.01.2008 às 08:35

Está solidificada... e consolidadada no "arranjo" do Código Penal, isto é, do Código Despenalizador das grandes pouca-vergonhas.
Nunca julguei que, quase cinco décadas depois, em Democracia, os "VAMPIROS" de Zeca Afonso fossem tão actuais!!!

De Rui Saraiva Alves a 03.03.2008 às 10:36

Gente célebre da Sociedade Portuguêsa abordou (…e ao que parece, ainda aborda) rapazinhos na idade da adolescência, para praticar abusivamente actos de ordem sexual.
O “stock” destes rapazinhos era – e ha inqueritos em curso que dizem, ao que parece, que ainda é - a Casa Pia, onde pseudo-angariadores estabeleciam o contacto e organizavem certos encontros e segundo a imprensa, no seio de uma certa burguesia-politca-partidaria e não sei se filosofica ou tradicional...!
O que é certo é que o escandalo saiu para a rua e a questão encontra-se ainda sem qualquer resolução, pois ao que parece a magistratura não conseguiu magistrar o suficiente.
Ha pouco mais de um mês, difundiam as cadeias de TV uma afirmação feita pelo novo Bastonario da Ordem dos Advogados, em que este dizia que tudo se tratou, nem mais nem menos de uma manobra destinada a enfraquecer o Partido Socialista...
Arrojada afirmação e quanto a mim, afirmação esta que saiu com muito pouco esclarecimento...
Como o Direito é por vezes “habil”, tentei reflectir sobre a questão e confesso que não consegui entrever o detalhe de tal manobra cujo fundamento era o de destabilizar o maior-partido-politico-de-Portugal !
Mas, quem o diz; é porque “o” sabe!
O BASTONARIO DA ORDEM DOS ADVOGADOS QUE SE CUIDE...
Descobri esta frase neste Blog, e afirmada pelo nosso Amigo H.U.
Pareceu-me ver no “que se cuide”, uma dupla afirmação e que gostaria de esclarecer:
- Que se cuide porque falou demasiado, o nosso Bastonario; ou, que se cuide, porque não varreu diante da propria porta antes de assinalar “o lixo” diante da porta dos outros ?
De facto o Dr. Marinho aborda aqui uma questão deveras delicada: a questão da corrupção a alto nivel.
Eu pergunto:
- Quando um Juiz tem que julgar um corrupto, em que ambos, Juiz e Réu frequentam a mesma linha de pensamento...como é que as coisas se passam?
- Quando no seio de certas tradições ha trafico de influências...como é que as coisas se passam?
Cordiais saudações e um forte abraço para o meu Amigo H.U.

De jose antonio borges da rocha a 29.01.2008 às 19:14

Que belo raciocínio, retirado em parte duma experiência de vida.
A sua opção é também a minha por isso junto a minha voz, palavra, nome ou o que for preciso à voz do meu Coronel e do Dr M Pinto

Saudação efusiva

De António José Trancoso a 29.01.2008 às 21:06

Meu Caro Alves de Fraga
O meu comentário, ao teu oportuníssimo post, limita-se a aconselhar os "habitantes" portugueses a ouvir, e/ou, a ler, com a devida atenção, o discurso proferido, hoje, pelo Bastonário da Ordem dos Advogados, na sessão de abertura do ano judicial.
As carapuças serviram à justa a muitas cabeças.
O incómodo causado, à ilustre assistência, foi tão visível que até doía...
Como diz o primeiro comentador, o frontal e destemido Bastonário que se cuide; anda a mexer num autêntico fosso de víboras.

De Fernando Vouga a 30.01.2008 às 00:10

E é por essas e por outras que a Madeira quer ser independente. Porque aqui, neste jardinal cercado de água por todos os lados, não se sabe o que é corrupção. Aqui ninguém enriquece de um dia para o outro. Porque todos vivem na abundância paradisíaca deste oásis de prosperidade. Ninguém precisa de roubar...

De António José Trancoso a 30.01.2008 às 09:08

Ahhh!!!

De António José Trancoso a 31.01.2008 às 02:26

Meu Caro Monteiro Vouga

Refeito do espanto, dou a mão à palmatória por ter feito maus juízos fruto de boatos maledicentes.
Mas não só...Também acreditei na senhora deputada, do PSD/M, Sara André.
Afinal, ela terá sido tão, ou mais, enganada que eu próprio! E não é que aquela ilustre tribuna tem responsabilidades acrescidas!?!...
Se calhar teve algum pesadelo (com mafiosos) e, ainda estremunhada, esquecendo o discurso da norma, do costume e do lugar, em jeito de catarse, reproduziu a substância do inquietante sonho.
Coisas que acontecem, sem má intenção. Tanto que o Chefe ( que sonha com muita frequência e se afirma perseguido por toda a sorte de malfeitores) a compreendeu muito bem e, até, para apaziguamento da traumatizada senhora, lhe subscreveu a tirada.
E...Viva o Paraíso!

De Rui Saraiva Alves a 03.03.2008 às 10:31

João em 9:25

De Maquiavel a 31.01.2008 às 06:14

Concordo com a análise. No entanto em relação ao eng Cravinho não tenho tantas certezas. Porque demitiu o Gen Garcia dos Santos da JAE? E por que se deixou exilar? O emprego é bom!Maquiavel

De Fernando Vouga a 31.01.2008 às 17:45

Caro Maquiavel

Colocar Cravinho à frente da luta contra a corrupção é como nomear um crocodilo para tomar conta de um infantário. Se não fosse trágico, era uma grande anedota.

De mAQUIAVEL a 01.02.2008 às 13:46

SR. FERNANDO VOUGA
Infelizmente não fui claro no meu comentário. Concordo plenamente com o sr e com a imagem que ilustra a sua opinião.

De Davi Reis a 15.02.2008 às 00:31

Entrevistei, em tempos, o Dr. Marinho Pinto. Considero ser ele um farol da liberdade no nosso País; um farol que nós, honestos portugueses, devemos valorizar e apoiar. Um homem verdadeiramente corajoso que merece o cargo que ocupa, ao contrário da grande maioria. E Marinho Pinto não ficará por aqui...

Um abraço fraterno, Professor

De Joscoelho a 15.04.2008 às 14:19

Meus caros concidadãos,
Ainda bem que a coragem não esmoreceu neste país. Bem haja Luis Fraga por este espaço de ideias e reflexão sobre os valores da Nação. Também nasci a ver os agentes do governo a roubar o pouco que existia nas casas dos trabalhadores do campo, cereais, porcos e ovelhas que tanta falta faziam para alimentar uma prole de 7 filhos. Jamais esquecerei uma cena onde a minha mãe, ajoelhada à frente do seu tio "regedor" da freguesia, pedia que deixassem alguma coisinha para dar de comer aos filhos. Ao que o tio regedor respondeu: "minha filha, são ordens de Lisboa". Os anos de 1943 a 1945 foram de fome e tristeza.
Corrupção está bem instituída nos organismos públicos, sendo um dogma bem aceite pelos partidos que nos desgorvenam. Estou a fazer um trabalho para divulgar no Blogue "vaidinamite.blogspot.com" referindo diversas formas de corrupção com as quais já convivi..
Um abraço do Jorge Sousa

De martins a 23.06.2008 às 01:35

adorei este blog, mts parabens....mas quanto ao senhor que nao me recordo o nome que comentou sobre a madeira , só lhe digo que nunca vi poder tao corrupto e mafioso como esta ilha, sem liberdade de expressão "o medo e os compadrios pairam no ar" uma mistura de fascismo e ditadura constitucional.....querem independencia....para roubar e comerem mais do que ja comeram ao povo.......... com espetadas, e grupos pimbas cobrando fortunas... ganham assim os votos....tapando o buraco financeiro com festas e arraiais, para enganar o povo que nao vê mais além............desculpem a minha ousadia em utilizar frases deste blog mas sou artista plastico representando melhor na tela do que em palavras e tenho uma pintura de manifesto...no meu blog http://artegoncalomartins.blogspot.com "allways the same rats"......como disse Che "mais vale morrer de pé que viver ajoelhado"

obrigada

De Anónimo a 14.07.2008 às 08:26

Haja o que houver nesta Ilha... sempre é melhor, mais integra e mais bem governada do que o resto do país. Muito me estranha que tanto mal se diga da Minha Madeira e se continue cá a viver.
Quem não está bem que se mude.
Quem para cá vem ocupar os postos profissionais que por direito são dos madeirenses, que fique na sua terra com a sua maledicência .
E não me acusem de xenófoba . acusem-me de ser Madeirense.

De Moinas a 23.04.2010 às 21:10

Este povo!!! Por favor, parem de criticar a corrupção e a (in)justiça! Trabalhei a vida toda, e agora que decidi tornar-me corrupto e gatuno é que toda a gente começa a falar disso. Lá diz o ditado, se não os podes vencer, junta-te a eles. Parem de criticar e se acham que a trabalhar não vão lá, despeçam-se, peçam o rendimento mínimo, arranjem um trabalho onde não descontem e se vos descobrirem subornem os serviços das finanças e da segurança social. Caso isso não funcione, comecem a roubar e se também forem apanhados, confiem na (in)justiça. Na pior das hipoteses, é comida, cama e roupa lavada uns meses!

De futuro a 14.11.2010 às 12:52

um dia chegará a revolta mas quando isso se verificar garantia de que esses corruptos que sugam o povo serão degolados, até me admiro como é que não começaram já a tombar neles é tão fácil abater esses abutres.....vontade não me falta...veremos, o futuro de nós dirá !

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