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Fio de Prumo



Quinta-feira, 17.01.08

O Banco de Portugal

 
Corre na Internet, há já bastante tempo, uma informação que não sei se é verdadeira: o Governador do Banco de Portugal, Dr. Vítor Constâncio, aufere mais salário anual do que o Presidente do Banco Federal Norte-americano.
Complementarmente diz-se que os administradores do Banco de Portugal recebem verdadeiras pequenas fortunas, estejam ou não a exercer funções, isto é, mesmo já depois de reformados.
 
Não quero acreditar na verdade desta informação. Ela tem de ser falsa!
Quando, no país, se «aperta o cinto» a torto e a direito, se exigem os maiores sacrifícios às populações que ficam sem serviços hospitalares de urgência, se congelam progressões de carreira, se retiram pequenas regalias a determinadas profissões, nomeadamente a castrense, permitir que se paguem exorbitâncias escandalosas a uns quantos senhores só pode ser ou mentira ou uma afronta, mesmo tendo em conta a sua competência profissional. Ganharem mais do que se paga a detentores de cargos idênticos nos países mais ricos do globo, só pode ser possível por mero engano do Estado.
 
Afrontoso é permitir que se pratiquem salários, mesmo na actividade privada, que excedam determinados valores medianamente aceitáveis. Não se pode invocar, como justificação, a livre concorrência do mercado, porque, se assim for, tem de se perguntar onde está a acção moralizadora do Estado. Ela não pode existir para equilibrar o orçamento à custa do sacrifício do cidadão comum e ausentar-se quando convém para não interferir nas benesses por outros alcançadas. O Estado, através dos Governos e dos governantes, tem de ser um juiz imparcial e, tanto quanto possível, equitativo. O Estado tem de fazer funcionar mecanismos fiscais que recaiam sobre quem aufere salários exorbitantes para os corrigir rumo a valores que estejam em consonância com um padrão previamente determinado.
Se o Estado não exercer a função de estabilizador da justiça social, se se demitir do exercício dessa função está a emitir sinais perceptíveis por todos quantos sejam capazes de fugir às suas obrigações sociais. Por outras palavras, está a deixar que cada um e cada qual roube, a seu bel-prazer, o próprio Estado. Depois, não pode exercer uma feroz perseguição sobre todos os que não conseguem ou não querem agir com desonestidade.
 
A liberdade do mercado pode existir, mas ela será fonte permanente de injustiças se não for corrigida pela acção fiscal do Estado, tirando uma elevada fatia a todos quantos ganham em excesso. A correcção deve ser orientada para uma redistribuição indirecta de benefícios sobre os grupos sociais mais débeis, quer através da rede de instrução pública, da rede de saúde pública ou mesmo da rede de segurança social, em particular reforçando os rendimentos de todos quantos atingiram a reforma com baixos valores financeiros.
 
Este tipo de Estado só não se reimplanta na Europa, porque a União, como um todo, privilegia a economia em detrimento da sociedade. A Europa do Mercado Comum Europeu era uma Europa para satisfazer e ampliar a classe média destruída pela 2.ª Guerra Mundial; a Europa da União Europeia é uma Europa para beneficiar os grandes grupos financeiros europeus e globais. Os objectivos distorceram-se e dessa distorção estamos nós, os Portugueses, a sofrer as consequências, porque nos dez anos de cavaquismo não se soube, nem quis, fazer a grande viragem para o modelo que já se adivinhava. Continuou, como se continua, a apostar no investimento que se não reproduz: o das grandes obras públicas. Mas isso é matéria para um outro apontamento.

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por Luís Alves de Fraga às 22:36


4 comentários

De José Tavares a 18.01.2008 às 15:28

O Banco de Portugal a existir ( e ainda ninguém desmentiu) não é caso único. Veja-se o que diz hoje o jornal "O Público " sobre o caso do sr .Paulo T. Cruz que aufere mensalmente e de forma vitlícia 35 ME além de 10 ME de indemnização. Poder-me-ão dizer que é uma empresa privada. Muito bem, mas seré moral num país de miséria como o nosso? A mim todos os meses me tiram dinheiro da pensão a título de de desconto para a saúde e ptenho-a congelada por ter sido servidor do estado enquanto o regime geral no mesmo quantitativo foram aumentados.Onde está a justiça de tudo isto? Continuo a perguntar se era isto que os militares que fizeram o 25A pensaram que vinha a suceder? Acaso não estarão eles a sofrer estas arbitrariiedades? Reponda quem souber? Zé Tavares

De António José Trancoso a 18.01.2008 às 21:37

Meu Caro Amigo
Sob pena de me repetir, não posso deixar de expressar a convicção de que a Europa é, cada vez mais, um magnífico lugar para alguns, e, uma desilusão para a generalidade dos seus habitantes.
Sim, habitantes, ex-cidadãos.
A estes compete "calar e privar-se"; aos "cidadãos encartados" compete "falar e banquetear-se".
E para que não haja a veleidade de alterar esta situação, concerta-se a aprovação, do texto legal que a consagra, à revelia dos "habitantes".
Como George Orwell continua actual...

De João Mendes a 20.01.2008 às 13:01

Não acredito
Grossa era a aldrabice reinante no BCP para que a um presidente derrotado seja dada tão indecorosa maquia para se retirar.
Óbvio que não se trata de reforma mas antes pagar o preço do silêncio de quem sabe TUDO e não se coibirá de deixar "escapar" para os media pistas comprometedoras.
Afinal de contas quem passou a papelada para alguns jornais?! O Berardo? E quem a fez chegar ao Berardo?
Nada tenho e nada terei no BCP e incentivo quem tem a retirar-se. Os outros serão melhores? Tenho dúvidas que a aldrabice seja matricial apenas no BCP mas... deste já sabemos que não era governado por gente séria.
É óbvio que esta indemnização envergonha quem a recebe. Moralmente é um roubo!
Mais cedo ou mais tarde, a continuar esta escandaleira vamos ter a malta na rua para fazer uma limpeza geral na cambada que vem comprometendo o futuro do País.
Eu lá estarei outra vez.
E, a bandalhos deste calibre, não oferecerei um cravo.

De João a 21.01.2008 às 19:40

È óbvio que quem lê e quem comenta este Blog está no caminho certo...faz falta de tempos em tempos...e acho que já vai sendo tempo...!!!
Vamos lá a ver se não encerra coerecivamente, e se não vamos todos pró Tarrafal. Abraço a Todos.

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