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Fio de Prumo



Sexta-feira, 28.12.07

Os novos proletários ou os grandes medianos

 
Há duas palavras que, quando as oiço no discurso político, me soam de modo anacrónico: proletário e trabalhador. Realmente, já vão distantes os anos em que fazia sentido o uso de tais vocábulos; com a queda do bloco socialista e a, pelo menos aparente, inaplicabilidade do pensamento marxista-leninista às sociedades actuais dá-me a sensação de não ser aconselhável introduzir no discurso político os termos gastos e conotados de trabalhador e proletário.
 
Se começarmos por nos interrogar sobre quem é trabalhador chegamos ao simples resultado de que, hoje em dia, ninguém se quer identificar com a imagem de indivíduo abastado que nada faz na vida, ainda que tal aconteça. Pessoalmente, conheço vários que vivem de rendimentos e não produzem peva, com rigor e em sentido literal, nada fazem na vida que tenha qualquer valor económico, cultural ou, até, social. Mas são lestos em dizer-me que andam estafados de tanto trabalhar.
 
Se formos procurar quem, nos dias que correm, se identifica com o tradicional conceito de proletário — aquele que, por não possuir nada de seu, vende a sua força de trabalho — ficamos abismados perante o imenso mundo de proletários onde estamos submersos.
Temos, por conseguinte, uma sociedade de trabalhadores, quase plena de proletários. De facto, proletário já não é só o operário fabril nem o camponês sem terra; proletários são todos quantos vivem de um salário que é pago em troca de um trabalho que desempenham. Proletário é o administrador de uma grande empresa multinacional, que de seu tem os bens adquiridos com os valores excedentários dos seus salários, tal como o é o mais modesto empregado dessa mesma empresa. A grande diferença situa-se num único plano: o administrador defende um status quo que lhe garanta maiores rendimentos mensais, mesmo que à custa da exploração da mão-de-obra dos empregados e o modesto funcionário exige um mais justo pagamento do seu trabalho. O que ambos não descobrem é que são vítimas do mesmo patrão — embora, está claro, ser vítima como administrador corresponda a uma grande regalia. Evidentemente que este último é vítima ainda que só no plano teórico, pois, por muito bem que seja pago é-lhe sempre devido mais do que aquilo que recebe, porque nunca lhe é dado o verdadeiro valor que ele tem para o patrão.
 
E quem é o patrão? É um conjunto de grandes e pequenos accionistas que julgam manter a direcção efectiva sobre o seu capital, todavia, por muito que se achem senhores das grandes decisões elas pertencem, realmente, aos técnicos superiores que são seus empregados; são eles quem estuda a maior e melhor rentabilidade do dinheiro investido, são eles quem sugere, impositivamente, a forma de aplicar os lucros, os mercados a conquistar, as deslocalizações a fazer. Numa palavra, são os proletários de alto gabarito social da empresa quem toma as decisões das quais vão ser beneficiários e vítimas. Abaixo destes estão os restantes novos proletários que constituem aquele estrato social que poderíamos designar por grande classe média que exclui todos os que rondam o limiar da pobreza. É sobre ela que recai o pagamento da factura fiscal, porque os proletários de alto gabarito da empresa se encarregam de encontrar processos de fuga à grande carga de impostos quer através de malabarismos contabilísticos quer por intermédio da sua influência junto dos detentores do Poder político — outros proletários dependentes do rendimento do Estado.
 
Em face deste esboço social e económico, que não anda longe da realidade dos dias da globalização, cabe e apetece perguntar: — Quando surge a nova ideologia política que se constrói para fazer face à actual situação, opondo-lhe uma lógica de combate?
Esgotado o marxismo-leninismo será que o marxismo encontra em si mesmo capacidade de renovação para se adaptar ao novo quadro sócio-económico?
O apagamento do Estado, enquanto agente regulador das crises económicas, parece repor um quadro já vivido no século XIX, contudo, o capitalismo do século XXI não tem nada a ver com o de há duas centúrias. Assim, parece, também o marxismo nada pode trazer de definitivo. Mas a grande classe média exige, na sua qualidade de proletária uma solução, uma doutrina, uma ideologia nova e renovadora que não fale em trabalhadores nem em proletários, mas em medianos.

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por Luís Alves de Fraga às 21:26


2 comentários

De Davi Reis a 04.01.2008 às 03:46

Caro professor, que nova ideologia política construída para fazer face à actual situação, opondo-lhe uma lógica de combate, seria essa? Um adequação necessária do marxismo?

Um excelente ano para si e para os seus, e um forte abraço fraterno.

De António José Trancoso a 06.01.2008 às 11:13

Meu Caro Amigo
Como se sabe, em teoria, a espiral da História do Homem identifica "livres" Colectores, Escravos, Servos, Proletários e, novamente, "livres" Comuns, coexistindo, os estádios intermédios, com Amos, Senhores e Capitalistas.
Mas, de facto, será que a "Nomenklatura" não terá estado, e está, desde sempre, presente?!...
Se assim for, os teus Medianos, afinal, não passam da condenada variação dos mesmos explorados de sempre.
Porém, nem tudo é mau; têm a Senhora de Fátima e a consolação de uma feliz Vida Eterna.

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