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Fio de Prumo



Sábado, 08.12.07

As Estrelas da política

 
Quem não se lembra da Edite Estrela, comentadora de Língua Portuguesa na televisão? Provavelmente, só os mais novos dos meus leitores, porque os entradotes devem recordar-se, suficientemente bem, dos notáveis dotes docentes dessa, então, jovem professora. Se a memória não me atraiçoa, até o Herman José terá tido problemas do foro judicial por causa de uma qualquer blague que fez a propósito dos atributos da Edite Estrela. Enfim, outros tempos e outras andanças.
 
Da Língua Pátria a licenciada Edite Estrela — por parte do ex-marido, entenda-se — passou a servir a Pátria em lugares de mais importância e mais destaque: deslocou-se para a política e filiou-se no Partido Socialista.
 
Dominando a Língua na perfeição, não lhe foi difícil fazer carreira no Partido do Dr. Mário Soares, passando de líder para líder sem grandes sobressaltos, facto que lhe permitiu vir a ocupar lugares de destaque, nomeadamente, presidente da Câmara Municipal de Sintra. Nessa altura ganhou estatuto de grande senhora no PS. Ei-la recompensada de tantas canseiras, correndo a ocupar o lugar de deputada no Parlamento Europeu. Um bom lugar para poder fazer um pequeno pé-de-meia necessário para mais facilmente enfrentar a descida da curva da vida, porque já não é assim tão nova como quando apareceu na televisão a ensinar-nos Português.
 
Há tempos, uma dessas revistas semanais — a Sábado —, logo na primeira página, chamava a atenção para a notícia que se desenvolvia no interior: Edite Estrela, não satisfeita por ganhar uma excelente maquia no Parlamento da União, tinha resolvido dar emprego como seus assistentes à enteada — D. Marta Vieira — e ao seu genro — Sr. Pedro Garcia Cardoso. Não é nada mau como aconchego financeiro e trampolim para outros voos políticos se os escolhidos tiverem jeito e capacidade de adaptação.
 
Não é o orçamento nacional quem lhes paga?! Não me interessa. São pagos por um orçamento feito à custa dos impostos de alguém e isto, no mínimo, é vergonhoso, para não ter de considerar que eticamente não está correcto.
 
A Edite Estrela não é a única. O Dr. Pedro Santana Lopes, tanto quanto julgo saber, também nomeou para seu assistente ou assessor no Parlamento nacional, o filho. Esse já é pago, sem sombra de dúvidas, à custa do nosso dinheiro!
 
Não se trata de discutir a importância dos pagamentos. Isso é ridículo e, até, mesquinho. Não é por uns milhares de euros que os orçamentos da União ou de Portugal vão ao caminhar para um maior deficit. Não senhor!
Realmente chocante é que os sistemas delatórios do aparelho do Estado funcionem para perseguir aquele que contou uma graça sobre o tão famoso grau de licenciado do primeiro-ministro e não funcionem para evitar que sejam permitidos estes desvios éticos que a mais elementar moral política deviam proibir, condenando os seus autores. Isso é que choca quando, a par de um silêncio conivente, o Governo resolve actuar excluindo do apoio sanitário e medicamentoso do sistema de saúde dos militares os cônjuges destes, se forem beneficiários de um qualquer outro sistema.
Compreende-se que os cônjuges dos militares são uns milhares e que as Edites Estrelas são meia dúzia e que não há comparação possível entre os gastos de uns e de outros. Compreende-se quando se faz a análise dos números, mas repugna quando se olha para o princípio ético que dita um e outro comportamento, que dita uma e outra disparidade de critérios.
 
A mulher de César não precisa de ser séria, necessita, também, de parecer!
Esta é a grande trave mestra que deve sustentar o comportamento público dos políticos de todos os países.
Por estranho que possa parecer, o ditador António de Oliveira Salazar, o homem que permitiu e impôs a censura e a polícia política, que manteve na mais chocante miséria os trabalhadores deste país, que estratificou a sociedade portuguesa, aceitando a mobilidade social que vinha do esforço intelectual, teve sempre o cuidado de aplicar a toda a classe política uma moral de aparências bastante rigorosa, a qual só era trespassada nos casos em que ele próprio via conveniência para corromper e garantir a fidelidade política. Tendo podido rodear-se de todos os luxos e grandezas, tendo-lhe sido possível arranjar para os familiares bons lugares, era irmão de uma professora primária e, segundo consta, na conta que deixou no banco, após a sua morte, pouco mais havia do que a poupança de um modesto funcionário público.
Salazar terá permitido muita pulhice, mas impôs uma moral aparente que levou a que alguns portugueses, mal informados, acabassem, num concurso televisivo que foi uma farsa, nomeando-o o português mais representativo de todos os tempos. Este foi o poder de uma moral cheia de brechas, mas de uma moral política que queria disfarçar-se.
Nada desculpa a ditadura, mas ela pode servir, em alguns — poucos — aspectos de exemplo para os actuais governantes do nosso país.
Nos tempos que correm o despudor político é total. E, pior, permitido por gente que se diz socialista e democrata.

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por Luís Alves de Fraga às 10:56


5 comentários

De A. João Soares a 08.12.2007 às 11:46

Caro Fraga,
Cita dois casos. Mas há muitos outros que têm circulado em e-mails com fotocópias do Diário da República. Um deles é o emprego da filha de Alberto Costa no Min da Justiça.
Há pouco mais de um ano, a quantidade de assessores da CML foi objecto de variados comentários. Uma vereadora, M J Nogueira Pinto, em entrevista disse que os assessores são nomeados por critério de confiança e não de competência, pelo que acabam por ser meninos das juventudes do partido, dóceis e dedicados ao dono, que não fazem ondas e por isso, nem prestam ajuda nas decisões do dono.
E ganham bons ordenados e criam currículo para subida na carreira política, podendo chegar a ministros e, depois, a bons tachos em instituições ou empresas com capital do Estado.
Seria mais útil haver a décima parte de assessores competentes com tarefas bem definidas para serem avaliados na seriedade e isenção do seu trabalho. Deviam ser admitidos por concurso público.
Abraço

De jose antonio borges da rocha a 08.12.2007 às 19:01

Estava capaz de afirmar que neste momento em Portugal, na política como na área militar, a coisa bateu no fundo.

Urge fortalecer o processo revolucionário em curso chamado Blogosfera.

Estou convencido que o descontentamento castrense que haveria de gerar o 25 de Abril foi bem menor do que o actual, mutatis mutandis o facto de então estarmos em guerra aberta, pois hoje estamos na mesma mas é uma guerra "fechada", sem desígnio, sem semântica TOMBAM MILITARES PORTUGUESES NA BÓSNIA, NO KOSOVO, EM TIMOR, NO AFEGANISTÃO, ETC...

De António José Trancoso a 10.12.2007 às 23:28

Meu Caro Amigo
Por estas e por outras é que a Política e - o que é bem mais grave - a Democracia, andam já pelas "ruas d`amargura".
Aos donos da "chave do cofre" nada falta: boas remunerações, carros topo de gama, despesas de representação, subsídios de habitação, viagens e respectivas ajudas de custo, telemóveis com plafond ilimitado e outras mordomias com que a generalidade da espremida população contribuinte nem sonha.
Para o eficaz e normal funcionamento dos Serviços vocacionados para o bem estar geral...não há recursos.
Não é de admirar que haja quem comece a "branquear" o Salazarismo e a ser sensível à mensagem securitária de uma qualquer Ditadura...
Estará Portugal condenado a nada aprender com a sua própria História?!
Será que o autismo se instalou no seio dos governantes?!
Será que a decência e a integridade ficam à porta de entrada dos Ministérios, Câmaras Municipais e outras Instituições Públicas?!
As "portas que Abril abriu" foram-no para que, no dizer de Teixeira de Pascoaes, uns comessem demais e muitos de menos?!
Que melhor exemplo de corrupção precisam os Portugueses?!

De Paulo sempre a 11.12.2007 às 01:50

Interessante. Abraço

De Paulo sempre a 13.12.2007 às 00:41

«Benvindo» e não «Bem-vindo»....lembram-se?

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