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Fio de Prumo



Sábado, 01.12.07

Heróis à força!

 
Acompanhei com recato e silêncio respeitoso as notícias da morte de um jovem pára-quedista no Afeganistão. Perante a parca, nós, militares de carreira, sabemos calar-nos, porque conhecemos a dor de perder amigos e companheiros em muitos combates. Acima de tudo sabemos que não há preço que pague a vida ceifada em qualquer idade, mas, especialmente, na flor da juventude.
 
No nosso silêncio, nem levamos em conta que o jovem — tal como todos os outros que se encontram espalhados em diferentes teatros de operações — foi voluntário cumprir uma missão de serviço; nem nos preocupa se vai bem ou mal pago. Não interessa, porque o preço da vida é sempre pequeno seja qual for o pagamento que se faça. Discutir com base nesses argumentos seria mesquinho e um militar do quadro permanente não é nem pode ser mesquinho, porque o norteiam valores altos e nobres. Por isso, todas as honras são devidas a quem morre no cumprimento do Dever sagrado que a Pátria lhe pede. Mas honras dignas, sinceras e sentidas. Honras grandes, mas singelas como singelas são as vidas dos militares.
 
Repugna-nos o aproveitamento político que o Governo e, até, o Presidente da República fizeram da acidental morte de um soldado. Repugna-nos, porque se trata de tapar o sol com a peneira… Uma peneira rota e um sol desmaiado! Repugna-nos, porque, como corvos, os governantes foram aproveitar-se da dor de uma família para dar a parecer que dignificam e honram os militares. Na falta de um morto em combate — que me perdoem os familiares desse jovem — qualquer morto serve! Contudo esses mesmos governantes, que se acercam de uma família enlutada com o sentimento falso característico dos gatos-pingados, esquecem e deixam morrer na miséria muitos outros soldados, agora já velhos, que serviram noutra guerra, também por vontade de um Governo que não explicava os motivos de para lá se ir combater — como acontece com este que manda para terras longínquas soldados com a única aliciante de lhes pagar mais uns míseros cobres ao final do mês. A esses outros soldados, estropiados, física e mentalmente, regateia-se-lhes uma mísera pensão e comparticipação nos medicamentos. Aos militares que fizeram da sua vida uma dádiva constante à Pátria e agora estão no activo, na reserva e na reforma cortam-se as magras comparticipações sanitárias depois de se terem desgastado por África.
Essa outra guerra não rende aos actuais governantes dividendos políticos e ao ministro da Defesa Nacional, com ar de menino envergonhado e triste, não convém pavonear-se perante as televisões, gastando-se em discursos que nada rendem… Então, esses Soldados de Portugal, que morram para aí, sem glória nem honra e, acima de tudo, sem apoios financeiros que um qualquer Estado digno e correcto da União Europeia, diferente deste nosso mísero país, prodigaliza, sem hesitar, tal como o faz a França, a Bélgica, a Holanda, a Grã-Bretanha… até a Espanha.
 
Qual é, afinal, a diferença de comportamentos deste Governo para os do Estado Novo de Salazar? Faz os heróis que lhe convém e quando lhe convém! Assim, não nos merece crédito nem respeito.

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por Luís Alves de Fraga às 10:30


2 comentários

De jose antonio borges da rocha a 02.12.2007 às 13:59

Ipsis verbis Meu Coronel também assim penso.
Pergunto-me porque morreu este nosso concidadão? Alguém me saberá responder?
Ao serviço da Pátria diz o Ministro? Qual Pátria se esta já foi alienada...

Agora até o uso da espada lhes provoca confusão?

Pede-se aos Chefes Militares, Ex-Chefes, Altissimos signatários dos Destinos deste País que tomem a ATITUDE que o País espera e a Nação lhes exige: SUPONHO QUE DISSE TUDO O QUE HÁ PARA DIZER...

A BEM DE PORTUGAL

De Camoesas a 02.12.2007 às 21:59

É irónico meu caro Fraga.

No tempo da "outra senhora", os governantes também necessitavam dos militares mas pelo menos dignificavam-nos em vida, nem que fossa apenas com o cumprimento das "contrapartidas" em reconhecimento do seu singular sacrifício e disponibilidade, até para morrer!

Agora, os nossos governantes continuam a necessitar dos militares (nem que seja para se imporem à sociedade civil "cá dentro" e se fazerem notar políticamente "lá fora") para que estes lhes cumpram as obrigações do Europeismo e da globalização.

A diferença é que estes governantes, não têm memória nem respeito por aqueles que no passado lhes garantiram o futuro (os reformados e estropiados) e, aos que estão agora no activo, só os respeitam e dignificam...
...Depois de mortos!

Os meus sentimentos e respeito aos familiares ..

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