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Fio de Prumo



Quarta-feira, 14.11.07

O salto de D. João II

 
As ossadas de D. João II deram um salto no túmulo onde repousam! A coisa ocorreu há poucos dias.
Esse monarca, filho de D. Afonso V, o batalhador incansável que no Norte de África quis fundar um outro Algarve — o de além-mar — grande e poderoso e, já para o fim da vida, guerreou Castela para garantir o direitos de sua sobrinha — a Beltraneja — à coroa daquele reino de Espanha, esse monarca, dizia, conta a lenda, ao subir ao trono, após a morte do progenitor, terá declarado que o pai o deixara rei das estradas e caminhos de Portugal, já que os bens da casa real os havia distribuído pela nobreza em paga dos serviços prestados nas muitas guerras por si travadas.
 
Pois é! As ossadas daquele a quem a História apelidou de Príncipe Perfeito deram um salto ao saber, lá no assento etéreo onde o seu espírito repousa, que um tal José Sócrates, primeiro-ministro de Portugal, havia arrendado, para exploração privada, a única coisa que ele herdada de seu pai: as estradas e caminhos do reino!
Está de rastos o tesouro real! É que já não havendo anéis para vender, cortam-se os dedos e trocam-se, alugam-se ou empenham-se pelo melhor preço que qualquer comerciante de macabros bens esteja disposto a dar para, com as unhas mortas, tocar a guitarra, conforme lhe for possível.
 
O leitor terá percebido bem o alcance desta concessão, até 2099, da exploração das estradas nacionais?
Isto é, por um lado, esvaziar o Estado dos encargos de manutenção e conservação dos caminhos que todos nós percorremos; por outro, dar a possibilidade de voltarmos à situação medieval de, para nos deslocarmos, ter de pagar sucessivas portagens para «entrar» nos vários «domínios senhoriais» que a assembleia-geral da Estradas de Portugal S. A. entender estabelecer. Já não bastavam as auto-estradas… Agora até as estradas, por mais miseráveis que sejam, podem ter portageiro.
Quando se dá de concessão as estradas de um país é porque já nada é do Estado!
 
Não nos venham os governantes tentar nublar o entendimento com justificações diversas! A atitude marca pelo princípio que foi quebrado. Já que não há alfândegas para dar como garantia dos empréstimos contraídos — tal como era prática nos últimos Governos da Monarquia — dão-se as estradas!
 
D. João II, face à miséria do tesouro real, tomou uma resolução revolucionária: inventou, dizem, uma conspiração da grande nobreza do reino contra a sua real pessoa e matou e mandou matar os dois nobres mais ricos para lhes ficar com os bens. Por outras palavras, utilizando uma linguagem de hoje, nacionalizou-lhes os cabedais.
Antes, em 1383-1385, já D. João I, o que havia sido mestre da Ordem Militar de Avis, adoptara igual medida contra os nobres que, seguindo a tradição da época, se haviam colocado ao lado de D. Beatriz e de D. Juan de Castela. Muito mais tarde, o mesmo expediente foi usado pelo rei D. Pedro IV — então mero regente em nome da sua filha D. Maria da Glória — quando, por extinção das ordens religiosas, lhes ficou com todos os bens de raiz. Da venda a particulares viveu, enquanto pôde, a Monarquia constitucional. A República, logo em 1911, fez algo semelhante: apoderou-se dos bens da Igreja e, embora não vendendo os mosteiros e conventos, neles, sem dispêndio para a fazenda nacional, fez instalar escolas, institutos e quartéis — agora negociados pelos governos democráticos que nos desgovernam. De novo, em Março de 1975, se nacionalizou a banca e tudo o que dela estava dependente e, com o produto deste acto, vendendo mais uma vez, sobreviveu o Estado, gastando à tripa forra em benesses qual D. Afonso V a beneficiar a sua cavalaria.
 
Está na altura de o ciclo continuar. Aproxima-se o momento de, uma vez mais, por uma revolução — pode inventar-se uma conspiração globalizante, por exemplo — nacionalizar de novo o que foi vendido e é do Estado, porque, diz o Povo, «o que há-de ser nosso à mão nos vem parar»! De desgoverno em desgoverno, de roubo em roubo, de nacionalização em nacionalização, a par de descobertas de Índias e ouro nos Brasis — o nosso último Brasil foi a adesão à CEE — Portugal, graças ao falso milagre de Ourique — mais uma vigarice para justificar a existência — há-de sobreviver, mantendo, se possível uma ampla servidão da gleba enquanto uns homens, muitos, procuram tornar-se em ricos-homens ou, talvez, com mais propriedade, em homens ricos.
Produzir e rentabilizar, trabalhando e distribuindo com justiça o rendimento conseguido, isso é que não! Somos nobres em excesso para vergar a cerviz perante tais obrigações… Um negociozito, ainda vá lá! Mas não exijam mais! Pimenta, especiarias, escravos, ouro, diamantes e cacau de algum lado hão-de vir para nos sustentarmos neste gosto pelo espavento e exibição balofa já não de carruagens puxadas por magros cavalos, mas de Mercedes e BMW, mesmo que em segunda mão, para encher gulosamente o olho do vizinho.
 
Vivamos o ciclo da História e preparemo-nos para o próximo golpe que será lançado por uma qualquer ideologia nascente. Entretanto, mantenhamos este sorriso matreiro nos lábios, porque foi sempre assim que os nossos antepassados souberam sobreviver enquanto rezavam aos seus santos protectores.

Venha daí uma nova nacionalização, porque está na hora!

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por Luís Alves de Fraga às 10:25


7 comentários

De António José Trancoso a 15.11.2007 às 00:30

Meu Caro e Bom Amigo
Ainda te "acertam o passo" acusando-te, no mínimo, de catastrofista, para não dizer de "traidor" à Pátria.
O sr. 1º ministro "não mentiu" na Assembleia da República e os propalados 99 anos, muito provavelmente e nesta perspectiva, não verão a luz do dia no texto do Decreto governamental em forja.
Qualquer prazo, abaixo e a partir dos 98 anos...salvará a "honra do convento".
Tudo o mais não tem oficial importância.
A Comentadora Maria tem carradas de razão; tudo está em saldo, para não dizer em leilão.
Aguardemos o próximo episódio da novela Ota versus Alcochete.
Quem dá mais?

De jose antonio borges da rocha a 15.11.2007 às 10:24

Há uma saída por dentro: o PR instaura o Estado de Sítio/Emergência, demite o PM e o Governo, encerra a AR e constitui um Goervno de Restauração Nacional com um unico objectivo: RESTAURAR A DIGNIDADE NACIONAL.


Saudação amiga

De António José Trancoso a 16.11.2007 às 23:45

Senhor Major Borges da Rocha
Constituir um Governo de Restauração Nacional!?!
Não nos quererá dizer... "Com Quem"?
Por iniciativa de Cavaco Silva!?!
Será que ainda acredita no Pai Natal?!

De José Cruz a 16.11.2007 às 18:26

Meu caro Fraga
A preguiça, para não utilizar a pseudo falta de tempo, não me tem deixado comentar os teus anteriores escritos e que bem o merecem, pela lucidez e verticalidade intelectual com que têm sido produzidos.
Mas a este, não resisto.
Magistral, a constatação da venda a privados, do único bem patrimonial que D. João II havia herdado de seu pai e parece que dos últimos que se prestam a tal transacção por parte do poder público actual.
Não menos interessante a sucessão de nacionalizações/privatizações que ao longo dos tempos se foram verificando e a tristeza da lógica que as foram suportando.
Ou, dizendo de outra maneira, as lições da história aplicadas à leitura da actualidade, através do conhecimento de um historiador e de uma mente vertical.

De Camoesas a 16.11.2007 às 23:20

Temos um herdeiro do trono que até serviu a sua pátria orgulhosamente como militar, em tempo de guerra e de livre vontade.

Será que afinal, O herdeiro não tem herança alguma? Pior ainda que os seus antepassados? Nem o solo que pisa porque o resto já foi negociado (leia-se privatizado)?

Será Ele, herdeiro apenas ...
...Da Dignidade, Honra e Orgulho de ser português?

De Fernando Vouga a 17.11.2007 às 16:40

Caro Luís Fraga

É fácil de ver que o cidadão Pinto de Sousa confunde reforma com destruição. Em vez de atacar o que está mal e preservar o que está bem (é impossível que tudo estivesse mal...) está simplesmente a acabar com o Estado.
E o pior é que os tentáculos deste imenso polvo que é o partido do Governo atingem em cheio a classe média que começa a estar ferida de morte. E as coisas só funcionarão em proveito dos poderosos, porque são eles que alimentam esse partido.

De António Cardoso a 17.11.2007 às 19:51

Sr . Coronel,

Será que poderei dizer que o limiar (sem referendo) da nova Constituição, perdão, Tratado Europeu, bem vindos à nova Eurocionalização "?

Talvez seja este o futuro, já anunciado, novo golpe.

Bem haja Sr Coronel

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