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Fio de Prumo



Segunda-feira, 29.10.07

É confrangedor!

 
Por razões várias, confesso que, de momento, ando demasiado ocupado com trabalhos vários os quais não me permitem grande disponibilidade de tempo para escrever todas as crónicas que gostaria de deixar aqui, no «Fio de Prumo». Contudo, existem situações perante as quais o silêncio tem de ser quebrado. É o caso do vídeo que mão amiga me fez chegar através de uma mensagem e que pode ser visto de seguida.
 
 
Sei que 33 anos são muitos anos para quem tem vinte ou trinta de idade — embora poucos para quem já dobrou os 65 — no entanto, há a chamada memória histórica que adquirimos pela instrução, pelo estudo, ou pelo convívio; até pelos programas de televisão.
 
É confrangedora a ignorância que esta amostra nos dá — e que corresponde à realidade social portuguesa. Ela reflecte os programas do ensino em Portugal; do ensino mais elementar e do secundário.
 
Por uma razão que não sei explicar, depois do 25 de Abril de 1974, gerou-se como que um complexo quanto ao estudo da História Portuguesa, uma descaracterização da personalidade colectiva nacional. Estamos a deixar-nos diluir na cultura e na identidade de outros agrupamentos colectivos que nos circundam, que nos abafam, que nos submergem. Ora, uma tal atitude, além de ser uma espécie de suicídio cultural colectivo, é uma traição aos valores que nos justificam como Povo, como Democracia, como Nação e, até, como Estado, ainda, independente e soberano, dentro das soberanias relativas da União Europeia.
 
É evidente que não sou apologista dos valores nacionalistas, nem da História Nacional que enformou várias gerações de homens e mulheres durante o Estado Novo, mas, para ser independente e verdadeiro, tenho de deixar claramente dito que, no ensino primário, durante a Ditadura, mesmo criticando-se com acinte a 1.ª República, aprendia-se o motivo da existência do feriado em 5 de Outubro e, correndo o risco de verem proibidas, pela censura, algumas passagens, os jornais e as revistas da época, à sua maneira e tal como podiam, divulgavam ensinamentos sobre os escassos 15 anos e meio de democracia republicana em Portugal.
 
É, também, confrangedor o silêncio educativo que os órgãos de comunicação social estabeleceram à volta do regime derrubado há 33 anos. Também desta forma se gera a ignorância, o branqueamento, da História recente. Também desta forma se ajuda a descaracterizar um Povo que, já de si, tem tendência a menosprezar-se.
 
Quem vem salvar Portugal? Quem nos vem resgatar da ignorância e deste obscurantismo disfarçado pela tecnologia dos computadores e telemóveis? Quem nos vem ensinar o caminho das nossas raízes?

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 18:29


9 comentários

De António José Trancoso a 30.10.2007 às 00:45

Meu Caro Alves de Fraga
Esta série de "entrevistas" são, concerteza, uma cómica e bem apanhada rábula ao estilo das do "Gato Fedorento".
Recuso-me acreditar que tal coisa possa ser levada a sério. Se assim fosse teria de concluir que a este País não restaria a mínima hipótese de Futuro.
A risada, pelo absurdo, é sempre saudável.

De Camoesas a 30.10.2007 às 10:13

Já há muito tempo que aqui escrevi, no seu blog, que os meus netos irão aprender na escola que quem fez o 25 de Abril, foram Mário Soares e o falecido Dr Cunhal...
Os militares só atrapalharam mas logo foram metidos na ordem...

Manter o povo ignorante é meio caminho para atingir e assegurar o poder, não faltará muito para que as campanhas partidárias sejam feitas em Latim...

De António José Trancoso a 30.10.2007 às 20:00

Camoesas
Se o 25 de Abril fosse atribuído a Soares e Cunhal não seria mau de todo.
Muitos mais foram os que, pela Liberdade e respeito pelos mais elementares Direitos Humanos, tudo deram. Até a própria vida.
Foram esses muitos que, com a sua abnegada persistência, conseguiram sensibilizar os jovens Militares para a reflexão sobre a sua verdadeira Missão Patriótica.
É certo que a Guerra Colonial ajudou àquela sensibilização, tanto pelos sucessivos, e insucedidos, sacrifícios impostos, como, pelo facto de se ter aberto uma brecha na barreira, elitista, de acesso aos Estabelecimentos Militares de Ensino Superior.
Salazar autor de Abril?
Mas é claro que sim.
Ele e os seus seguidores criaram, ao longo do tempo, todas as condições para a sua derrocada.
Tal como o PNL (Partido Neo-Liberal), sucessor do moribundo PS, em senda oportunista de oportunistas, vem prosseguindo.
Aos PNLs (leia-se "Peneles"), designadamente à sua responsável pela (Des) Educação, convém o esvaziamento das mentes.
Mentes persistentemente "preparadas" para aceitar o inaceitável, em nome de valores, que, de valores... só lhes resta o colorido invólucro.
Pergunte-se a um "esvaziado" o que entende por Valores. Não será de admirar que a resposta se refira a qualquer coisa como algo que...se transacciona na Bolsa.

De jose antonio borges da rocha a 30.10.2007 às 14:27

Não me reconheço dogmaticamente “nacionalista”, mas porque fui Lusito da Mocidade Portuguesa e porque tenho filhos que cresceram neste regime da omissão, talvez… ou seja talvez seja melhor reproduzir na íntegra esta espantosa fábula Bem Portuguesa, um contrataste entre o Portugal que já foi e o quão diferente hoje é:
“Boa noite senhor touro.
Boa noite senhor toureiro.
Sabe o meu nome?
Sei apenas que nascemos no Ribatejo.
Aprendemos juntos.
Vosmicê a arte de ferir.
E vosmicê a arte de fugir.
Agora aqui estamos – um cavalo, um touro e um homem – a divertir uma multidão de imbecis.
Ouça como eles urram.
Mas a tourada é o nosso destino. Quando o avistava, menino ainda, nos vampos de Santarém, dizia com a minha experiência de garrote de boa linhagem: eis aí uma pinta de toureiro. Um dia nos defrontaremos.
E eu, ao vê-lo como um pequeno deus, olímpico, a pisar a grama, pensava o mesmo.
Afinal, encontramo-nos.
Aqui em Santarém.
Ouça como eles berram.
São uns parvos.
Querem emoções, senhor touro.
Tê-las-ão.
Sou um touro português.
Qual a diferença?
Já assistiu a alguma tourada em Espanha? Ou no México?
Nunca saí de Portugal.
Uma carnificina. Alguém classificou aquele espectáculo de covardia de açougue.
Por acaso matam o touro?
Matam? Espetam-no como se fosse uma vaca.
A frio?
A ferro. Depois de toda a luta, depois das bandarilhas, enfiam-lhe pelo dorso a lâmina assassina.
Porquê?
Ora, é a apoteose do homem.
Que fazem do cadáver?
Primeiro, se foi touro decente...
Touro decente? Que negócio é esse?
Sim, touro lutador, impávido, é aquele que honra a sua raça e cai lutando. Se o animal é deste tipo...
A que animal se refere? Ao quadrúpede ou ao bípede?
Ao bisonte, naturalmente. Se ele é valente, merece a graça de ter as orelhas cortadas, depois de morto. E ofertadas ao dono da festa, exibidas ao público ululante, e como trofeus sangrentos.
Não vejo a graça. E quando morre o toureiro, cortam-lhe as orelhas? Fazem a mesma coisa?
Não. Sem orelhas, a carcaça negra do animal vencido é arrastada miserávelmente pela arena, como a última homenagem ao povo que salta.
Nunca uma sociedade protectora de animais protestou contra semelhante espectáculo?
Acaso elas protestam contra o acto da morte?
Admitamos que em Portugal a cena é outra.
Nem por isso, contudo, oferece-se ao público menos emoções.
Lembro-me da descrição feita por um escritor português de uma tourada em Santarém, o animal irrompendo do couro, negro e luzidio, e o cavalo que o espera, nédio e nervoso entre as esporas do cavaleiro. Tudo produto da terra ribatejana. Só nela o puro-sangue...
O touro?
E o homem. Só nela um e outro podem encontrar o seu húmus, a virgindade dum solo que um deus ainda visita e fecunda. O touro, e o homem que o domina, não em luta desigual e traiçoeira, mas saltando-lhe para o lombo indomado ou recebendo-lhe a marrada impetuosa e cega no peito.
Real a imagem.
Veja o fim: na articulação dos três lados do triângulo – campino, cavalo e touro – conjugam as últimas forças viris que restam a Portugal dos tempos livres da natureza, das eras selvagens e testiculares que a civilização castrou. Homem e bicho, irmanados no mesmo ardor que o instinto desperta, encontram-se no terreiro que o sol da razão não ilumina.
Que diz mais o tal senhor?
Que é no Ribatejo o sítio do mundo onde esse embate é mais belo e natural.
Não vejo porquê. Falta o ponto-final. A morte.
Porque a luta, ali, não é para servir a nenhum senhor, ou distrair a atenção inqiuetante das massas. É um acto de coragem. Por sentir que o combate que vai travar não é um fruto do rancor, o campino veste-se de garridos trajes, ergue na mão um pampilho, o cetro de sua majestade, o símbolo de uma grandeza feita de graça e valentia, e quando soa na praça o clarim da refrega, é assim vistoso e confiado que ele se expõe. E o poeta chama de festa brava à lide gloriosa!
Excelente a descrição desse tauromaníaco português.
Esta é a tourada portuguesa onde o campino pode dar largas aos seus impulsos sem ferir o semelhante. A natureza conservou-lhe esse dom. O seu colete encarnado é uma mancha quente de sangue e de alegria a atrair a fúria das bestas. Num gesto voluntário de puro risco, a força humana lança o desafio, processa o gosto sensual de viver ou morrer em belez

De Manuel Amador a 30.10.2007 às 14:51

Por muito que isto custe a acreditar é de facto verdade!!!

A nossa sociedade chegou a este estado miserável, inculto, de memória curta, de ideais perfeitamente vazios de ideias e de interesses superficiais e bacocos.

Pergunto a quem deu o seu melhor em prol da democracia, valeu a pena fazer o 25 de Abril??

Se valeu a pena, terá sido bem feito??

De HELDER MARQUES a 30.10.2007 às 17:09

Meu caro Coronel Alves de Fraga espero que esteja tudo bem consigo depois de se ver tamanha ignorância, até dá pena ver tanta burrice junta, não dá para acreditar que uma pessoa diga que o Otelo pertenceu ao governo de Salazar.
Abraço para si meu Coronel Alves de Fraga
Helder Marques

De António Viriato a 02.11.2007 às 01:11

Caro Amigo Alves Fraga,

Os danos desses complexos para com a História e a Cultura Portuguesas são hoje insofismáveis. E só melhoraremos, se os soubermos identificar e extirpar.

Para já, seria necessário alterar profundamente a Educação das gerações mais novas, vítimas de um Sistema de Ensino degradado, desarticulado, permissivo, desorientado, grandemente ineficiente.

Mas bastou ouvir há pouco, na RTP1, a Ministra da Educação para vermos quão longe estamos deste objectivo.

À medida que o tempo passa, a nossa crença numa regeneração do País vai esmorecendo.

Difíceis tarefas se vão deixar às gerações vindouras...

Um abraço.

De JV a 02.11.2007 às 19:08

«« Por uma razão que não sei explicar, depois do 25 de Abril de 1974, gerou-se como que um complexo quanto ao estudo da História Portuguesa, uma descaracterização da personalidade colectiva nacional. Estamos a deixar-nos diluir na cultura e na identidade de outros agrupamentos colectivos que nos circundam, que nos abafam, que nos submergem. Ora, uma tal atitude, além de ser uma espécie de suicídio cultural colectivo, é uma traição aos valores que nos justificam como Povo, como Democracia, como Nação»»

O problema, parece-me, foi que o 25 de Abril confundiu o ensino da História com o fomento do Patriotismo, e o fomento do Patriotismo com o Salazarismo. E houve muitos equívocos do género: por exemplo, ao nível educativo, com o 25 de Abril passou a confundir-se coisas tão distintas como exigência e autoritarismo; confundiu-se o respeito pelas forças da ordem com a submissão à brutalidade; confundiu-se, enfim, tudo o que são princípios que geram uma sociedade normal e sadia com instrumentos de submissão do despotismo - e deixou-se formar uma geração para quem Portugal não é uma comunidade histórica e nacional, mas o lugar onde, por acaso do destino nasceram, e em relação ao qual tanto se lhes dá qual possa ser o futuro que tem.
Em suma, tanto se quis destruir o fascismo e tudo o que com ele se ligava, que o regime democrático acabou por, como sói dizer-se, "deitar fora o menino com a água do banho". Talvez já não estejamos a tempo de o resgatar...

Cumprimentos,
JV

De maria a 13.11.2007 às 13:03

Bem isto seria cómico...se não fosse trágico!!!
É mesmo uma tragédia, verificar, que grande parte da população, não tem a minima ideia do que foi o antes do 25 de Abril...asssim se vê o analfabetismo politico(e não só) em que grande parte dos nossos compatriotas,vivem...
Vergonhoso mesmo diria...
Um abraço

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